quinta-feira, 28 de junho de 2012

DA ESCURIDÃO - PEDAÇO E PSIU




A escuridão não é coisa ruim toda hora. Tem tempo curto que é bom quando ela vem e a gente fica presa num canto com ela ajustando os pensamentos. A escuridão tem vezes que é como espelho de se enxergar por dentro. No comecinho do escuro a gente não vê nada do lado de fora e dá uma coisa agoniada, uma vontade de fugir dos braços dela e encontrar um pedaço de mundo de luz acesa e noite parindo estrela. Quando a hora se arrasta e a gente para de desatenção, o olho de dentro, devagarinho, esmiúça pra fora tudo quanto é feiura e só deixa entrar de novo o que for bonito. Tem bichinho feio que se esconde lá por trás do espelho de olhar por dentro, disfarçado de boniteza, arranjando de novo moradia, esperando a hora de fazer doer.  E se o pensar descuida e parece que a sombra apagou pra sempre a luz dos pedaços do mundo, e no céu a última estrela se deitou, um cisco aceso ziguezagueia, rascunhando claridade dentro e fora da gente... Diz Guimarães, o Rosa, ser travessura de um vagalume lanterneiro que riscou um psiu de luz, alumiando tudo de novo.




segunda-feira, 25 de junho de 2012

RIOmenosEUemais20


Pois não é que o encontro do Rio Mais ou Menos Vinte foi-se eu nem percebi? Devo estar noveleira demais, e me esquecendo das importantices do mundo. Então hoje recebi um email do Leonel cujo teor era um desabafo da jornalista Leda Nagle acerca da ideia sustentável de se abolir as sacolinhas plásticas (aqui na terrinha chamam-nas de “chiadeiras”) em prol de um planeta com menos delas para pseudo-alimentarem as tartarugas marinhas. Tá certíssima a moça. Então quer dizer que só as sacoletas dos supermercados, aquela que o cliente efetuará o pagamento caso queira carregá-las, apenas elas são nefastas para o meio ambiente? E todas as outras de tantos estabelecimentos comerciais?

Afligiu-me uma comichão para dissertar sobre o tema. Mas escrivinhar o quê se do evento top-master da sustentabilidade eu estava porforilda da silva? Lamentei minha alma frívola...

Falando com a Simone sobre estar naquele momento tentando escrevinhar sobre o evento tão aguardado por onze entre dez cidadãos lutadores em prol de um planeta que se aguente de pé, ela me diz:

 - Mi, fique muito distante do RIOmenosEUemais20.
- Ficar distante por que? Gostei desse seu título...
- Por que o centro do Rio estava um caos. Um monte de manifestações inúteis e sem nexo. Conversações infindas e sem soluções relevantes, faculdades sem aula, trânsito parado. O representante da ONU criticando as conclusões finais e depois voltando atrás... Índios sarados, de carro, fazendo dancinhas da chuva, a Presidenta desfilando sua figura insípida como uma mera visitante e tomando chá com outras senhoras e nada importante foi dito.Sem contar que nesse meio tempo os hospitais públicos estavam piores que o de costume. Salve-se a água do planeta e o povo ainda morre de dengue no Rio e de fome em outros lugares.

Sem mais a ser dito pela minha desinformada pessoa, diante de um testemunho de quem vivenciou toda a pataquada, pensei que poderia ter contribuído para esse eventíssimo auxiliando na formação de um pequeno coral a ser apresentado no encerramento, tendo como participantes alguns representantes das nações e a galera revoltosa da Cúpula dos Povos, fazendo coro.

Pedi licença a meu São Luiz do Gonzaga, o Rei do Baião e trouxe uma cantiguinha sua, daquelas a perceberem há tempos o mundo verde de fome e descaso, pra fazer minha singela homenagem aos mandatários das grandes nações, tão preocupados com seus próprios narizes de Pinóquio, enquanto o planeta não se sustenta de pé, tamanha é sua falência.

Vamos lá, pessoas, ajudemos esses queridos a cantarem Gonzagão. Ficaria mais ou menos assim o refrão:

Dulcíssima excelentíssima Presidenta:
                             Cadê a flor daqui?

Cúpula dos Povos Lascados: 
                            Poluição comeu!

Ban Ki-Moon Morto de Vergonha:                                       
                           E o peixe que é do mar?

Cúpula dos Povos Verdes de Fome:
                           Poluição comeu!

Hillary Clinton Cara de Jacarandá:    
                                O verde onde é que está?

Cúpula dos Povos Que Não Se Sustentam de Pé: 
                         Poluição comeu!

Presidente-vitalício Lula Que Ainda Não Sabe de Nada:     
                                Nem (o companheiro) Chico Mendes sobreviveu


A reunião de Condomínio da ONU teria um encerramento bacaninha...







sábado, 23 de junho de 2012

ENSOLARANDO



São tantas coisas a serem faladas. Sentemos aqui, nos espalhemos nas almofadas convidativas e apenas deixemos surgirem os assuntos. São sempre tantos, tão bobos e sérios, importantes e frívolos. Os temas nunca vêm sozinhos, trazem engatados feito vagões de trens das emoções o riso, as lágrimas, o silêncio e um barulho ensurdecedor dos nossos gritos. Eu e você temos o dom de escutar os gritos internos um do outro e isso é sublime. Eu e você nem nos demos conta da magia e num átimo havíamos entrelaçado as almas. Suportamos dias de tempestade e saímos pra dançar e beber a chuva toda, quando a chuva vem. Gostamos de sapatear nas poças d’água das nuvens chovidas e gargalhamos, insanos e felizes. Nesse instante a felicidade é dona das nossas almas e firmamos com ela pacto de infinito encontro... Sabemos da inverdade dessa promessa, mas não julgamos mentirosa a felicidade. Ela precisa partir vez ou outra, feito quisesse testar nossa impermeabilidade quando as tempestades forem ainda mais fortes. Quando ela se ausenta de nós, escutamos ao longe os versos cantados do poeta, dizendo “o pra sempre, sempre, sempre acaba” e mesmo assim seguimos dançando nosso sorriso, na chuva do céu taciturno. Eu e você aprendemos a esperançar o Sol, ele sempre surge radiante e lindo, iluminando tudo a nossa volta. Eu e você temos sorte de termos um ao outro...  E podermos sapatear nas poças chovidas. E esperançarmos o Sol que sempre vem. E meramente nos espalharmos nas almofadas coloridas, dizendo piadas sem graça, chorando canções viscerais, verbalizando poesias malditas, benditas poesias! Eu e você adoramos cultivar a paz existente nas nossas almas enlouquecedoramente normais.




quinta-feira, 21 de junho de 2012

CHÃO DE ESTRELAS


Vestido de chita, laço de fita no cabelo e estava pronta a menina pra soltar chuvinha na noite de São João. Pro menino a mãe arrumava uns remendos na calça, a camisa estampada e um chapéu de palha, desfiado nas beirada.

O terreiro da frente todo enfeitado de bandeirinhas e balões que a meninada fez, recortando revistas velhas, nas páginas mais coloridas. A mãe dizia que não ia gastar dinheiro comprando papel de bandeira, pra no outro dia ficar tudo perdido. Ela sabia que de revista também ficava bonito.

Quando chegava a noite o pai acendia a fogueira, resultado do esforço de uma tarde inteira procurando tocos de madeira, cortando troncos secos... Bom mesmo era ter fogueira bem grande no terreiro da frente. Fazia uma claridade grande que só! Devia ser bonito ver de lá do céu um monte de estrela na terra, estrelas feitas de fogo.

Logo a meninada toda se misturava num terreiro e outro, soltando chuvinhas e se deliciando com o barulho dos traques estourados no chão. Com as bombas não dava pra vacilar, o pai falava pra ter cuidado, um descuido e podia fazer uma arte nas mãos. “A pessoa pode ficar sem um dedo... até sem a mão inteira se uma bomba dessa estrondar perto demais”... Os mijões o pai deixava. Ele gostava de rir quando via um correndo atrás de um menino, que nem uma cobra veloz.

Os adultos se animavam com Luiz Gonzaga puxando a sanfona na radiola, enquanto as espigas de milho eram deitadas no pé da fogueira. Havendo uma brasa acesa, milho verde, quentão e gente com disposição, a madrugada se estendia pra alegria de São João, que festejava aniversário numa singeleza e empolgação jamais percebidos.

A gente feliz que nem se importava com a fumaceira lhe perseguindo a respiração, parecia esmorecer à medida em que o fogo se aquietava. A menina gostava de pensar que de lá de cima São João ia apagando vela por vela – as fogueiras – dizendo a todo mundo a hora de dormir.

Mas São Pedro também gostava de ver do céu as estrelas de fogo, por isso era melhor não descuidar do vestido vermelho e bolinhas brancas, porque daqui a alguns dias céu e terra fariam imensa e feliz claridade outra vez.






quinta-feira, 14 de junho de 2012

O SANTO E A SOLTEIRICE

Antes da simpatia casamenteira,  
leia a COAÇÃO no RELICÁRIO
Tá bacaninha...

Treze de junho, dia do Santo, o Antônio, aquele casamenteiro que faz onze entre dez encalhadas  o mimarem, colocarem o dito de castigo, pagarem promessas absurdas a fim de somente serem expulsas da involuntária Sociedade dos Amorosamente Desfavorecidos.

Eu se fosse o santo, o Antônio, me divertiria horrores lá de cima, escondido de Deus, porque Ele, o Senhor, não curte essa parada de bullying, principalmente partindo dos seus embaixadores do milagre. Com a missão a ele atribuída, a de casar a todo custo as acometidas pela solteirice, fosse eu Santo Antônio também fazia uma mangação enquanto decidia entre uma presepada ou outra para mandar como motivo de casamento das mais desesperadas.

As simpatias são as mais... bizarras? Se comete até a tentativa de congelamento do santo num frigorífico, sob ameaça assombrosa de só tirá-lo de lá quando aparecer o sapo a galope motorizado, mesmo que seja para a princesa encalhada pagar a corrida do moto-taxista. O pobre fica sem alternativa, sob um frio insuportável, então envia qualquer estrupício para contentar a desesperada. Aquela simpatia de colocá-lo de cabeça para baixo é clichê demais da conta e o Tonho já deve ter desenvolvido uma técnica de respiração debaixo d’água, inúmeras são as tentativas de afogá-lo. Algumas me interessaram e talvez eu as execute para o próximo até o próximo dia treze de junho. Me armarei de velas brancas, lenços dos pretendentes, alianças, copos brancos, pétalas de rosa... Me aguarde, santo casamenteiro.

Aliás, o próprio é o culpado pela maluquice. Reza a lenda que duas moçoilas encalhadas não tinham dinheiro para o dote, o santo, generoso que só, teria jogado um saco de moedas pela chaminé das duas. A partir de então, tornou-se o protetor das contaminadas pela solteirice duradoura.

Com meus botões, indaguei: o santo não teria levado a sério demais aquela máxima de tomar um gole da cachacinha alheia de todo dia e acabou buscar nessa prática um refúgio contra o desembesto feminino em busca de um par de calças? O pobre deve ficar desassossegadinho da silva com tanta prece enlouquecida e vão-se os goles espirituais. Com “umas” a mais não há quem dê conta de entregar a contento as almas gêmeas.  Então, dá-se a confusão e Santo Antônio segue ouvindo lamúrias pelas mercadorias que entregou na casa errada.

A Santo Antônio não peço marido. Quero propor a ele uma promessa sem tanta dificuldade de cumprimento, que presenteie com intermináveis ataques de soluço a todos que costumam se dirigir a sensíveis mocinhas feito eu como SOLTEIRONAS. Caramba! Essa palavra é horrenda. Por que não posso ser solteirinha, solteiríssima ou simplesmente solteira? Solteirona me faz sentir culpada por não ter ajudado a superpolular o planeta, me tornando exímia parideira e também uma lavadora de cuecas em potencial.

Quando escrever o meu Manifesto da Solteirência, ele terá o seguinte lema: “Há vida útil, inteligente e prazerosa na solteirice”.

Por via das dúvidas, enquanto eu mesma tento crer nessa minha máxima, vou compondo uns versinhos pra Santo Antonio e até o próximo treze de junho, quem sabe, um arremedo de amor hei de encontrar:


Santo Antonio meu querido
Eu preciso te falar
Me arranje um bom marido
Bem queria me casar

Mas não mande bagaceira
Que eu não tô no desespero
Quero cabra de primeira
Viu, seu santo cachaceiro?

Brincadeira, meu santinho
Cachaceiro tu não é
Só anda meio azoado
Com reza de tanta mulher

E pro caso de defeito
Na tão desejada prenda
Sem nenhuma cerimônia
Eu devolvo a encomenda




sexta-feira, 8 de junho de 2012

DESAVENTURANÇA

Ela sobrevoa, passarinha que é, senhora de Si em qualquer espaço aonde se respire arte. É um voo absurdamente genuíno, sem apelação ou explicitação a fim de fazer figura inteligente. É feito tivesse a arte uma escudeira fiel e amorosa, para os momentos em que seja esquecida por motivo qualquer.

Tem-se aqui um pedaço da história de Paulina, personagem a qual eu nem supunha existir e me vi na função de contá-la. Abracei a missão. Cumpri orgulhosa de contar um conto tão lindo, parido da mente dessa camaleoa poeta, guardiã da palavra, prima-irmã dos verbos em brasa.

A alquimia, texto e voz unidos de forma tão bacana, não seria possível sem as mãos mágicas e a presteza desmedida de Rodolfo, a quem se pode chamar de amigo sem o menor risco de errata.

Então, aperte o play e observe em silêncio o zig-zaguear das pernas de Paulina... Logo abaixo.






quinta-feira, 7 de junho de 2012

INFINITIVAMENTE PESSOAL


Implorei desculpas. Mastiguei os medos. Descobri segredos. 
Verbalizei!

Devorei as noites, assustei fantasmas, caminhei a esmo. 
Andarilhei!

Retirei espinhos, soprei redemoinhos, bebi do vosso vinho. 
Embriaguei!

Vomitei verdades, cuspi marimbondos, rechacei o ódio. 
Desesperei!

Esperei milagres, misturei as rezas, caminhei depressa. 
Eu supliquei!

Comi o passado, lambi as feridas, devorei tristezas. 
Continuei!

Eu pichei o sete, mordisquei palavras, fiquei quase lúcida. 
Gargalhei!





Cavando passagem, pra seguir viagem, sem levar bagagem. 
Esmiuçando!

Movendo tantos céus, percorrendo chãos, engolindo nuvens. 
Flutuando!

Desnudando mitos, espantando monstros, acalmando dores. 
Vou vagando!

Saboreando lágrimas, inventando amores, afastando mágoas. 
Sublimando!

Misturando gentes, gritando prazeres, libertando a alma. 
Cantarolando!

Parindo esperança, apanhando sonhos, abraçando a lua. 
Ensandecendo!

Vou cuspindo fogo, beijando poesia, namorando a vida. 
Inquietando...









domingo, 3 de junho de 2012

SOB O CÉU DE UM DOMINGO CINZENTO



O céu pintado de cinza, estranho para uma tarde de domingo que só combina com o Sol feito laranjão, alumiando tudo. Melhor parar de espiar pra cima, inquirindo o céu e sua indecisão de se fazer chuva ou quentura... Talvez os céus tenham um signo no zoodíaco e o teto celeste sobre a minha cabeça deve bem ser libriano.

Rodolfo disse agorinha que o “se” não combina comigo. Falou pra eu exterminá-lo do meu vocabulário. Amigos vêm mesmo com essa função no seu “vide bula”? Sim. Amigos têm o dom de nos fazerem lindas e fortes quando menos pensamos que o somos. Têm olhos lindos e generosos os verdadeiros amigos. E compreendem. E acolhem. E mesmo por efêmeros instantes, tudo parece possível.

Conversávamos sobre o meu “assoprar de brasas” acerca do retorno aos estudos. Deixei pra trás sem tanto remorso, é verdade. Mas também é verdade que nunca adormeceu de vez o desejo de voltar. Então ressurgem os monstros, os inventados por mim, cultivados além da minha vontade... Bem vivos. Contei sobre quando bem lá atrás, nas manhãs de domingo, eu chegava à missa das crianças munida de muletinhas de madeira, entrava sempre pela porta lateral. As bichinhas faziam uma zoada da gota no assoalho, então no primeiro “toc” da minha ilustre entrada, o povo todo virava o zóio pra mim... Nessa hora eu só queria ser uma galeguinha invisível feito os super-heróis dos desenhos animados, como não era possível, morrer era o desejo seguinte. E iria pro céu, né não? Afinal, morrer na igreja haveria de ter alguma serventia.

A Cida me ligou enlouqueCIDA (trocadilho infame, eu sei) pra eu ler o comentário dela na outra postagem e retirá-lo caso tivesse sido rude acerca do que falou sobre faculdade à distância. Não retirei. Não foi rude, apenas expôs o seu ponto de vista  sobre um tema que ainda é motivo de muito preconceito. Não foi o caso da Camila, obviamente, essa visão preconceituosa. Compreendi sua fala a respeito do dia-a-dia que só uma faculdade presencial pode proporcionar. A questão fundamental pra mim, não só neste caso, mas em tudo nessa maluquice de vida, é observar os pontos de vista, as situações, sob várias possibilidades. Certa vez, estavam aqui em casa a Cida e a Cleide, sua irmã, num papo-incentivo sobre a minha retomada a um curso universitário. Eu, dotada de uma sutileza descomunal, falei: “é, vou fazer uma dessas  faculdades que não servem pra nada, à distância”... Na sala estava também uma tia em comum, que prontamente falou, enquanto me lançava uma chicotada no olhar: “elas estão cursando uma dessas, Milene”... Os preconceitos são assim, às vezes generosos, surgem do nada pra que tenhamos a possibilidade de afogá-los ou trancafiá-los em inviolável masmorra. Os meus, se desavisados aparecem, não fujo ao embate.

Se eu não conhecesse outras pessoas formadas pela tão falada faculdade lá de longe, só em saber da incrível profissional que é essa minha prima, já seria motivo suficiente pra eu devotar-lhe toda confiança. Esses dias outra amiga estava à beira de um surto por conta de tanto trabalho a ser feito no seu curso de Administração à distância. A conclusão (de vez em quando consigo alcançar uma) é de que quando há dedicação e vontade, sejamos Cida, Camila ou Neusa (esse amiga semi-surtada), amemos as letras, baratas bonitas ou gestão administrativa, bacaninha mesmo é assoprar a brasa, engolir o saber com voracidade assombrosa, seja lá como ele se apresente.

Filosofia de quinta, quem disse? A minha é de domingo.

Há um céu libriano esperando por mim. Vou ali, encará-lo. Talvez ele me chova ou apenas me sopre vento... O que mais esperar de um domingo cinzento?


NOTA: Enviei esse texto pro Rodolfo, meu eterno cúmplice, 
ler e perceber as tentativas de agressões gramaticais. 
Ao invés de corrigir o atentado (um deles), 
melhor mesmo é publicar a sua impagável resposta corretiva via MSN. 
Acho que ele escutou minha risada lá de Niterói.

Rodolfo diz (13:40):
Apesar de ter muito bicho lá, não é "zoodíaco". É "zodíaco".

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ANTES QUE O DIA AMANHEÇA


Derlange, a mãe, não entraria na minha humilde choupana caso não trouxesse o seu pequeno príncipe de nome João Pedro no colo. Sou doida nesse menino, estou inclusive na iminência de reclamar a sua guarda no Juizado dos Amores, para enfim me apoderar do que considero quase meu. Tenho um argumento infalível, darei a ele todos os dias potes de iogurtes muito maiores do que a sua mãe o faz. Potezinho sem vergonha aquele, a criança sente o gosto, acaba e ele chora. Além do mais, onde vou encontrar outro projeto de cavalheiro para esconder minha meia dúzia de queixos, feito fez João Pedro nessa foto?

Meu pai dizia sempre: faça a criança sorrir. Dizia isso quando cascudávamos nossa irmã caçula, a Gisele, porque a guria não era gente desse mundo. Fazia birra, o pai nos dava bronca e a sujeitinha engolia o choro num instante, satisfeita. Não é a toa que dela nasceu Isabella... Do you remember? Isabella, a espoleta cantadora de “Adocica” no altar da Igreja Adventista, enquanto todos oravam compenetradíssimos. Pois é, filhota de peixe...

Estava agorinha no blog da Camilouquinha, lendo sobre baratas. Camila fala com propriedade sobre qualquer coisa, até as baratas ficaram interessantes desenhadas por ela... Só recusei, gentilmente, a oferta para ter uma daquelas consideradas “bonitas”. Então ela contou sobre a agonia de se apresentar seminário na Faculdade. Ela disse que todo mundo deve cursar uma faculdade e à distância não vale. Frustrei! Tenho pensado em retomar, ou recomeçar, meu curso universitário há tanto tempo abandonado. Mas as convencionais, presenciais, sei lá o quê mais, dou conta não. Assumo deslavadamente meu estado preguiçoso de ser.

Isso me remeteu a um encontro bacaninha ocorrido ontem na escola, quando um sujeito de uma editora por lá apareceu a fim de mostrar seu arsenal do bem. Descreveu toda a sua coleção, disciplina por disciplina, aplicando mais minúcia em Geografia e Língua Portuguesa. Segundo ele, no seu livro o estudante verá, por exemplo, um Nordeste bem mais real do que o clichê piedoso da terra rachada e esqueleto de gado, ou então todo mundo atrás do trio elétrico na Bahia, como normalmente consta nos livros do MEC. Bacaninha. O Nordeste é lindo e rico. Há de vir o dia em que o seu povo se dê conta do quanto é capaz e escape dos currais... Em se tratando de Língua Portuguesa, ele e a coordenadora trocaram figurinhas interessantes sobre método de ensino, do que não se aplica mais atualmente, como os decorebas todos do nosso tempo...

Nosso tempo? Sempre que ouço alguém dizendo do quanto era porreta o ensino do nosso tempo... Meu cenho franze automaticamente. Não tenho lá muita saudade das tais práticas. Contei pra eles de quando eu fazia o primário, justamente lá onde trabalho e vivi uma situação que se reflete até hoje. Havendo faltado a minha professora, ficamos com a professora da turma B. Como exercício deveríamos dar um título para uma cópia escrita no quadro pela mestra querida. Depois, cada um leria e diria o título escolhido. Depois de ler o meu fiasco, a fofa disse enfaticamente: “estão vendo? Ainda vão copiar a Milene em tudo que ela faz? Isso lá é título que se dê?”... Caramba! Nenhuma fada me puxou pela mão naquele momento, me tirando daquele constrangimento. Hoje, adulta, é aterrorizante falar qualquer coisa em público, mesmo sendo apenas reproduzindo algo já construído. Avermelho da cabeça aos pés e fico até bonitinha gaguejando. Exagero? Pode ser, mas não sei como sair dele... Por isso larguei minha faculdade pelo caminho. Por isso penso infinitamente antes de decidir retomar. Adultos são bons quando querem tocar o terror.

A idade também é boa em tocar o terror. Grita enlouquecida, corre atrás de mim com um espelho gigante e eu nem um pouco a fim de papo. Mas esses dias não houve jeito, entrei numas de que estou careca e banguela. Claro que não colocaria uma foto aqui comprovando isso, né? Não produzirei provas contra mim mesma, assim me permite a lei brasileña. E não é mentira, o cabelo está indo embora sem me dizer pra onde. Meus dentes estão fugindo de mim, criando um abismo entre eles que me deixa aflita. Não me perguntem os nomes dos fugitivos, a essa altura da vida ser preciso decorar nome de dente, é de lascar! Devo pensar numa estratégia para solucionar tal questão, porque a adotar sorriso de ferro em plena semi-caduquice, quero não, oxente! O cabelo ausente deve estar sentindo falta da tesoura, coitado. Faz pra mais de um ano que não sente a delícia de um corte e está carente. Eu havia me dito que cortaria só quando minha cirurgia fosse enfim marcada, então me perguntaram: “fez promessa?” ... Não, não fiz. Sou complicada para pagar promessa até pra mim mesma, não quero imaginar Deus de cenho franzido por eu haver descumprido trato com Ele. E eu nem tenho burro. E as escadarias das igrejas daqui não tem apelo algum...

Estou há mais de uma hora ouvindo a mesmíssima canção, roubada lá do Tony. Esse cara é mesmo mais brazuca do que eu, agora tenho certeza disso... De lá, me apresenta cada belezura das bandas de cá. Ele é brasileiro disfarçado de moçambicano... Eu devo bem ser uma marciana. Onde estive para nunca ter  ouvido o Filipe Catto  no seu cantar tão lindo, ou o Arnaldo Antunes, originalmente nessa canção? Viciante!

Já deu pra esse texto sofrendo de elefantíase, né? 
Obrigada pela paciência. Beijinhos.