domingo, 30 de setembro de 2012

OLHAR QUARENTA E TRÊS




São Pedro emocionou-se com o dia de ontem e derramou rios de lágrima noturnas por estas bandas. Algúem me disse que eram chuvas de bençãos em homenagem ao aniversário desta pessoa fofa e linda e tudo que, pasmem, sou eu! Agora já chega, é setembro ainda, é primavera. Engole o choro, São Pedro!

Querendo Paulo Ricardo ou não, eu agora sou uma mulher de olhar quarenta e três, assim sim como carrega essa contagem todo o resto do corpinho rechonchudíssimo e a face marcadas por rugas, mandadas pelo senhor tempo a fim de mostrar a mim quem manda na história, se sou eu que o tempo todo o desafio com a imensurável preguiça em passar os tais cremes esticadores de pele, ou ele, senhor das horas.

Ah, ainda que lagrimoso, é domingo. Não vou perder instantes dando audiências pras rugas ou sinais quaisquer apresentados pelo meu corpo. É de alma que eu quero falar. É de celebração a minha intenção. É de gratidão o meu sentir.

Por que os dias estranhos quiseram ser o meu presente de aniversário. Por que as nuvens, aquelas pesadas demais, feias demais, quiseram se instalar no céu sobre a minha cabeça e eu tive medo. Pra ser sincera, o medo ainda está por aqui. A tristeza pelo menino pequeno, o Léo da minha amiga Neusa que num dia jogava bola, no outro amanhã estava numa cama de hospital, tendo o seu corpo maculado por seringas e máquinas feias, a fim de lhe salvarem de uma leucemia. Sinto medo e tristeza pelo Leonardo. Tenho esperança pelo Leonardo. Sinto vontade imensa de abraçar a mãe dele, minha amiga nascida em quatro de julho, parte de mim pela vida toda.

Então, cerrada a porta da minha alma pela total falta de ânimo às comemorações, fez-se uma frestinha de luz e eu permiti a entrada da alegria. Brindei e bebi à vida, a mim, ao Leonardo que logo vai estar outra vez jogando bola e sendo menino. Ele já avisou que “isso é besteira, mãinha, eu vou ficar bom”, do alto da sua sabedoria aos nove anos de idade.

E sendo alegre,  deixei virem todos os abraços que nunca me bastarão. Sou devoradora de abraços sim senhor. Se isto é crime, me prenda se for capaz, num imenso e aconchegante abrir de braços para sempre. E foram tantos e tão importantes. Eu não sei ser de outro jeito senão pura pieguice amorosa. Não sei ser senão absurdamente grata às palavras e gestos aonde me vejo querida. Eu percebo isso a cada dia dessa minha vida às vezes bem vivida, outras só existida.

Digo com um prazer incrível o quanto é bom ter amigos. Eu os tenho. Eu os amo! Eu os preciso tanto! Meus amigos a quem eu chamo de mãe, tios, irmãos, irmãs e sobrinhos. Aos amigos que não tem o meu sangue, mas tem o meu coração. A quem ainda não abri meus braços, mas sabem  da minha alma. A quem me ama pelo que enxerga em mim. Apesar do que enxerga em mim.

É só isso. Despeço-me com uma frase atribuída ao Mia Couto (alguém sabendo que não é, acene aí) e eu a peguei pra mim, preguiçosa de corpo e alma... Sigo assim. Sigo sempre. Beijos!

Arapiraca, cinco horas da tarde de um domingo frio de primavera.

Cá entre nós: Rodolfo e Denise escreveram pra mim 
  e está por aqui... Tão lindamente. 


terça-feira, 25 de setembro de 2012

VERSOS DA TARDE

Perdoem-me os deuses da poesia, jamais quis afrontá-los com os meus arremedos de versos, mas confesso, estou gostando dessa brincadeira de versejar. O exercício abaixo é resultado de um passeio no blog do moço que é maníaco por melodias, o Tony Manna (confiram lá o texto). Ouvi sua alma sussurrar um tanto alto e tomei de assalto as suas palavras fortes e pulsantes. Tenho cá a impressão que ele não consegue sequer pensar numa intensidade menor, “dicunforça” é o seu jeito, sempre e lindo. Eis aqui os meus versos brancos, que só foram possíveis porque o Tony me confiou os seus verbos:




GRITOS SURDOS


O homem de suspiro leve, vagueia
Nos ombros pesados, desassossego
Na boca o canto das deusas da terra
Lágrimas doces lhe vestem os olhos

O homem sorri para a lua pálida
Oferta-lhe flores mortas de papel
E no mar pulsante, em gritos surdos,
Miragens dançam ao sabor do vento

No ritmo do sibilar dos pássaros
O coração do homem agoniza
Num canto insano de dor e vida
Suplica amor, a sua alma nua

E lá nos altares das flores brancas
Onde a lucidez perdeu o sentido
O som da flauta embala os véus

Bebem-se bons goles de gim e fel
E as vis ilusões, todas perfeitas
Mentem sossego da alma aflita








domingo, 23 de setembro de 2012

PRECISÃO DE ALEGRIA




Carecia de muita leveza nuns bocados do todo dia da vida. Precisava desmandar pressa e sisudez e somente deixar seguir a esteira do tempo no caminhar dele, sem aperreio. Por que o tempo caminha de um jeito só, mas tem vezes que a gente sente como se tivesse num vagão de um trem apressado ou então na vagareza de um carro de boi. Ele deixa a gente à vontade pra escolher de que jeito vai seguir, mas que ele nunquinha para pra tirar um cochilo embaixo do pé de manga, isso é de certeza. Eu gostava que viver fosse andar um pouquinho no trem apressado e no outro dia, devagar no carro de boi. Viver era bom que fosse misturar as coisas, porque tudo misturado fica mais bonito que uma coisa só. Por que misturando, todo dia aparece uma estampa diferente, um colorido novo, que nem na primavera, e a gente não enjoa do retrato da vida de todo dia. Hoje, na cumeeira da minha casa, três rolinhas caldo-de-feijão descansavam de tarde. Não sei o que pensavam os passarinhos, mas eles trouxeram boniteza nesse pedaço de tempo que passava desimportante. Amanhã eu quero mais boniteza, e no outro amanhã também. Uma miudeza de alegria, se vier todo dia, dá pra juntar uma alegria grandona. Dá até pra emprestar a quem tiver precisão.



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

OU DEITA, OU SENTA



Vamos lá. Hoje proponho um papo sobre as mágoas, pequenos redemoinhos que a vida nos obriga a encarar e nem adianta tentar fugir. Se correr a mágoa pega, se ficar a mágoa come, estraçalha. Correr ou ficar?

Eu me lembro neste instante de um grande filósofo o qual conheci e acompanhei seus passos de loucura até se perder no mundo, sem que ninguém mais ouvisse falar coisa alguma sobre ele. Petrúcio, sujeito da rua, sem dono, chorava pela mãe morta, cantava, se dizia brabo feito Bruce Lee e por um tempo teve um cachorro. Gostava de exibir o seu poder sobre o cão, ordenando “senta” para o Tyson (não lembro o nome do cachorro, mas Tyson é um bom nome, então batizou-se), que nem mexia pestana. Então ele mudava a ordem para o “deita”, enquanto o animal se punha a caminhar. Temendo perder sua autoridade, mudou o grito para um “ou senta, ou deita”, porque aí não havia jeito do cachorro desobedecê-lo. Manteve a imaginária autoridade enquanto o cão, refastelado à sombra de alguma árvore, pouco se importava com as vozes do seu dono.

Mas o que tem a ver a história do Petrúcio com o início da prosa? Quase nada a não ser a questão das alternativas que sempre se faz presente e é a nossa escolha o fator determinante do que venha a acontecer. Papo mais augustocuryano esse, eu bem sei. Quisera eu ter todas as respostas como ele, o escritor da autoajudice, cujos livros eu devo ter lido uma meia página. Sejamos objetivos: Se a pessoa te magoou é porque você esperou dela alguma coisa que não harmonizou com o que ela queria, certo? Criolo, o cara, diz assim numa canção: “O que você quer, nem sempre condiz com o que o outro sente” e infelizmente, pessoa autoajudada, é assim que funciona. Não importa que tipo de relação seja, se real, virtual, visceral (falta-me rima), num simples click o outro pode te guardar num arquivo até segunda ordem de necessidade. Convenhamos, gostar não é um acordo, um contrato onde ambas as partes prometem depositar o máximo de bem querência a jamais desentrelaçar o encontro de almas. Encontros de alma? Gostar é pura casualidade, empatia, disposição alegre de estar junto e compartilhar de um tudo, desde uma música até o maior assombro no labirinto mais labiríntico. E é verdade aceitável que essa vontade sem garantia de infinitude um dia fica fraquinha da silva, de qualquer um dos lados.

É aí que entra a máxima petruciana: ou senta, ou deita. Deitar e lamuriar, maldizer o outro que te feriu de morte, maldizer a vida por tanta infelicidade, postar mensagens tristonhas para que todos se apiedem. Sentar e pensar que nem dói tanto e talvez o outro nem tenha feito de propósito, ele apenas quis ir embora de mim e esse é o seu direito; nas minhas gavetas interiores o espaço pra guardar mágoa é miudinho e eu o quero vazio. Um dia esse tanto de sentimento confuso será um monte de nada. A alquimia que transforma a mágoa em nada é a melhor que há.

Por enquanto eu permaneço deitada, porque me corrói uma preguiça monstruosa. Pra que a pressa se o Sol ainda nem almoçou? Esperai, esperançai... Sem mágoa, nem nada.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

VÉU DE ESTRELAS




Dê-me dois goles de sonho
No copo das minhas noites
Veja, sonhando, não ponho
No peito, fel dos açoites

Sonhar, cantiga tão leve
Me cura feridas do dia
Viver, pedaço tão breve
Que só o é por magia

Deito meu corpo cansado
No teto, céu estrelado
E lua vestindo véu

Do sonho suave, tinto
Bebo os goles, e sinto
As mãos tocando o céu



Cá entre nós: Abraço de sufocar e tanto beijo no Rodolfo, por generosamente supervisionar esse exercício de métrica e rima.

Ah, escrivinhei besteirol do cotidiano lá no Quiosque. Promete que não ri?

Beijo!


    terça-feira, 11 de setembro de 2012

    E O AMOR, COMO VAI?


    A questão é que preciso de um belíssimo pretexto para postar uma “leitura” que fiz de um poema do João, o Esteves, meu amigo e clareador das minhas desidéias literárias. Sim, o canto de postar coisas alheias é lá no Relicário, meu canto das preciosidades dos meus amigos. Mas eu postei o mesmo poema não faz assim tanto tempo e então pensei que ter dois blogs havia de ter uma valia maior. Trafiquei pra cá o “Ainda” do João, lido por essa voz de pura nordestinidade que sou euzinha de Lima. Eu acho o termo “declamar” pomposo demais, responsa demais, e como fujo de responsabilidade feito meu gato André fugia da água, deixo o lido pelo não declamado e pronto!

    Ah, o título? Eu não tenho nada a dizer sobre o amor que já não tenha sido dito antes. Cabra estranho que só! Tem medo de mim, eu acho. E agora lascou-se porque eu pouco estou me importando com a sua aparição. Bem ensaiei um texto mais contundente, meio em solidariedade à minha amiga Rafaela porque a bichinha ficou indignada com uma postagem lá no FB, de uma moça candidata a vereadora de Sampa que fez uma brincadeira infame, preconceituosa, medonha e mais tanto mais de absurdez, mais uma vez regando os canteiros da intolerância e preconceito contra os nordestinos. Muitos devem ter apoiado essa moça, muitos votarão nela. Então depois eu me lembrei da história contada a mim sobre a minha cunhada, sobre uma mãe que segurava pela mão sua filhinha de sete anos, à beira da estrada, quando um motoqueiro chutou sem piedade a menina, lançando-a longe. O resultado da covardia foi a menina ter as duas pernas e um braço fraturados, além de machucar a cabeça. Foi apenas divertimento e a motivação e o fato realmente aconteceu na semana passada, nos arredores da minha cidade.

    Pensei em dissertar reflexões políticas sem muita convicção sobre o Onze de Setembro, suas causas e efeitos, mas são tão recorrentes, dia após dia - em menor escala aos olhos de quem observa, tão sofrido quanto na pele de quem o sente – os “onze de setembro” mundão afora, que eu preferi evocar o amor e tentar esquecer o quanto podemos ser estúpidos humanos. Somos feios, somos feios!

    Bonito mesmo, lido ou declamado, é o poema do João. Bora ouvir?



    sábado, 8 de setembro de 2012

    O CÉU DE MARIPOSAS



    Foi bom ter rasgado os escritos de ontem. Estava feio, chorado, raivoso... Vociferei contra a noite que caminhava lenta, sem goles de vinho ou cheiro de flores. Bradei contra o seu silêncio agoniante, de gritos ensurdecedores que doíam. Eram gritos me dizendo verdades as quais eu não queria ouvir e melancolicamente tentava gritar para fora tão alto a ponto de sufocar os estrondos de dentro.

    Então ela pousou no peito sem que eu percebesse. Aquietou-se ali como quem só queria um abrigo para descansar os seus últimos instantes. Uma mariposinha de nada, feia, miúda... Tão frágil que me deu vontade de empurrar baú adentro o meu alvoroço a fim de dedicar a ela alguns minutos do meu desimportante tempo. Eu tentava, em vão, estimulá-la a se mexer, mas a bichinha balançava as asinhas sem tanta vontade. Entendi que preferia que eu a deixasse em paz, quase inerte na sua própria solidão.

    Os minutos se arrastavam preguiçosos e chatos e nós duas contemplando os ruídos cansativos da TV. Outra vez eu tentava despertá-la oferecendo meu dedo como acomodação e em resposta obtive um bater de asas desanimado. Por instantes vesti-me da arrogância típica dos humanos e senti pena dela. Quão tola eu fui arrotando superioridade só porque aquele serzinho descansando no meu dedo tinha aparência tão frágil. Imediatamente mudei meu tolo pensamento e consegui até sentir inveja da vida que a mariposa havia tido. Decerto bateu asas em jardins imensos. Decerto viveu entre a vida das flores. Foi andarilha dos céus em busca das luzes a iluminarem a escuridão indesejada. Desenhei na minha imaginação a vida dessa mariposa, que embora apresentasse no corpo nuance pálida, mais parecido com tela inacabada, abandonada pelo artista, preferi me valer da sua curta existência poética e assim acreditar que ela havia cumprido o seu ciclo e agora queria apenas adormecer no céu das mariposas.

    Pela manhã eu já não mais a encontrei onde havia deixado, sobre o teclado do meu computador. Mais bonito é pensar que ela escolheu outro lugar para sossegar a sua fragilidade e enfim deixar-se ir.

    Eu bebo um tinto barato em agradecimento e homenagem


    Cá pra nós:
     Eu nem sei se isso é uma mariposa, 
    borboleta ou coisa que
    apenas voe porque lhe deram asas. 
    Aqui, pra mim, é mariposa e pronto. 
    Elas tem vida mais simples
    e não menos poética do que as borboletas, 
    tão cultuadas, e tal... Então, tá!


    quarta-feira, 5 de setembro de 2012

    O QUE ERA, NÃO É MAIS



    Nos fins de tarde era prazeroso romper o imenso campo amarelo de girassóis enquanto permitia às tolas divagações que lhe acompanhassem, canteiro a canteiro. Caminhando em meio aos seus próprios sussurros internos, lembrou-se das palavras do amigo de quando conversaram mais cedo: “Ah, nada permanece, nada! Vamos sonhando e vivendo os momentos prazerosos e é só isso que sobra preso nas recordações”. Lamentara que assim fosse. Desejara ouvir dele mentiras sinceras sobre a perpetuação dos laços e pactos para toda a infinitude, mas o amigo ao invés de mentir-lhe elos indissolúveis, fez reafirmações sobre o tudo que se tem e num átimo já se faz nada. Por vezes ela apresentava no olhar rastros de incompreensão sobre o porquê das pessoas quererem ir-se embora do seu mundo, aquele mesmo mundo onde as mãos se alegram por poderem seguir entrelaçadas e cúmplices.  Ela não compreendia a ausência desejada, a saudade que se faz má porque o outro a deixou seguir sozinha pelo imenso campo de girassóis. Desbotaram-se as juras de suportar pelo outro quando a lucidez insinuar partidas mais demoradas. O amigo tinha razão, cada um tem direito a sua escolha, inclusive quando impõe ausência, mas entre saber e compreender havia uma distância gigantesca. Além do mais, o Sol já anunciava bocejos, era hora de fazer o caminho de volta e não havia mão alguma para, entrelaçada, lhe socorrer dos medos.