sexta-feira, 31 de agosto de 2012

SOBRA SAUDADE ALEGRE

A noite de ontem trouxe meu pai no meu sonho. Gosto quando ele vem, porque é como se os nossos pensamentos de alguma forma se encontrassem. E quem já partiu tem algum tipo de pensamento? Sei lá! A bem da verdade esses questionamentos existenciais, espirituais e não sei o quê mais, estão pra além da minha vontade a essa hora.

O certo é que ele estava no meu pedaço de sonho, porque eu nunca tenho uma história inteira sonhada, são sempre fragmentos a me deixarem variados tipos de sensações. Outra vez ele nada dizia, apenas sorria e eu me postava por trás da sua cadeira, naquela mesa rústica, e o beijava a cabeça. O cheiro bom do meu pai. Um aroma tão grande de saudade que me fez sentir como se jamais houvesse ido embora. Dessa saudade eu gosto porque ela não dói mais, é lembrança alegre, feito a que sempre elevamos quando estamos a conversar e a todo instante alguém lança um “Seu Luís se tivesse aqui faria isso e aquilo”.

O certo é que meu pedaço de sonho me trouxe meu pai e quando ele está por perto eu sempre me sinto segura, como era quando viajávamos pra capital e no ônibus ele me contava as histórias das cidades pelas quais passávamos. Havia o mundo inteiro naquela mente cuja formação era de uma quarta série inacabada. Vez ou outra meu tio, irmão mais novo da minha mãe, me diz que conheceu poucas pessoas tão “sabidas” como ele, com tão pouca coisa no currículo escolar.

Já lhes falei como foi escolhido o meu nomezinho meigo? Então, estava lá o moço, camelô de poucas letras, vendo um filme francês. Então nos caracteres havia uma coadjuvante desimportante qualquer cujo nome era Milene sei lá das quantas. Eis-me aqui, e por absoluta existência poética desse homem, até que gosto da sonoridade do meu chamado. Ele se orgulhava que os nomes mais bonitos dos filhotes havia sido sua escolha e se por lá tinha nome sem muito bom gosto, a culpa era da mãe. Vaidoso que só o homem que amava música, perfumes (baratos) e pessoas.

Talvez ele tenha me visitado em sonho porque daqui a alguns dias sua partida faz aniversário. Penso nisso sem choro, lembro com bastante alegria, que se mistura com a saudade e provoca dentro de mim um sentimento bacaninha. Penso que talvez agora eu falasse: “Tudo bem pai, o senhor esteve certo na maioria das vezes em que gritamos nossas verdades, mas de vez em quando a certeza foi minha e o senhor nunca admitiria, né? Quer saber? Que bom que se impôs e me obrigou a fazer (ou deixar de fazer) muita coisa, usando apenas o sagrado direito de ser pai... Fez o que considerava melhor pra mim e pronto!”

Espero que ele visite os meus sonhos e sorria pra mim qualquer dessas noites descombinadas. 





quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A VALSA DOS MENINOS RAIOS DE SOL



Quando três noites dormirem, o dia acordará trazendo setembro... É doce e florido quando chega setembro e o frio já não encontra mais motivo pra ficar, se dispersa por tantos ares e num pestanejar não se tem mais o seu rastro invisível. O acinzentado do tempo também procura lugar melhor pra se estampar. O acinzentado do tempo dorme aqui, pra mais tarde acordar do lado de lá.

Quando setembro chegar eu vou correndo abrir as janelas da minha casa da alma. Pelas frestas entrarão raios meninos de Sol, irrequietos e contentes, carregando boas novas a se espalharem por aí, nos ares daqui e de lá. E o que antes havia sido mofo, será vida. E o que se carregava no peito, de pequenas e imensuráveis angústias, se elevará ao máximo grau de felicidade. E dançaremos, eu e os meninos raios de Sol, insanos e felizes pela sala. E sairemos pelo quintal a testemunhar a aparição das primeiras flores da primavera que ainda se prepara pra entrar em cena.

Quando, enfim, for setembro, suplicarei à primavera que me traga sonhos quentinhos, daqueles que não se vão quando o dia amanhece, permanecendo despertos e atentos para se cumprirem ao meu menor descuido. Que eu me descuide! Que germinem feito flores no meu jardim interior, os sonhos dos novos dias.

E alegre eu direi: sou quietude por efêmeros e intermináveis instantes, seguirei valsando pela vida com os intrépidos meninos raios de sol, porque fez-se primavera no meu peito.



domingo, 26 de agosto de 2012

DO AMOR E DO RIDÍCULO

Não há tanta razão para se por a cronicar em plena quase tarde dominical a não ser pelo pretexto de postar essa imagem devidamente roubada no Facebook da Margoh. Tenho lá eu culpa se ela apresenta as imagens mais bacanas jamais roubadas na internet? Se um dia isso der cadeia, vamos todos num camburão em versos pixados por todos os poros.

Acontece que o domingão está meio morgado. Novidade nenhuma até aqui. Mas ele bem poderia ter vindo sem carregar pela mão uma inconveniente dor de cabeça, a me tirar o pouco da paciência que eu havia comprado e armazenado para ocasiões necessárias.

Talvez eu tenha feito essa dor de cabeça (minha médica costuma dizer que eu estou “fazendo uma labirintezinha” e eu canso de dizer que não quero fazer essas bagaceiras não... se for pra fazer, que seja coisa boa) por causa do imenso desgosto em ter sido chamada de ridícula por um moço num comentário à minha postagem anterior. Sério, não brinquem com isso, pessoas. Vocês não sabem como é frustrante para alguém que se acha tão meiga, fofa e incrível como eu ser chamada de tal deselogio.  É motivo suficiente pro cabra pegar uma depressão e sair com ela pelo mundão sem fronteira. E ainda o fez numa mistura de línguas, querendo bem que eu fosse ao Mister Google Translater, esmiuçar o xingamento. Não contava com minha astúcia, o tal cretino, meu inglês vasto me permitiu absorver o “bye bye” e deprimir loucamente com o “ridicule”.

Mal sabe ele que sou uma mulher preenchida de amor, mesmo num domingo de Sol preguiçoso (deve ser meu parente, o Sol) e dor de cabeça a me roubar a paciência. E por isso me pus a embaralhar palavras na minha velha e boa companheira folha branca, a fim de exaltar o amor simbolizado por esse par de corujas tão lindinhas. E musicarei com Chico, o Buarque mais charmoso de todos, porque canta o amor como se dele fosse o tutor. O amor é ridiculamente maravilhoso, a tudo enxerga com beleza, feito as corujinhas apaixonadas nesse galho que é o seu banco na praça pra namorar.

Por estar uma mulher coberta de um sublime estado de amorosidade, esse cabra salvou-se da ira da minha peixeira afiada e cibernética, a qual carrego inseparável na bainha. Ele nem sabe que sou herdeira da brabeza de Virgulino Ferreira, o Lampião? Todos os nordestinos tem sangue fervente correndo nas veias ensolaradas, brinque não!

Beijos e bom domingo sem dor de cabeça, pleno de corujices amorosas e ridículas. Quando me faltar amor, serei ladra do amor de vocês, ré confessa e adiantada.




sábado, 25 de agosto de 2012

DE MADRUGANDO


A madrugada se apronta pra tomar o seu posto, num poético retrato cotidiano. Chega dizendo do frio solto lá fora e da precisão de procurar o sono. À espreita, a chuva espera a vez de entrar em cena e se derramar sobre os telhados, cobertores de corpos adormecidos e exaustos. A televisão tenta quebrar a poesia contando notícia ruim a quem só deseja canção de amor. Há lirismo demais na madrugada para um vivente perder minuto cuidando de assunto feio. O tempo dela era pra acontecer em verso feito de orvalho, em flor nascendo escondida, no silêncio do pedaço grande do mundo dormindo.





terça-feira, 21 de agosto de 2012

O BICHO ESTAMPADO






A imagem não poderia ser mais inusitada para uma madrugada de inverno provocador. Estava lá, em repouso na parede a cobra estampada. Meu conhecimento sobre os seres rastejantes é tão considerável quanto o que sei sobre Física Quântica e por tal motivo não posso precisar-lhes a idade ou raça do bicho. Sim, porque cobra, tal qual gato ou cachorro, deve gostar de pertencer a uma estirpe qualquer e aquela não tinha muito jeito de cobra vira-lata. Carregando estampas em florais grandes, semelhantes aquelas das roupas havaianas, em nuances mais fortes que o rosa-bebê e menos chocante que o pink, parecia totalmente à vontade grudada aos azulejos lisos. Eu bem quis saber como ela conseguiu tal proeza, visto que normalmente não havia a menor condição de um bicho pesado daquele se fixar numa superfície escorregadia, mas não consegui tal jamais viria... Ficamos ali, imóveis as duas, numa espécie de observação mútua, quebrada apenas pelo seu ato de abrir a boca, involuntariamente mostrando como poderia devorar mais que camundongos indefesos. Aquilo mais pareceu um bocejo do que qualquer tentativa ameaçadora e talvez ela tivesse apenas percebendo que havia parado na parede de azulejos lisos do banheiro errado. Ainda que se tente, é pouco provável haver uma consideração razoável acerca do que representa uma cobra de vistosa figura em flores grandes e rosas, estática feito um quadro... na parede do meu sonho.

domingo, 19 de agosto de 2012

ESSA SENTIMENTALIDADE TODA...



Pois não é que se fez a noite de sábado e eu me posto à frente desse computador desdenhador das madrugadices minhas, ao invés de estar lá no canto da Gabriela, a cachacinha docinha, com minha amiga Neusa, a falarmos desimportâncias e anestesiando um tanto os hematomas da alma, provocados pelas pedras que não cansam de rolar, não importa o que façamos para tentar contê-las com a força que nem imaginamos ter? Frase bem comprida essa...

Fiquei! Acontece que estou com uma baixa taxa – olha a rima que dá, né não Dicró? – de vitamina B 12 e o médico me prescreveu uma ardente vacina a ser aplicada no glúteo. Enquanto disfarçava pra não espiar a agulha – coisa mais deprimente é agulha de injeção – eu perguntava ao moço da farmácia se eu corria risco de morte caso a cachacinha docinha e a substância da vacina trombassem lá no meu organismo meio doidão. Ele riu e respondeu que eu sobreviveria, já o efeito da vacina, decerto não. Assim sendo, abandonei Gabriela e namorei a vacina. Foi uma troca momentânea e absolutamente interesseira, já que preciso estar vitaminada em alma e glúteos para me oferecer a um sacrifício cirúrgico.

Há pedras rolando com maior contundência sobre ombros e almas, ferindo tanto, desesperando... Mas quem disse que é todo o tempo florida a sublime arte de existir? Penso na Adélia Prado dizendo “Meu Deus me dá cinco anos. Me dá a mão. Me cura de ser grande”... Não dá! A vida é provocadora que só, fica à espreita do vivente, feito quisesse testar a capacidade do pobre em se sobressair aos seus labirintos, que são tantos e tão complexos, pai do céu!

Deixemos pra lá os labirintos. Façamos alegria que nem bolha de sabão, carregadas pelo vento pra lá e pra cá. As pedras, que rolem! Desviaremos do seu impacto sempre que possível e sorrisos não nos faltarão. Não é síndrome de Poliana, a menina que virou moça, mas continuou chatinha. É apenas um imenso cansaço de ser grande o tempo todo, uma vontade de lançar pro alto as pantufas desgastadas e dizer pra vida, “vida pisa devagar”, feito cantou Belchior.

Gostaria mesmo era de transpor a barreira da distância, fazer valer a presença do amor que é tão grande e juntar numa mesa cheia de gabrielices e besteirices a Neusa, a Simone, o Tatto... Lançaríamos pro ar montão de riso a fazer qualquer pedra metida a besta se derreter de desgosto. Brindaríamos!

E por falar em brinde, gritarei em letras enormes o meu beijo bem grande aos meus amores aniversariantes desse dia e meio. João, o Esteves, não o Pé-de-feijão, amigo querido, poeta dos bons... Regininha Rozê, a moça do cavalo alado e selado, sim senhor! Primaverando junto com um dos meus aborrescentes, o Thúlio,  por quem carrego um desejo imenso de que a vida lhe escancare portas e janelas e por elas entre todo o amor que há. Meus amores, me deixem beijá-los e abraçá-los tão fortemente ao ponto de me dizerem “pare, Milene... dói minhas costelas”... E mesmo assim eu não paro.

Chega! Me calo por hoje... Me calo?


terça-feira, 14 de agosto de 2012

PARA ALÉM DAS RETICÊNCIAS...





À beira da estrada o homem arruma a bagagem na velha brasília branca como quem tem pressa. A mulher o observa em silêncio, num leve sorriso nos lábios. “Por que ele escolheu essa joça parecida com um carro para ser companhia de tanto tempo? Se ao menos fosse amarela feito aquela da música”. Quando o indagava sobre a velharia sobre rodas, ele respondia, metafórico: “ menina, às vezes as coisas escolhem a gente e não há o que fazer senão aceitar”. Em instantes partiria para onde nem supunha, ao Sol confiava a missão de levá-lo, apenas levá-lo... Era um homem de alma espaçosa demais para se fixar numa só parada. Mochilas ajeitadas no bagageiro, ele se aproxima para os cumprimentos de breve adeus. Um abraço ligeiro, beijos mútuos nas faces e tudo pronto, embora gostassem mesmo era do tempo parado num abraço, da quentura da pele colada, cúmplices olhares a dizerem tanto. Mas, se faz urgente a despedida e a efemeridade toma a vez dos quereres intensos. Tem vezes de escutar o bom senso e este o aconselhava a aproveitar a complacência do Sol em manter-se acordado. Tem de ir o homem, a conduzir por aí o seu espírito viajador, pintando num beijo as faces do mundo... Ela? Diz em súplica silenciosa que o Sol não se demore tanto para apontar outra vez os caminhos do lado de cá, onde moram, ciganas, as reticências...

sábado, 11 de agosto de 2012

ESQUIVE-SE E SIGA!



Foi-se outra vez pelo ralo a medalha de ouro tão desejada pelo futebol masculino do Brasil. Totalmente desprovida de amor pela seleção brasileira na categoria onze cabras por uma bola, confesso que a minha maior frustração acerca dessa insuperável perda foi não imaginar a cara de desgosto do Galvão Bueno vendo o povo todo comemorando o feito inédito sem a sua milagrosa voz ao fundo.

Sim, porque ele tem sérias desconfianças de que todas as grandes conquistas do esporte brasileiro desde o seu surgimento nas narrações televisivas, se deram pela ilustre presença da sua voz. Impagável seria ele querendo invalidar a conquista, pois o principal atleta, elezinho, não estava presente. Se alguém souber de cabra mais emproado, enjoado, penteado e mais outros tantos ‘ados’, levante a mão e me aponte... Euzinha sigo no desconhecimento.

A Olimpíada cruzando a esquina da partida e outra vez o desempenho do Brasil foi uma coisinha de nada. Um brasilzão desses, né? Pela lógica era pra competir de desigual pra igual com as potências esportivas feito China, EUA... Quem mais? Minha tepeême é amnésica. A lógica de um país que insiste em disputar medalhas enferrujadas nas categorias mais importantes feito saúde, educação, segurança, igualdade social, vergonha na cara, é sempre disputar de desigual para igual com quem tem os resultados no esporte como consequência dos investimentos nestas esferas fundamentais. Não há novidade alguma no tímido desempenho do país no evento e muito menos desonra para os atletas, exceto os milionários do futebol e suas chuteirinhas de salto quinze.

Olimpíada mesmo começa em outubro e segue-se por quatro anos ininterruptos. Se a jogada, o saque, o salto for equivocado, lascou-se tudo! As pessoas contempladas com a medalha de ouro se de deliciam no podium e não querem descer de lá de jeito nenhum. É um emprego bom, um salário bacaninha, sabe? Fora as gorjetas, essas sim fazem a diferença. Os “atletas” nem precisam ter um desempenho tão satisfatório assim nesses quatro anos, porque às vésperas da nova olimpíada política eles convencem uma boa parte da plateia de deixá-los por mais outro tempo por lá. São bons de lábia esses nossos esportistas-politiqueiros. Enquanto eles se fartam e ficam taludos de tanto mamarem nas tetas generosas e coniventes da Pátria, mãe gentil, seguiremos  nós, espectadores e comparsas?

Receio que sim.

Agora me postarei em frente à TV para ver, daqui a pouco, a luta de boxe de um sujeito brazuca chamado Esquiva Falcão, valendo medalha de ouro. Como não acompanhar até jogo de bolinha de gude, tendo como personagem um cabra chamado Esquiva Falcão?  Não sei que medalha virá, torcerei para o ouro, é claro. Mas já sou fã desse cara que assim como a maioria absoluta dos brasileiros, vive a se esquivar de tanto descaso, apenas na singela intenção de sobreviver.

Bem aventurados sejam os marqueteiros, deles serão os reinos da invenção de heróis, amém!


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

ABSTRAÇÃO



Num dia inteiro de abraço, amarrotados e mútuos, se entrelaçam, os braços. Paridos do lado de dentro, estendidos da boca e dos olhos, da alma pra fora. Entre mãos de longe, tão perto, misturam sorrisos libertos, precisos... Abraços. Urgentes de tanta quentura derretem dor e amargura, assustam montanhas de medo, soprados de dentro pra fora, expulsos pra longe, os medos. Trazidos na alma pra perto, confessos viveres alegres e imensos pedaços de amores. Na dança de estar grudado, do corpo pra outra alma, um dia inteiro de abraço... Se não pelo breve tempo de respirar.






domingo, 5 de agosto de 2012

CIDADE DOS VELHOS AMORES




Recostada na cadeira envelhecida, a mulher reflete o silêncio da noite. As madrugadas de sábado parecem se esforçar para lhe oferecerem ainda mais ausência de som, de zumbido que seja, restando apenas a cadência estrondosa do seu respirar. Ela pensa que seria bom as estrelas terem canto. Ela pensa e ri.

Se posta à escrivaninha relendo cartas de velhos e esquecidos amores. O papel ganhou aspecto encardido, perdeu o perfume, o tempo gastou todo o sentido das palavras. É o passado a cidade dos velhos amores, embora ela os visite furtivamente em sua memória.

Enche outra vez o cálice de tinto e segue a leitura das histórias desencantadas. Enquanto lê, lembra-se de como havia sido bom sentir-se personagem daquelas linhas pautadas, repletas de dizeres efêmeros. A boniteza dos versos jamais lhes garantiu confirmação de verdade, mas eles desenhavam uma ilusão bonita. Ela lembra e ri.

A madrugada segue entre preguiça e quietude. Ela observa o cálice vazio sem mais vontade de preenchê-lo com o tinto suave. Sob a luz do abajur, espia a própria sentimentalidade e desiste de insinuar blindagem acerca das zombarias do amor. Sujeito galhofeiro e cheio de artimanhas, decerto estará de tocaia numa esquina qualquer de um futuro longínquo ou não tão distante a fim de lhe oferecer promessas de pouca valia. Ela espia e ri. 


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

QUE FRIO, OXENTE!


Ser solteira no inverno até que não é de todo mal. Você pode perfeitamente usar aquela calça de moletom surrada e por baixo da blusa igualmente desbotada, uma camiseta larga de campanha política... Nenhum marido sairá correndo de casa por isso.

Já pensou que coisa mais sex appeal uma mulher deitar-se ao lado do seu esposo com uma camiseta contendo a simpática face do Tiririca, por exemplo? Afrodisíaco total. Para completar a composição do modelito, um par de meias a fim de aquecer os pezinhos que o cônjuge não dá mais conta de fazê-lo. Aliás, bem falando em esposo, eu posso confessar que odeio essa palavra? Tenho o hábito de amar e odiar palavras e essa é uma a qual não amo de jeito nenhum. Nem tem motivo, simplesmente desgosto da sua grafia e sonoridade. Esposo parece o cara que mora com a mulher, mas nem sequer se lembra de quando a beijou pela última vez.

Tolices, tolices... Não me levem a sério.

Desentendo a precisão de sair de casa bem cedinho e pegar a estrada do trabalho... Lá fora São Pedro despeja água gelada e eu vacilo entre cumprir minha obrigação profissional – sou responsável, pessoas – e firmar pacto com minhas cobertas até setembro chegar. Sou nordestina, oxente! Acostumada com Sol na moleira de janeiro a janeiro, embora meu quintal não apresente as rachaduras do sertão castigado. Mas, agreste ainda é Nordeste. E frio assim não combina com a região mais solar do Brasil.

Estivesse um cabra do Sul ou Sudeste ressaltaria o meu exagero. Nem temos um frio como em Campos do Jordão com suas botas, sobretudos e cachecóis, evidenciados por charme e elegância ímpares. Da minha parte, troco essa chiqueza toda por um punhado de raio de sol, novinho em folha, me dando ânimo pra tomar o banho da manhã, antes do trabalho. Sim, porque além de tudo as narinas da pessoa – eu – são avessas a banho quente, no melhor estilo espírito-de-pobre-de-ser, então não resta alternativa a não ser encarar o geladão matinal e noturno. Ser limpinha tem seu ônus... Alguém me chama o Cascão, por favor. Preciso de novas influências.

Antes que me cheguem os comentários dizendo “Mi, eu amo o inverno” e tal e coisa, e coisa e tal, vou agorinha pactuar com minhas cobertas. Mas sem camiseta do Tiririca, pessoas... Meu pijama quentinho nem é tão feio.

Sem mais para o momento e com um enorme frio de proporções nordestinas, despeço-me e vou, não sem antes oferecer-lhes o meu abraço quentinho, ansiando pra que São Pedro contenha seu rio de lágrimas amanhã.