terça-feira, 30 de abril de 2013

ENTRE ESTAMPADOS E PEQUENAS CACHOEIRAS


“Congela o tempo pra eu ficar devagarinho”, Tulipa Ruiz canta versos da sua Efêmera, que eu adoro, cá no meu ouvido enquanto penso em palavras para preencher a folha, ávida, mas nem tanto.

Se congelar o tempo só na canção já está de bom tamanho. Por aqui a chuva, falada em versos e prosas anteriores, há dias fez dessa bandas a sua morada e não demonstra intenção de ir embora. Chove que só! E o mais engraçado, sendo que graça não há nenhuma, é que ela decerto acha que o meu quarto é um pedaço do sertão. Eu já falei, cantei, supliquei: “chova um pouco mais pra lá, banhe aquela plantação ali”, mas não tem jeito, ela gostou de fazer cachoeirinhas a escorrerem pela parede. Depois de ter gasto uma grana numa reforma inacabada, perceber que um bocado de coisa está literalmente indo por água a baixo, dormir na sala é massa, mas não muito. Mas, o que são umas cachoeirinhas de nada no meu humilde canto do dormir, enquanto uma região toda está com o olho cheio d’água da chuva, chorando esperança?

O tempo esfriava. As nuvens todas se desmanchavam em água e eu aqui, rasgando recortes de revista, colando uns nos outros, repetindo moda na minha mesa do computador. Gosto imensamente desse trabalho meio louco, digno de uma paciência enorme. Sem tesouras, apenas as mãos e os recortes rasgados e colados de modo a se encaixarem num imenso estampado. Já havia feito isso em cadernos, agendas, caixinhas, mas desse tamanho, não senhor! É que o Ansiopax está caro que só! E enquanto eu rasgava aqui e acolá, esquecia o quanto pensar pode ser cansativo e dolorido.

Enquanto congelava o tempo na canção, esfriava o tempo de se sentir, pros lados de lá as coisas aconteciam como sempre, com a mesma besteirice ou absurdez. O Maracanã foi reaberto com uma festança das boas. A Presidente estava lá e eu não sei por que não a fizeram ter uma participação maior, como por exemplo, atuar como bandeirinha. O povo amaria recitar poemas lá da arquibancada e ela, comovida, retribuiria com outro programa no melhor estilo bolsa de ser. Que tal um projeto voltado para a vaidade do povo brasileiro, da mulher principalmente, mas com participação especialíssima do homem, que poderia se chamar “Bolsa Chapinha – seu cabelo sempre na linha”... Acho digno.

Falei pro Itallo que estava rabiscando, ele disse: “Quintane-se”. Sinto desapontá-lo ao derramar aqui o meu paiol de bobagens costumeiro. Ainda bem que o Quintana não frequenta blogs, ele só gosta das páginas amareladas dos livros antigos e os lê enquanto o tempo não tem pressa, no lado de lá. O que é o tempo no lado de lá? Não darei conta de tanta filosofia, isso é coisa pro Itallo, que no frescor dos seus vinte anos talvez nem suponha o quanto eu gosto de aprender com ele nessas nossas prosas da madrugada.

Eu tenho que ir, porque inventaram uma coisa de se ter que ser gente grande, acordar cedo mesmo que cachoeiras se derramem no seu quarto, cumprir bacaninha um dia de trabalho e outros etecéteras. Chato isso de se ter que ir.

Agora é o Humberto Gessinger que me encanta os ouvidos, dizendo “volta pra casa, me traz na bagagem, sua viagem sou eu”... Versos de amor. Do amor eu não falo. Não sinto. Eu minto.

Inté mais ver.


RASGA, COLA E ESTAMPA... 

20 comentários:

  1. Um viva para o bolsa chapinha!!! Tô com o cabelo curto, mas ele crescerá um dia e eu não vivo sem uma boa chapinha ou escova, então serei com certeza uma das contempladas.

    Ah sim, melhor definição que já vi sobre o nome Borderline foi o seu "vistoso". Ri por muito tempo. Você tem razão. O nome inspira imponência e importância uhaeiuhauiehaiue

    Beijos baby. Preciso dizer que você arrasou AGAIN?

    http://borderline-girl.blogspot.com.br/

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  2. Ô minha cronista preferida, tava com saudades de águar em sentimentos com suas crônicas. Pensar q na minha adolescência eu recortava as minas gostosonas da playboy, lógico, sem mostrar o play, e fazia capa para os cadernos da escola, e fazia sucesso, pois todos os colegas passaram a imitar. Prá vc ver, eu era normal...kkkkkkkk. Bjos úmidos e aguados.

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  3. A chuvinha te inspirou mais uma vez! Gostei como sempre! beijos,chica

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  4. A sua forma de expressão é divina Srta, adoro! Estádios de futebol agora é cronograma para campanha eleitoral, veja só, quantos verão a Dilma como Rainha, por "dar" a grandiosa copa do mundo ao Brasil! abraços

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  5. Eu perdí o meu medo, o meu medo da chuva
    Pois a chuva voltando prá terra traz coisas do ar.
    Aprendí o segredo,o segredo da vida
    Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar...
    Raul Seixas

    adorei a mesa .

    (tudo vive para que eu viva)

    Beijo

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  6. Oi MíLi minha amiga!
    Mais uma de suas crônicas perfeitas. Você consegue inserir seu mundo particular no meio de textos escritos para todo mundo. Parabens minha amiga!

    Ah... A colagem que vc fez é essa da foto?
    Ficou muito bom!

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  7. A chuva vem de mansinho
    Inspirar-te um belo texto
    E usa esse pretexto
    Pra te abraçar com carinho
    Chorando os seus queixumes
    Pelas paredes, ciúmes
    Das belezas do teu ninho.


    Você fez um mapa. Um dos muitos mapas diferentes dos reinos das artes, para os quais você tem passaporte vitalício e visto permanente. Reinos onde você nos recebe, às vezes como guia turística, às vezes como rainha. Dizer mais é chover no seu quarto... digo, no molhado.
    Beijos.

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  8. Já disse, adorei a mesa! Linda e cheia de vida. Sua vida!

    Esse é o diário particular mais poético que já vi!
    Adoro te ler. Sempre!

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  9. Dificilmente entenderemos todos os segredos da mãe natureza. Muita chuva para alguns e quase nada para outros. O segredo é usar bem o momento que se tem, assim como o fez. Rabiscar ideias e outras coisas mais, enquanto a cachoeira desce sua parede.

    Abraço.

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  10. Que mesa "massa"...a-do-rei mais esse lado, arte pura, seu. Cachoeira no quarto é o Ô...ainda mais depois de uma reforma. Tá parecendo eu por aqui, com o apê todo esburacado por conta da reforma EXTERNA que es-go-tou minha sanidade interna (se é q um dia tive alguma)e lutando preles pagarem a arrumação...e bota "conciliação entre as partes" e aumenta minhas orações pra Santa Bicicletinha dar-me equilíbrio...enfim, imaginemos juntas que essa mudança climática (sol-seca/chuva, buracos nas paredes)trará algum tipo de benefício... tipo de bolsa decoração ecologicamente correta, sei lá...
    Beijuuss minha Mi_nina humorada

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  11. A chuva deixando você incrivelmente inspirada.
    Achei o blog por acaso, adorei.
    Haa, Linda mesa.
    Abraço.

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  12. Olá Milene,

    Esta arte aí, de 'rasga, cola e estampa', deve dispensar mesmo o uso de qualquer ansiolítico-rsrs. Gostei do trabalho, menina arteira.
    Que chuvinha desajustada esta, não? Cachoeira no quarto ninguém merece.
    Seu texto é uma delícia. Não há como não sorrir ao lê-lo.

    Ótima noite, querida.

    Beijo.

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  13. Milene, mais uma crônica ótima. E legal conhecer o espaço que vc fica! Ficou ótima essa mesa,hein?

    Amo chuva, mas cachoeira no quarto depois de uma reforma é demais. Aí não.
    Adorei como sempre. Beijos e bom feriado.

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  14. Milene, gosto demais do jeito como escreve, mas às vezes venho aqui e seus textos me arrebatam de um jeito que não sei explicar...esse foi um deles. Sensibilidade demais, colocada com verdade demais, duas coisas que pra mim, nunca são demais. Reformas são mesmo chatinhas principalmente se o bônus for um córrego de água no quarto...espero sinceramente que a situação se resolva num estalar de dedos.
    Fantástica a arte que fez no tampo de sua escrivaninha... como sabe estou fazendo umas modificações aqui em casa e sua ideia pode me ser muito útil! :D O gabinete da minha máquina de costura está carente de uma bonita cobertura já que no momento não haverá grana para comprar um novo.
    Quintana é um bom refúgio quando a alma está dolorida...e ir embora é chato mesmo, ainda mais quando a prosa é boa, como a sua.
    Um abraço!

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  15. Este comentário foi removido pelo autor.

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  16. Eu soube das chuvas aí pelas Alagoas...
    Mas, adorei a sua mesa! Uma festa de estampas!
    Mais ainda da tua crônica!
    Bjs, Milene!

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  17. Sua criatividade vai além das palavras. Esse corta/cola proporcionou alegria à mesa. Até fiquei curiosa para saber que imagens selecionou e aumentei para conferir(rss). Você faz até de uma goteiras insuportáveis um clima ameno. Reformas são uma passagem sobre espinhos, pois sempre acabamos machucadas. Bjs.

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  18. você faz do dia a dia, de chuvas e trabalhos manuais uma festa! mas escorrer água da parede ninguém merece, ainda bem que vc encara tudo com o bom humor de sempre, aquilo que te faz ser especial, única. eu gosto de vc. de verdade. bjs

    http://eubipolarbuscandoapaz.blogspot.com.br/

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  19. Já te disse lá no face, né? Adorei essa mesa!

    Bejus

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