terça-feira, 10 de setembro de 2013

DA EXCESSIVA FOFURICE - O DIA


Semana passada houve o dia do irmão. Pasmei, mas escrevi lá qualquer coisa para dizer amor aos meus nove irmãos, incluindo aquele que se foi da vida há muito tempo. Inventaram pra hoje uma data ainda mais descabida, o dia do gordinho. Oi? Falou comigo?

Gostaria de viver o suficiente para compreender tais invencionices. Para que serve o dia do gordinho? Ah, claro. Serve para conscientizar as pessoas do quanto é importante cuidar da saúde, fazer exercícios físicos e todo o imensurável blablabla. E também serve para se ler piadinhas toscas, com imagens de pessoas supergordas expostas ao ridículo, divulgadas pelos padronistas que fazem tais gracinhas, mas é só pra descontrair. Por que na real o que importa mesmo é o como ela é linda por dentro. Sacô?

Claro que não. Como as pessoas são por fora importa, e muito, sim senhor. Ou é assim ou se reconstrói outro mundo, outros conceitos e outras amostras de como funcionam tais conceitos. A mim, que carrego gordice desde sempre, já me foi dito inúmeras vezes: “se você é feliz assim, então se dane o que os outros pensam”. Não acredito que a condição de ser gordo seja motivo pra qualquer pessoa ser feliz. Aliás, felicidade é um troço tão complexo, que relacioná-lo ao aspecto físico é no mínimo estranho. Se assim o fosse, nos consultórios de psicanálise não haveria uma só pessoa carregando magreza e saúde. Voltando aos portadores de fofura excessiva: é sim questão de saúde. É sim poder olhar no espelho e suspirar se achando linda e eteceteras. É sim ter o absoluto controle do seu corpo e dizer a ele aonde você quer ir, e não o oposto, ele ordenando que você pare, porque não suporta mais lhe carregar.

E essa necessidade qualquer vivente tem. Mas a patrulha sofrida pelo pobre gordo é de uma insuportabilidade que nem vos conto, pessoas. O comentário do tipo “está pesada, heim?” é tão desnecessário. Tipo, talvez muita gente não saiba mas o espelho chegou ao Brasil logo quando Cabral trouxe o bocado de bandido pra cá. Eles enrolaram os indiozinhos todos, lhes mostraram sua face espelhada e pronto, de lá pra cá tem sido artigo que não falta. Portanto, é sem precisão esse aviso, porque certamente a pessoa tem leve desconfiança que é gordo e o próprio corpo a avisa. Sacô?

Mas, ora. Deve o sujeito porque é gordo, porque o cotidiano não perdoa, porque as cadeiras no cinema são cruéis, porque a maioria das lojas de roupa desdenham da sua necessidade, porque desde a infância você é visto como um serzinho insólito e meio bobo, correr para a ponte mais próxima e se atirar, repleto de dó de si mesmo? Não, por favor não. No meu caso seria um tanto mais complicado porque não posso correr com minhas muletinhas e meu sobrepeso. Não judiem da minha gordice. Além do mais, não me lembro de pontes por aqui, então essa ideia se faz destruída antes mesma da sua total concepção.

O que quero dizer, embora nem eu mesma compreenda, às vezes, o que eu mesma digo, que estar bem, estar feliz, e outros adoráveis clichês, acontece, ou não, independente da sua condição física. A pessoa pode carregar alegria e disposição pra vida e isso não implica em orgulho da sua gordice. Aliás, acho esse papo de orgulho disso e daquilo outro de uma chatice desmedida.
Mas eu sei que o mundo é assim, gosta de lados, acentua os opostos, evidencia as diferenças e mente que o faz pra mostrar como todos são especiais e lindos, dentro das suas diferenças, embora viva lembrando ao portador de fartura corpórea o quanto ele tá lascado se não tratar de perder, ligeiro, um bocado desse corpo todo.
Pare de lorota, seu mundo! O senhor é um grandessíssimo excludente e se pudesse, acolheria só os seus perfeitinhos, de acordo com o seu conceito bem filha da puta de perfeição. Mas haverá de se conformar em ver desfilando sobre suas calçadas um bando de gordinho serelepe que cedo ou tarde tomará alguma atitude para melhorar a sua condição física... ou não.

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, caetaneei... Dores e delícias pertencem a todos os viventes, seja lá qual for a sua circunferência.

Antes de ir embora, eu pergunto: Você, querido leitor, já sacaneou algum gordinho do seu convívio, com piadas infames, com algum tipo de bullying quando nem se sabia o que é isso? Se o fez, eu sugiro que se ajoelhe no milho e reze uns três rosários seguidos para aliviar o peso do seu pecado. Não que eu esteja rogando praga qualquer, porque sou boazinha. Muito menos passe pela minha cabeça inocente inventar um bonequinho de vudu para espetar vosso corpo inteirinho... Jamais!

Um beijo, meu, que desconfio carregar leve gordice... Mas vou agorinha me certificar no meu espelho vindo nas caravelas de Cabral. Se não tiverem sido caravelas as embarcações, Rodolfo me corrigirá, eu bem sei. Mas que um bocado de meliante desembarcou aqui, isso é fato.


Inté.


11 comentários:

  1. Rsssssssss...Como sou gordinha( sou não, estou!!) adorei a imagem. bem assim mesmo!

    E agora, quando as roupas são mais leves, que aparecem as graxas, nem me fala!sr Legal te ler! bjs,chica

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  2. às vezes os braços quer mesmo é um pouco de fofurice ao abraçar e não se sentir em um bambuzal, afinal quem gosta de osso é cachorro. Bjos.

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  3. Querida amiga Milene
    Você me fez descobrir que nada na vida é mais importante do que uma amizade sincera e verdadeira. Os amores passam e os amigos ficam. Agradeço-lhe o carinho deixado em minha página enquanto estive ausente em viagem ao Rio de Janeiro. Você é uma pessoa única pois já nasceu especial. Adoro a sua amizade.
    Beijos recheados de saudade e muito carinho.
    Gracita

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  4. Para homenagear a fofurice, Kundera escreveu "A insustentável leveza do ser"...

    (Eram 10 naus e 3 caravelas). Beijos.

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  5. Milene, posso confessar que nunca brinquei com alguém por ser gordinho. Aliás, nem gosto de homens magrelos. É gostoso abraçar quem tem corpo para nos aquecer.
    Você fala que o exterior importa, nesse nosso mundo, mas não é capaz de fazer alguém feliz e/ou amado. Grande beijo!

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  6. Milene, disse tudo. Aliás, nem sabia que existia esse dia. E a felicidade é muito complicada, independente da forma física da pessoa. Tem gente que é um exemplo de "perfeição" (o que é perfeito?) e é infeliz e gente que foge dos "padrões" é tá ótimo.

    Eu nunca sacaneei nem gordo, nem magro, nem ninguém. Aliás, sempre odiei com todas as forças essa turminha. Muitas vezes me metia pra defender e acabava sacaneado junto. Aliás, sempre desejei a morte lenta e dolorosa deles. Dane-se, desejei mesmo. E espero que todos tenham fracassado na vida.

    Adorei o texto como sempre. Bjão!

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  7. Eu gostava de assistir as façanhas do gordo e o magro.

    A história mostra que o padrão físico, transforma-se em cada época. Na idade média e até nos tempos de Cabral, a mulher ideal era a considerada gordinha, capaz de gerar filhos fortes e valente. Atualmente o mercado volta-se para o padrão magreza.
    Não se pode negar: Há quem tire proveito e há quem tire sarro. Tenho uma amiga que tem uma loja exclusiva para gordinhos e fatura muito bem obrigado. Recentemente em Caxias do Sul, tive a alegria de assistir uma baixinha e gordinha, desfilando, concorrendo a Rainha da Festa da Uva 2014. E olha que estava linda e feliz da vida. São sinais de que o privilégio não é somente da magreza.

    Cabral trouxe um bando de meliantes para cá, sim! O problema é que a proliferação é tanta que seu controle parece inatingível.
    Abraço

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  8. OI MILENE!
    TEU TEXTO TRÁS UM CONTESTO DE MUITA IMPORTÂNCIA QUE É O EXCESSO DE PESO, FALA NO QUE SOFREM OS GORDOS, MAS SEMPRE CONSEGUES DAR TEU JEITINHO PARA DESCONTRAIR QUEM TE LÊ.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  9. Um dia depois do dia do irmão foi o dia do sexo sabia?! hahahahahah

    Mi, não tenho orgulho, mas preciso admitir que já cometi Bullying sim, quando eu era adolescente idiota eu fiz isso, mas paguei caro! Bem feito pra mim...

    Não justifica, eu queria encontrar a pessoa hoje e pedir desculpas, mas enfim...

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  10. Milene, menina inquieta... qualquer argumento contra gordices cai por terra quando bem lembra que se peso fosse sinônimo de felicidade não haveria sequer um magro triste com problemas emocionais.
    Por saúde acho que todos devemos zelar, independente do peso, e por felicidade, que todos cultivem as suas, independente do que a balança diz.
    Mas inventar um dia para o gordinho acho realmente desnecessário, ainda mais com o intuito de repreender.
    Um abraço!

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  11. Puxa, eu estou desinformada, pois nem sabia que existia dia do irmão.
    Também não entendo justificável designar-se um dia para os gordinhos, ainda que se alegue que seja para chamar a atenção para problemas de saúde.
    Nunca tirei sarro de nenhum gordinho(a), pois sempre antes de qualquer observação que melindre alguém procuro me colocar no lugar da pessoa.
    Há pessoas infelizes, sim, por causa do excesso de peso, mas há aquelas que não tem qualquer problema em ser gordo(a). Creio que a pessoa que se gosta não carrega traumas acerca do peso. Todavia, cuidar-se é fundamental, pois o excesso traz sérios problemas de saúde.

    Texto adorável, como sempre.

    Beijo.

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