segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

DA MENINICE



Começo essa palestra com um bendito comprimido tentando se derreter sob a minha língua. Um calor que só deverá existir semelhante na matriz do inferno e o coiso demorando tanto a esvair-se em vitaminas para o meu ser.

Quando falei em “palestra” não quis insinuar que me tornei uma palestrante, daquelas que percorrem léguas dizendo tudo, ou nada, e de vez em quando um fica ricão que nem o Augusto Cury, que chamou o FBI pra descobrir quem roubou o seu queijo. Eu não fui! Doctor Gui, lindo, cheiroso e futuro rasgador do meu bucho, me proibiu categoricamente de ingerir os derivados do leite, inclusive o queijo que euzinha bem amo. A palestra nesse caso se trata de conversa, papo bom entre dois compadres no balcão da bodega, enquanto espera o bodegueiro entregar o pacote com o pão dos meninos.

Meu pai, quando trabalhador de uma das muitas fazendas pelas quais passou, tinha uma bodega, ou venda, ou seja lá que nome se dava. Fim de tarde, à luz do candeeiro, os outros homens da fazenda sempre apareciam para tomar uma dose antes de ir pra casa. Eu, miúda, os observava até que ele percebesse e me mandasse sair. E vez ou outra aparecia um sapo quase do meu tamanho, ou uma caranguejeira, ou um dinossauro... Não, menos. Na minha meninice eu nem supunha o que seria dinossauro.

Eu gostava de passear nas fazendas alheias onde meu pai trabalhava. Chegava lá meio acanhada porque só convivia com meus irmãos e primos nas férias, eu era menininha muletante da cidade. Fresca que só! Paparicada feito uma convidada de honra. E era incrível brincar nos quintais sem fronteira, e brincar de Daniel Boone ao som de “pijum-pijum”. Nossos tiros eram no alvo, nossas armas, vitais: a inocência e alegria. Até as sopas feitas das vísceras da galinha, cozidas em panelinhas de barro, se tornavam deliciosas. Tudo, instintivamente, induzia à participação de todo mundo na elaboração e feitio das brincadeiras, porque o mundo estava lá fora, bastava abrir a porta e espiar em volta. Éramos artesãos da nossa própria infância.

Não há intenção nessa palestra de comparar a infância daqui, com a meninice de acolá atrás. O tempo exige que as coisas evoluam e o acompanhem. Eu apenas acho que firmamos lembranças mais sólidas. Manuscrevemos nossa meninice e hoje ela só se faz por digitação, com direito a editor de texto para reparar os pequenos equívocos. Equivocar-se é preciso, assim como fazer as próprias roupinhas de boneca, os divertidos carrinhos com lata de leite, os boizinhos de mangas abortadas, também foi preciso e mágico.

Palestrei coisa que só pra uma noite que já adormece.
Bora dormir?
Boa semana, pessoas!


No fim da tarde, 
nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: 
Meus filhos, o dia já envelheceu, 
entrem pra dentro.

Manoel de Barros


15 comentários:

  1. Estou aqui sentado entre a geladeira e a pia tomando meu café bem preto, lendo o teu texto e lhe dizer: DELICIOSO. Depois volto pra prosar mais q eu vou pegar busão pra trabalhar. Não sumi, não, fuiu abduzido pelo trabalho. Help me. Bjos.

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  2. Muito legal e acho que temos que resgatas a meninice dentro de nós e traz~e-la para os meninos de hoje que estão próximos. Eles perdem muito só com as tecnologias fazendo parte de seus dias. Aqui, procuramos ocupá-los com tantas e tantas coisas fora isso! Eles adoram!

    beijos,chica

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  3. Aiai Milene que texto maravilhoso de se ler.Lembranças, recordações, sentimentos guardados, tudo se desperta ao te ler. bjss

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  4. Oi Milene,
    Bons tempos foram aqueles de "meninice". Também passei por isso e guardo lindas lembranças. A molecada era mais criativa, divertida, e consequentemente, acredito eu, mais feliz. Hoje tudo é muito fácil. Compra-se tudo no primeiro balcão da esquina. Também fui artesão, engenheiro, comerciante de muitos de meus brinquedos.

    Abraços.

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  5. Putz, é tão fácil saber quem roubou o queijo, formo rato.
    Mil N, meu filho qdo ver uma lagartixa ele diz q é um dinossauro, acho q isso é coisa de criança mesmo. Daniel Boone, isso é lagartixa... kkkkk. Meu filho que por que quer que eu brinque com ele vídeo game, aff. Queria era pegar o Osso da rabada do boi e imaginar q era um carrinho ou qq outra coisa. Quem diz q ele gosta. Bjos.

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  6. nostalgica? No meu tempoo de menino eu lia muito e jogava muita bola mas já cuidava dos irmãos e apanhava da mãe
    queria mais tempo para ter esse tipo de nostalgia mas o presente me exige tempo e minhas lembranças são de momentos mais novos....um dia

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  7. E todo o mundo dormia, feliz.
    A infância é mesmo assim, não é, inspirada palestrante?

    Beijo :)

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  8. Olá Milene,

    Lendo sua "palestra" pude viajar pela minha infância. Sabe que eu jogava até bolinha de gude com os meninos? E subir de costas na carroceria de um caminhão-rsrsr (arrebentei a testa e tive que levar pontos. A marquinha está aqui para provar esta peraltice). Tempo bom e tão diferente da infância atual. As crianças de hoje perdem muito, não obstante os ganhos que trazem a modernidade.
    Que bom que temos tantas lembranças deliciosas! Que bom que tivemos uma infância de verdade!
    Leitura muito agradável. Adorei conhecer um pouco da sua infância.

    "Bora" lá dormir?

    Beijo.

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  9. Ahh que mal há em achar que nossa infância foi mais legal???
    Foi mesmo! Kkkkkkkk

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  10. Acabei de terminar um livro sobre minha infância e pré adolescência. Estive bem ocupado na sua feitura. Aí,quando boto os pés aqui o que vejo, esta belezura de aconchego. Você bem que podia escrever também um livro sobre a meninice. Agradeço por me lembrar, no seu texto, da minha vó, gente rara e doce. Ela usava a palavra "palestra" quando queria conversar com a gente. Abraços.

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  11. Tenho como preciosa essa infância, mesmo com as dificuldades que as famílias enfrentavam. Elas nos levavam a desenvolver a imaginação, consertar brinquedos, transformá-los, procurar opções de divertimento simples, mas que se encontravam dentro de nossos horizontes. Estes, hoje, são bem largos, acompanhados, porém, de uma insatisfação estranha. A criança acaba de receber um brinquedo e já pede outro. E recebe, como os adultos, um chamado inconsequente da mídia, impedindo-os de aproveitar o que está no seu "quintal". Grande beijo!

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  12. Palestrante porreta essa hein?! E já nessa tenra idade a Mi_nina não era café pequeno naum...curiosa que só. Penso como vc, que há sim que acompanhar as modernidades e evoluções(?) desse mundão nosso, mas que não existem mais essas brincadeiras que estimulavam a criatividade e deixava escancarado a alegria de se viver...las-ti-mo intenso! Fora todos os outros benefícios... como socialização, com tudo que se tem direito...brigar, se esfolar, fazer as pazes e rir, muito, junto. Eu lastimo.
    Beijuuss amaaaada

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  13. Milene, tu é uma baita palestrante, o que não é surpresa. Esse seu texto me fez mergulhar na minha infância e senti saudades. Aliás, como quase todo mundo. É doloroso constatar que nada nunca volta atrás. Palestre mais!!! Bjão

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  14. Só você, Milene, sabe tratar um assunto sério com essa leveza e garrulice (ah, deixa a preguiça de lado e vá consultar os Aurélios e os Houaisses, se o Dr. Gui não proibir). Quando as crianças de hoje caminharem pelos tempos que virão, lembrar-se-ão de sua atual meninice com a mesma nostalgia com que recordamos a nossa. E talvez umas poucas tenham talento para descrever suas experiências com "aqueles lindos joguinhos com sua poética tecnologia primitiva" nos ambientes que substituirão os blogs, faces, twitters e quejandos. E essas terão aprendido a fazê-lo - espero - com os poetas e cronistas. Porque cronistas e poetas sempre existirão, não é?

    Beijos.

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  15. Linda viagem ao tempo da inocência e da simplicidade...
    Voltar a ver com os mesmos olhos de criança, e reviver as sensações inigualáveis das primeiras experiências neste mundão...
    Mas..."rasgador de bucho"??? Oxxxii!
    Essa é de Arapiraca mesmo!
    Beijo, Milene!

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