sexta-feira, 22 de março de 2013

A FACE AZUL

A BEIJOQUEIRA


Teve um dia, lá na outra escola em que eu trabalhava, que eu pude constatar a minha condição de não ser uma pessoa muito boa. O Emerson carimbando as carteirinhas dos alunos. Ele estava na bancada, eu num birô próximo, tendo a sua visão de perfil, sentado à cadeira. Então meu celular toca. Então uma das carteirinhas caiu no chão. Eu atendo e começo a conversar com um amigo lá de Minas. Ele inicia um movimento de inclinação lateral, movendo o braço direito lentamente em direção ao chão, à caça do objeto caído. Eu continuo conversando. Ele não olha para o piso, segue inclinando o braço e o rosto espiando pra frente, enquanto conversava com alguns alunos na janela. A almofadinha do carimbo encontra-se abertinha da silva justamente do lado direito, enquanto ele continua baixando o braço, levando junto o ombro e o rosto, que não podem ser apartados do resto do corpo, obviamente. Eu começo a supor o que vai acontecer e sem perceber, deixo a pessoa amiga falando sozinha ao telefone móvel. Alguns segundos que parecem demorar séculos é o tempo que separa a face direita do Emerson, da carimbeira transbordante em tinta azul, aberta, querendo beijá-lo. Ele não percebe o afago carimbado preenchendo o lado direito do seu rosto socialista. Eu disparo numa risada descontrolada, sem conseguir ao menos responder ao meu interlocutor o que se passava. Apenas gargalhava. Emerson me olhava sem entender até que, longos minutos depois, eu consegui recobrar a seriedade (?) e ofereci-lhe meu espelho para que ele se visse azulzinho. Uns anos se passaram, mas, até hoje ele me acusa, injustamente, por não tê-lo avisado da armadilha carimbada. Eu juro que tentei. Quer dizer, na verdade quis muito ver o inacreditável acontecer. Como aquela caixinha de carimbo foi se postar justamente ali? Como ele pousou tão lenta e lindamente sobre ela, sem perceber nadinha? Acho que foi só porque me ama muito e queria me fazer rir como em raras vezes na minha vida.





Mas, no fundo, bem no fundo, sou uma pessoa de boa índole. Não foi de propósito que perguntei à menina na escola se aquela colega (mais nova que ela) seria sua mãe. Foi sem querer, eu juro. E depois também foi sem querer que não consegui controlar o riso, pela vergonha que nem era alheia, era de mim mesma.

Tentar acertar é a minha meta. Merecer o perdão pelas minhas falhas, essas coisas, sabem? Quando naquele dia bem lá longe eu estava na calçada de casa e vinham aquelas duas mulheres do meu conhecimento e eu, fofa que só, cumprimentei a mais velha com um “tudo bem dona Fulaninha?” e a mais nova de imediato respondeu: “não é a mamãe não, Milene, é a Coisinha de Jesus, minha irmã mais velha”... Fazer o que numa hora dessas em que o chão não se abre na vã tentativa de te guardar? Buscando um resquício de fala que me restou, falei: “Poxa, mas elas são parecidas demais, né? É que dona Fulaninha está muito jovem, por isso as confundi”. Foi!

É que eu fui criada pra lidar com esse tipo de situação. Desde menina fui obrigada a me desdobrar quando o assunto é vergonha dos alheios e de mim, por tabela. Estava de férias lá onde meu pai trabalhava. Um anjinho morreu e fomos, eu e vó Júlia, mãe do meu pai, pro velório do inocente. À luz da candeia, postavam-se na sala umas mulheres conversadeiras e minha vó desatou a falar mal de uma vizinha que andava de olho grande pro meu pai, o Luiz filho dela. Vovó rezou um rosário inteiro de elogios contrários para a tal moça, enquanto uma mulher rezadeira e outra tentavam fazê-la parar. Depois de muito xingamento, uma pessoa diz lá no fundo, encoberta pela pouca luz do candeeiro: “estou aqui, Dona Júlia”... Fez o silêncio por segundos que pareceram séculos, até que vovó recuperou o fôlego e xingou tudo de novo, dessa vez dando o recado diretamente ao motivo da sua irritação. E depois foi só dizer “vamo simbora, Milene” e pronto.

Vamo simbora dormir?
Sou pessoa boa, sou sim!



21 comentários:

  1. Quanta maldade enrustida
    Nessa pétala rosada!
    Mesmo assim, página lida,
    Continua sendo amada...


    Beijos, maldadosa...

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  2. Milene, imagino vc rindo ao se lembrar dessa cena. rsrs E claro que vc tenta acertar, todos nós tentamos. Mas conseguir já são outros 500. Adorei essas histórias. E dizer que a amiga mais velha é mãe da outra? Genial. rsrs bjsssss

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  3. Pois de certo que não deveria avisar!!!
    O FACE é AZUL meRmo... uái!
    A mãe da irmã da filha mais velha da vovó que confundiu a mãe... nuss!! num tendi... kkkkk

    BeJÚ nocê e DeusssssssssssssssssssssssssKiajude

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  4. Rsss...Não dá pra não rir e tu és pessoa boa sim. Tua avó também,rs beijos,chica

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  5. Quando temos aquele dom de ser engraçada com tom de seriedade misturada ao que é amigo de verdade tudo se torna interessante demais ne Mi..rsrs. Tu aprontar ei menina flor.
    Bis

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  6. Lele eu ri e muito
    com suas librianices....


    Hoje acordei com um passarinho na minha janela.

    Qdo vejo pássaros lembro de Manoel de Barros.

    Dele-pra Tu

    Liberdade busca jeito.
    Sou água que corre entre pedras.
    Quem anda no trilho é trem de ferro



    beijo

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  7. Olá Milene,

    Dei boas risadas por aqui, imaginando cada cena. Ninguém está imune de passar por estas "saias justas" de quando em vez. Já dei vários "foras" e o último foi semana passada, no salão. Estava muito calor e eu disse para a manicure: "pior para você, que está grávida" e ela me respondeu: "não estou não, você deve estar me confundindo com a outra manicure" - rsrsrs. Que situação! Acabei chamando a garota de barriguda-rsrsrs.
    Já dei inúmeras 'mancadas', principalmente gargalhar em momentos que não comportam uma risada, mas fazer o quê? Há coisas que não se controlam e o riso é uma delas.

    Beijos, queridona.

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  8. todos temos o diabinho interno,kkkkkkkkkkkkkkkkk ótimo texto, ri muito...
    bjs

    http://eubipolarbuscandoapaz.blogspot.com.br/

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  9. é uma pessoa boa sim baby.

    afinal... #quemnunca ?

    ;)

    bjos,

    naty

    http://borderline-girl.blogspot.com.br/

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  10. Que bom ter lido agora, antes de dormir. Filmes de comédia não me fazem rir e você consegue. Fui imaginando a cena e vendo o rosto do rapaz se aproximar daquela que esperava para beijá-lo. E a sua gargalhada!!!! Não podia ser diferente, pois foi mesmo engraçado. Você é um encanto, Milene. Grande beijo!

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  11. Adorei essas bombas todas, adoro rebentar e ver rebentarem minas, heheheheh
    Uma vez a Dona Celeste mãe da Paula minha amiga na adolescência foi num velório e se aproximou da viúva em lágrimas e muito pesarosa, segurou nas mãos da senhora e rebentou com um sentido:
    Os meus parabéns !!!
    ahahahahahahahahahah, foi de rir sem controlar, heheheheh amo bomba sem aviso
    beijo Milene

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  12. Vc é boa e má e vice e versa, afinal é humana...kkkkkkk. bjos.

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  13. Imaginei a cena. Juro.
    Um ótimo domingo pra ti Mileninha!

    Bejus

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  14. Você é má MíLi, mas uma má de boa índole! Hahahahahahahaha. Gostei também do causo da vó! Eita veínha braba hein!

    Um beijão e fica com Deus!

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  15. hahahaha, Ah, Milene, uma carimbada no rosto não é nada perto da história do velório...Imagino que no decorrer da cena você teve a impressão de que tudo aconteceu em câmera lenta, não é mesmo? hahahaha Pior que essas tintas de carimbo demoooooram para sair do rosto...e assim vamos aprendendo, de mico em mico, a superar as derrapadas da vida. Um abraço!

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  16. Hahaha esses causos! Eu adoro e tenho que admitir que sou um tantinho má tb!
    Mas é bom dar boas gargalhadas!
    Adorei! Bjs

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  17. Depois de um final de semana onde a saudade doeu mais forte e me apartou da internet vir aqui e ler seus causos bem contados é baum dimaisss!
    Beijuuss Mi_nina boa!

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  18. :)))
    Pessoa boa, sem dúvida, e do melhor que conheço.
    Bons sonhos, Milene!

    Beijo :)

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  19. Uma delícia, essas destiladas de veneno...
    Aquela da tua vó foi um mico de arrasar com qualquer velório...
    Bjs, Milene!

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  20. Olá querideza,

    Você sumiu e vim ver o que você está aprontando, mas vejo que está quietinha, o que não é muito comum-rsrsrs.

    Desejo a você uma doçura de Páscoa, recheadinha de bençãos e de alegrias.

    Beijo.

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  21. MILENE,

    ESTA FOI UMA DAS VEZES QUE VOLTEI A ME EMOCIONAR APÓS LER UM TEXTO.

    VOCÊ CONSEGUIU!

    OBRIGADO E UM ABRAÇÃO CARIOCA.

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