sábado, 29 de dezembro de 2012

A GENTE SE VÊ...



Três noites bastarão para trazer pela mão um ano novinho em sonhos. E quem arriscaria dizer o que ele reserva pra cada um dos viventes sob a face desse planeta doidão? Eu não me atrevo de jeito nenhum e pra falar de verdade, nem teria graça conhecer todas as letras dos trezentos e sessenta e cinco dias do filhote do tempo que ainda nem nasceu.

Quero conhecer resposta antecipada não. Quero mesmo é viver. Quem sabe no meu quintal nasce um pé de sonhos novos e eu acabo colhendo alguns pra transformar em coisa vivida e boa. Quem sabe?

É clichê (dos mais bacaninhas) nessa época do ano render-se às retrospectivas e/ou listinhas a serem cumpridas no ano novo. Melhor eu me incluir bem fora dessa. Resolvi assim depois que andei reavivando a memória para compor a primeira etapa, a retro. Eu contaria sobre ter entrado no carro prata de quem eu nem conhecia e a moça loira que não era a minha cunhada morena, deve estar até hoje pensando no quanto sou levemente confusa das ideias. Além disso, diria de quando despenquei com toda a minha preguiça até Maceió para rotineiras consultas médicas e lá chegando, me dou conta de que havia sido no dia anterior... Sim, fui morta pelo olhar fuzilante do meu irmão e por obra e graça do perdão, vivi de novo. Sim, confesso, não espiei o cartão de marcação como deveria ter feito dias antes, apenas confiei na minha memória trôpega... E lasquei-me! Sou boa em cometer tolices e é melhor parar a sessão retro por aqui.

Quanto à segunda etapa, das listinhas promissoras, não dá. Tento ser de verdade comigo mesma e com o filhote do tempo, coitado, que fica esperando o meu cumprir das coisas que nunca acontece. Eu sigo querendo que viver seja leve e prazeroso. Eu sigo buscando a alegria, embora saiba que e ela se acha importante demais pra fixar morada. O certo é que ela pode vir vez e muitas e é preciso estar receptivo, de peito e alma abertos para tal. Eu decidi que, entre outras coisas, quero é estar perto da alegria o maior pedaço de tempo que me for possível. Eu quero ter por perto gente que pulse, grite, seja, pense, beije, abrace sufocando, conte piada sem graça pra eu fingir risada. Gente que chore e depois alardeie o riso. Gente que faça do amor a sua arma vital.

Então é isso. “A gente se encontra nas esquinas, bares ou versos da vida”... Eu vou ali, beijar o mar e volto já.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

NÓS E ELA


Há sempre um poema a ser concluído.
Assim como sempre existirá uma flor a ser ofertada.
Sempre haverá uma mulher com seu sorriso enigmático
como uma tarde de outono a ser decifrada.
Há no meio da noite esse peito aberto
onde todo o espaço é pequeno pra guardar nossos sonhos.
Os mesmos que entram por nossas janelas 
e sinalizam  um futuro.
A vida, toda ela, é feita de esperança.

Feliz aniversário, Simone.




 ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas tocarem
Ela vai Atira-se
-  Ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...



(Mário Quintana)




Que se encontra alguém pelos cantos da vida, com quem se compartilha tantas afinidades e diferenças, a não se ter dúvida de que são pedaços importantes das mútuas existências. E quando há a conspiração e se dá o encontro, o choro e as grandes emoções imediatas dão lugar ao sorriso casual e alegria de quando se vê um amigo todos os dias. Feito quem sempre esteve presente nos momentos felizes ou não tão bacanas assim... Que é como se, naquela recepção de hotel a alma dissesse: “Pô, você demorou que só, bora tomar café da manhã?”... E num instante as bobagens, risos, implicâncias que se davam pela conveniência de um computador, acontecem exatamente como o coração toda a vida anunciou. E a amizade é tão linda e simples... basta apenas ser! E andar em círculos, perdidas feito duas crianças num caminho óbvio, se torna diversão inesquecível. E se tenta inutilmente explicar que o que se risca em desenho de giz, para percorrer em pulos de um pé só, é avião e não amarelinha.  E se quer pra sempre ser lagarta listrada a ver o mundo lá de cima, nas ruas das nuvens, levada pelo bico e asas de uma passarinha que quer mostrar um mundo cheio de boniteza e poesia. Que mais uma vez se pode sorrir e pensar: a amizade é tão linda e simples, basta apenas ser!


Por Milene, a lagarta listrada.

São Paulo (ele)/ Arapiraca (eu), 26 de dezembro de 2012, altas horas da madrugada.


domingo, 23 de dezembro de 2012

ALÉM DO QUE SE VÊ AO PÉ DA ÁRVORE



E cadê o mundo que nem se acabou? Acho que foi pura preguiça... O mundo, fosse um ser só, seria provavelmente meu parente, porque é preguiçoso demais.

Mas, cá com os nossos botões pensantes, porque haveria o mundo de se aperrear num acabamento apressado, se os seus habitantes, aqueles de inteligência ímpar, já o vem fazendo gradativamente e com muito esmero?

Amanhã já é véspera de Natal, não vou gastar palavras em postagem borocoxô, dizendo das feias verdades mundanas. Quero isso não! É preciso dar uma trégua nessa espécie de visualização da realidade e por momentos que sejam e apenas abusar da alegria. Eu decidi que quero estar alegre e bem tenho motivos pra isso. Um deles eu lhes conto: Lembram do menininho, o Leonardo, que num repente se viu tomado por uma malvada leucemia? Pois é, meses se passaram de tratamento duro e o menino é livre outra vez. E nessas horas até parece que Papai Noel de fato existe e trouxe a ele e sua família o mais valioso dos presentes.

Que Papai Noel que nada! Garrei um ódio nesse cabra mercenário. Quando li a postagem do Rike então, quis bem puxar minha peixeira cibernética, mas me lembrei do espírito natalino pairando sobre os céus iluminados, então recobrei o bom senso. O Rike contou que viu num shopping lá no Rio de Janeiro um garotinho que veria o velhinho falseta pela primeira vez. E o menino não se contentava de ansiedade, os olhinhos do futuro brilhando, e etecéteras. Então, para sua primeira frustração, o cabra estava almoçando (nem sem se assou uma das henas, porque Papai Noel do terceiro mundo se vira como pode) e o menino pôs-se a esperar até que o esfomeado voltou para enfim dá-se o encantamento. Beijo compartilhado, cartinha entregue... E que era encanto desfez-se rapidamente quando a mãe não teve dezenove reais para pagar a foto tão desejada pelo menino nos braços do bom (?) velhinho. Dizer mais o quê, a não ser da vontade de arrancar as barbas brancas e artificiais desse instrumento máximo do consumo? Filhodeumaéguanatalina!

De tudo lido sobre o Natal, porque se lê exaustivamente, a coisa mais bacana eu vi lá no blog da Van. Um texto massa, mas eu curti à beça uma frase em especial e a trouxe pra cá, com a devida autorização da moça: “Não vou a lojas, vou a casas; encontro pessoas, não ofertas; preparo carinhos, não pacotes. (...) Meu Natal tornou-se mais leve, mais livre e muito mais prazeroso”.

Eu vos desejo muita leveza de alma, absoluto descompromisso com os robotizados ritos natalinos e apenas a vivência do que for amorosidade e prazer de estar. Beber com os amigos um champanhe barato; ter ao alcance dos olhos e abraços aquela família meio doida, a qual não se sabe ser sem ela; saciar fomes e sedes de carinho, afeto e presença... ainda que se tente mudar o movimento das coisas de dentro da gente, ainda que se esforce pra desmerecer as sentimentalidades em nome da praticidade e urgência dessa vida pouco sentida... ainda assim, há sempre brecha pra se viver pedaços de alegria. Eu tenho um bocado deles. Eu quero um bocado deles e bem mais motivos de espiar pro céu e dizer assim: Poxa, bem bacana isso tudo, obrigada!

Me despeço com um trechinho do Paulinho da Viola, que diz: “meu coração tem mania de amor e amor não é fácil de achar”... Além do meu querer, amar é minha condição estar viva.

Um Natal de verdade a todos que generosamente deitarem os olhos neste texto que nem sabe direito porque veio.

Intés!


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

NUM REPENTE, LUA...


Brincar de palavrear com João Esteves é a coisa mais fácil do mundo. Feito criança pequena brincando de boto no terreiro de casa. Que boto lá pras bandas do Sudeste eu não sei como se chama, porque diferente de pique-esconde, o sujeito não precisa de se esconder. Que boto é só correr, correr pra não deixar ninguém pegar, porque se for pego primeiro, já é o boto que vai precisar correr atrás de outro pra ficar no seu lugar.

Mas não é de boto a fala por aqui. É de versejar brincando, brindando o descompromisso e dizendo apenas um “viva” ao acaso do encontro. Então o sujeito lá do Rio, a moça alagoana, disseram pra lua, feito num   repente, uns dizeres assim:



Eu tenho inveja da lua
que mora no seu quintal
coberta de prata, ou nua
seu encanto é natural

Se a tenho é que ela é minha
e eu a  prefiro pelada
lua nua é bonitinha
mas de santa não tem nada

Arrancou dela o vestido
lindo, todo prateado
não percebe o meu sentido?
eu sou bicho enciumado

Ê, bichinho alagoano
da lua só quero o lume
não me interesso por pano
que faço com teu ciúme?

Faça cantiga bonita
pra eu ficar animada
vê meu vestido de chita
esquece essa prateada!

Então te faço cantiga
que pode ser declamada
fosse com música, amiga
também seria cantada


João Esteves e Milene Lima


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

DAS NOELICES E DO FIM...



É de praxe em todas as sextas-feiras choverem scraps e afins comemorando a chegada do fim de semana. Quero ver se nessa que se aproxima, a famigerada do vinte e um de dezembro, será assim também.

Estive imaginando se fosse isso verdade, se estivessem certas as teorias acerca do fim desse mundo moribundo, o que seria de mim, assim tão carente de espiritualidade. Muitos me corrigirão e dirão que espiritualidade independe de religião. Sim, talvez eu saiba disso, mas precisava de uma palavra bonitinha para compor o texto. Relevem, abram seus corações amorosos, pois o fim está vindo, frenético.

Então no fim, no mundo resumido a escombros, muitos batendo na porta do céu, outros tantos sugados pelo imenso aspirador duzinferno, e eu, perdida num canto que nem sequer existiria mais. Por que sou uma “sem-religião”, porque eu não tenho certeza de nada, mas não desacredito, muito pelo contrário de tudo. Que lasqueira, viu? Quero isso não. O mundo trate de desacabar, porque tá uma ruindade só, mas quem sabe o ser humano toma jeito e resolve brincar de ser bacaninha full time? É bom alguém urgentemente desencavar um calendário Inca ou Asteca, pra ver uma coisa mais promissora...

Sem-religião está certo? O hífen é convidado indesejado? Eu não sei. Na verdade não quero muito saber. Ah, essa gramática é bem chatinha. Qual a relevância de um hífen numa escrita? Por que não se elimina o sujeito de vez, ou se aplica em tudo quanto é palavra composta? Quem determina essa coisa toda e por que o faz?  E os porquês, tem necessidade de haver quatro modelos? É por que demais nessa vida, quando na verdade um só podia começar a frase interrogativa, agir como sujeito sei lá do quê, funcionar como o cabra explicador e outras minúcias extremamente chatas. Queria bem estar na mesa sagrada dos homens das letras, enquanto eles resolviam que gira-sol está absurdamente errado, por quê... Porquê sim, ora bolas! Eu vos diria: Os digníssimos senhores não encontram mesmo nada melhor pra fazer, tipo capinar umas boas tarefas de terra ou carregar uns sacos no porto? Aí sim compreenderiam a imensurável desimportância do hífen e seus porquês.

Mas, imbuída do espírito papainoelino que se aproxima, talvez não dissesse desaforos aos homens das leis ortográficas, embora nunca tivesse lá muita intimidade com o bom (?) velhinho. Esse papo de ganhar presentes de Natal e demais etecéteras sempre foi meio surreal pra mim, pros meus irmãos, mas não no sentido de ser traumático, desolador, e tal. Pra mim era meio regra que o velhinho barbudo não gostava das crianças pobres, sem sapatos na janela, então quando ele trazia a boneca linda pra menina filha da patroa da minha mãe, era normal. No fundo, em silêncio, eu bem o xingava. Acho até que aprendi a palavrãozear na minha tenra (adoro esse nome e nunca pude usá-lo) infância, esculachando o pseudo papai das criancinhas boazinha. Eu pensava: esse filhodumaégua não vem aqui em casa só porque tem muita criança e o saco vai ficar muito pesado. Era pra estar pesado de doer, o saco do Noel. Por que não fui mais má e concentrei força maior ao meu pensamento infantil?

Talvez eu possa procurar o juizado de causas natalícias e requerer o retroativo dos anos (pra mais de 40) que esse velhinho sovina, bajulador dos bem-aventurados financeiramente, não me deixou nadinha. Mas eu nem tenho ressentimento desse ser desimportante, eu só detesto que me deixem esperando. “Seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem”... Cara de pau! Com ou sem hífen? Ah, vá!

Tá bom, né? Já gastei gramática equivocada demais com noelices e desacabamento do mundo, que já vem capenga desde a sua criação.

Intés!



sábado, 15 de dezembro de 2012

REFAZENDO



Nesta madrugada uma postagem tomou de assalto a minha página. Comportou-se mal e foi devidamente jogada aos porões da minha embarcação palavreada. Eu não me permito agir com tamanha insensibilidade com quem amo e foi assim que fiz ontem, ignorando a dor de uma grande amiga, que chorava a perda de um primo enquanto eu por aqui fazia gracinhas com a morte e seus derivados. Não pensei meia vez antes de remover a postagem e talvez nem reposta-la, porque não tenho muita paciência para guardar textos em rascunhos. Eles mudam aleatoriamente, além da minha vontade. Meia hora depois do que eu disse... Será que quis dizer aquilo mesmo?

Havia sido um dia estranho. Eu tive um sonho ruim e acordei chorando... Mentirinha. Sonhei mesmo um sonho feio, mas não acordei chorando não. Melhor tivesse acordado, assim viria o alívio. Sonhei um sonho inteiro, comprido, estranho. Não vou contar porque não curto muito as interpretações sonhísticas. Tenho medinho, pessoas. Melhor deixar pra lá o sonho feio. Boa ideia é ir até a padaria e comprar um novinho, recheado de doce de leite, o melhor que há. Ou então ordenar ao sono que tranque por uma noite apenas a entrada do sonho e me deixe dormir sono inteiro, sem espaço pra coisa alguma, até o dia bater à minha janela dizendo: cheguei!

Mas que seja bem tarde a sua chegada, feito foi hoje, se atrasando para o trem das dez, estou vivendo múltiplos dias de sábado em virtude das minhas bacaníssimas férias (só que não!). Dormir é mesmo uma maravilha, mas ando precisada de uma oferta numa pousada bem massa, no melhor estilo zeroeoitocentos de ser, acenando enlouquecido para eu pegar meu bisaco com uma muda de roupa e partir em busca da vida.

Partir é bom. Sair por aí, sem lenço e sem documento feito o Caetano, numa alegria inventada,  cantou. Farei isso algum dia na minha vida. E que não se demore esse dia, porque a vida urge. Só não me convidem pra acampar, por favor, não! A não ser que a sua ideia de acampamento coincida com a minha, com um banheiro bacaninha e cama confortável. Assim sendo, boto fé.

Não sei avaliar o meu grau de sensibilidade para hoje. Tem estado alvoroçado e andei me queixando comigo mesma se era preciso tudo isso. Mas prefiro desse jeito, prefiro transbordar e sentir até quando uma folha despenca da árvore que não mais a quer, a aguçar a tristeza em quem eu amo e por motivo de tão estúpida falta de cuidado. Perdeu-se aonde o  meu abraço que mandou no seu lugar doses destemperadas de descaso? Mas eu corri até quase perder o fôlego, eu o alcancei e o trouxe de volta lugar de sempre. 

Agora vou ali, comprar uma porção de sonho bom... você vem?



PENSANDO ALTO:

Por que sentir é sangrar-se um pouco a cada dia. É sarar a ferida com outro sentir diferente.. Por que sentir demais às vezes lateja de dor, mas não sentir é perder-se de si, alma vazia de sonho e amor. Por que sentir... é igual a viver.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

AH, MAR...



Ela amava o mar e as reticências, porque gostava da infinitude e desassossego das coisas. O mar e as reticências eram vistos diferentes a todo instante, sem quadro de pensamento definido.

Havia coisa mais desassossegada do que o mar? Todo dia apresentava uma boniteza diferente e ela sorria quando imaginava se misturar nas suas águas. Era na esquina do mar que ela queria morar, mas era tão longe... E quando lhe perguntavam por que se iludia cultivando amor pelo que seus olhos nem alcançavam, ela apenas se lembrava da dança do mar, inquieto, misterioso, imensurável. Responder, pra quê?

Sempre achou tolice as certezas cheias de si, feito viver fosse seguir um roteiro bem ensaiado e acontecesse conforme uma programação qualquer. E amar por acaso tem receita pronta? É louca a mulher que ama o mar tão longe dela, se sabe bem como é a sua dança? Mesmo se nunca tivesse caminhado nas suas ruas, ainda assim ela o amaria, porque amar era coisa de não se precisar desenhar com bom feitio de palavras e se descartar caso o desenho não saísse conforme o esperado.

Ela que não sabia verdade de nada, mas gostava de pensar que a receita de amar não cabia numa folha de caderno. Amar era bonito e podia ser longe, feito o beijo do mar no horizonte. Era estrada sem fim, ladeada por canteiros floridos e passarinhos acompanhando, de perto do céu, os passos. Amar era o que nunca pôde ser dito e nem por isso jamais deixou de ser. Amar era reticências...


domingo, 9 de dezembro de 2012

SOBRE SER DIFERENTE – O RETORNO



Nos primórdios, quando da criação desse garboso espaço de esmiuçadas e confusas letras, escrevi um texto com esse título, contando mais de mim, ou quase nada, dependendo do ponto de vista de cada um. Querendo ler, está aqui, grande, meio confuso, mas não costumo refazer os meus textos, me sinto traindo a mim mesma e as minhas imperfeições.

É que estava (estou) vendo o Esquenta, programa da Regina Casé, que eu amo de verdade por ser um pedaço de tempo onde a alegria, riso e as diferenças todas se juntam sem a necessidade  de olhares piedosos e hipócritas. Volta e meia aparece por lá pessoas portadoras das infames necessidades especiais e vão sem prévio convite, vão por se sentirem à vontade, por gostarem de música e simplesmente se divertirem.

Perdoem-me pelo “infames necessidades especiais”. Não gosto mesmo do termo porque não acho graça nessa tal especialidade. As pessoas são estranhas e meio loucas. Se não inventam mimos desnecessários pra que você não se mate por ser diferente, abusam da insensibilidade muitas vezes. Não era brinquedo não, por exemplo, parar no seu ponto de ônibus, e ouvir o cobrador gritar pro motorista: “abre aqui atrás que a ‘aleijadinha’ vai descer”... E é claro que o ônibus não tinha efeito especial feito os filmes do OO7, e nenhum alçapão se abria pra me sugar em milésimos de segundo, antes que todos os olhares se voltassem para a minha vermelhíssima figura.

Sim, isso aconteceu faz é tempo. Sim, hoje as pessoas estão mais educadas (?) e te chamam de nomes mais “adequados”. Eu nem mais ando de busão e nem é por trauma, nem fiquei rica para, por exemplo, ter um carrão com um motorista gostosão estilo o Gianechini numa dessas novelas. As questões são outras, mais práticas e solucionáveis um dia. Não aporrinharei seus olhares leitores em plena tarde de domingo, com assuntos de tamanha chatice.

Não dá pra escrever uma espécie de manifesto sobre como se sentem as pessoas “especiais”, no sentido físico, visual e sei lá mais o quê. Eu não sei nem de mim, vou falar por um povo todo? É cada um que importa, é como age e reage cada pessoa que carrega um problema desses o que deve ser considerado. Sim, porque é um problema, para com a palhaçada de dizer que fulano ficou cego e descobriu como é brilhante e outros tantos etecéteras fingidores de ser. Umas tantas vezes já se admiraram porque eu trabalho... E me dá vontade de dizer: “Você pode morrer, por favor?”. Admirável era meu pai, que saía nas madrugadas de sexta, sábado e domingo, muitas vezes sob chuva, em carroceria de caminhões sem nenhuma segurança, vender as suas miudezas na feira e sustentar a família. Admiráveis são os brasileiros que mantém uma rotina massacrante de acordar tão cedo, praticamente morar em conduções megalotadas e voltarem pra casa sem nem tempo de verem seus filhos direito.

Mas, eu, uma eterna adepta do preguicismo, digna de admiração, porquê? Bora parar com essa besteira de achar que uma pessoa portadora de deficiência tem que carregar genialidade. Bom, mas não posso falar por ninguém, né? Nem sou portadora da voz alheia, digo só por mim, porque os meus defeitos, os entraves na minha vida tem a ver com o que sou bem na carne da minha alma, e não na carne que é vista.

O Esquenta tá massa. Tem a “pequenininha”, que é como a moça anã gosta de ser chamada, é rainha de bateria, super bem resolvida, do tipo que as pessoas sem preconceito postam fotos nas redes sociais, ridicularizando, saca? A moça cega que ama samba e dança desnuda de qualquer constrangimento. O menino também cego tocando cavaquinho e cantando como um perfeito malandro carioca. A moça que respira por uma mangueirinha no pescoço, cantando à vida adoidado. Pois é. Deletem das suas mentes como os caracterizei. Eles são apenas pessoas. E felizes. E em outros momentos tristes. Por que são feitos do mesmo tecido que todo mundo.

E se um dia o mundo girar direitinho pra todos, se um dia a acessibilidade for uma coisa além do que manda a lei, e for natural perceber que nessa bagaceira redonda chamada terra existem pessoas que precisam sim de ferramentas diferentes pra viverem com maior dignidade o seu dia a dia, aí eu levo fé. Tipo: parar a pohha do ônibus pro sujeito que vai gastar mais da urgência cotidiana, não é favor algum. E não tem que ser apenas por obrigação. Um dia isso será natural... Eu sonho. Sonho meio sem fé, mas sonho.

O sinistro de assistir o programa é acompanhar, nos intervalos, a mensagem  de fim de ano da Globo e ser impossível fugir da vergonha alheia. Todos alegres, doando sorriso simpático aos servis operários que devem ser felizes só por conviverem com tantas estrelas. Essas sim, especiais. O que é Vera Fischer trepada e dançando na mesa? Constrangimento define.

Ah, a presidente Dilma também está no programa... Não prestei muita atenção, mas ela deve ter falado algo importante. Só que não.

Agora, recolho minha especial desimportância e sigo por aí, nessa intrépida tarde de domingo.

Inté, seus normais!



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

COTIDIANESCAS PALAVRAS

Imagem roubada lá do Rodolfo,que roubou não sei de quem... 
Ladrão que rouba ladrão é esperto que só!


NO RELICÁRIO, A LIBERDADE É INSEGURA
POR BRUNO BAADER.


Essa semana estou numas de tia fingidoramente explicadora. Minhas pestinhas alheias estão fazendo prova e me sacrifiquei em nome do amor que lhes sinto para fingir compreender toda a matéria e estudar com elas. O que é que houve com as matérias do tipo “quantas e quais são as regiões do Brasil?”...  O cabra decorava e pronto, fácil que só! Agora você tem que entender de déficit, mercado estrangeiro, sei lá mais o quê que provoca o consumo exagerado e resulta na degradação do meio ambiente. Que é que fizeram com os deveres de casa do tipo “decore a tabuada de nove e se não acertar lascou-se na palmatória?”.  Brincadeirinha, eu nem alcancei o tempo das palmatórias e não carrego a menor vontade desse conhecimento.

É uma bagaceira essas tardes com as minhas meninas. Entre gritos (os meus são mais berrantes, claro), risos e maluquices, resolvemos hoje parar para fazer um brigadeiro. Nem perguntei a minha vê (vesícula para quem não a conhece ainda) se me era permitido essa incursão, mandei ver e amanhã saberei, certamente, da sua chateação. A sujeitinha é arengueira que só! Não admite uma desfeitinha. A pessoa fica semilouca com quatro crianças estudando em séries diferentes, assuntos diferentes, exigindo a minha desconcentrada atenção. Marina lançou seu olhar galego pra mim e perguntou: “Madrinha, porque você tá usando os óculos que nem uma veia?”... Assim enfraquece a pessoa, demais. Entaõ ela ajeitou os óculos na velha face da madrinha dela, e me doou um sorriso lindo.

 Isabella, que nem estava estudando, veio só para uma visita esses dias, mexendo no meu computador, ouviu de mim uma ameaça que a fez tremer na base:
- Saia logo daí, antes que eu te dê uns cascudos!  - Gritei, sentada na minha cama.
- Você nem consegue se levantar... – Falou a pequena e desaforada meliante.
- Quem disse que eu não posso? – Falei, enquanto me levantava num impulso e a cena que vi foi bonitinha demais, acho que não conseguiria retratá-la com fidelidade. A guriazinha maloqueira colocou as mãozinhas de cinco anos pra cima, enquanto arregalava os olhos, mostrando ares de preocupação, no instinto de me proteger caso eu me desequilibrasse. Assustei a criança, sou má, pessoas!

Esses dias ganhei um poema. Esses dias perdi um poema. Triste isso, viu? Conversava com a Simone e dizia da minha vontade de fazer as pazes com um estilo de roupa que há tempos eu não usava. Ela disse: “apenas use e seja feliz”. Não contente, em segundos trouxe palavras lindas arrumadas pra festa, num poema de dizer isso, da gente ser feliz e se achar linda. Aí eu corri pra ajeitar o Relicário, achei de mudar as cortinas pro lá justo nessa hora. Então falei: me manda o poema de novo, que a janela aqui fechou e nem sei porquê. Então ela disse que o poema era tão meu que não havia salvo e ainda me disse desdenhadora do presente versado. Sério que até agora não acredito. Quis virar meu PC, literalmente, de cabeça pra baixo pra ver se letrinhas caíam e nada feito. O fato é que tristemente, sou uma sem poema. Se alguém trombar com uns versos lindos por aí, sem saber destino certo, são o meu presente.

Niemayer morreu, né? Será que surgirão matérias do tipo “o Brasil sofre uma grande perda” e bla, bla, bla? Acho um tanto de falta de bom senso, falando sério. O sujeito viveu intensos 104 anos e mostrou pra vida com o é que se faz, porque fez pra caramba! E agora é momento de se dizer “vá em paz, Oscar”, sem um quê de lamentação e um muito de gratidão. É preciso lembrar que o vinte e um de dezembro vem aí e perigava morrer todo mundo, restando só Niemayer passeando, imorrível,  pelas ruas sem esquinas de Brasília. Nunca entendi esse papo de Brasília não ter esquina... Os carros fazem o retorno aonde? Deixa pra lá as esquinas em que não passei, ao contrário do Djavan, que sabe bem pelas quais passou.

Ai, não posso conjugar o verbo djavanear, pois o show acontecerá na sexta-feira e me encontro, desde já, chorosa e deprimida... Mas, arremedo Cecília Meireles e digo: “eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste, (nem) sou poeta”...

Beijos. E não durma antes de sonhar... e cantar.