sábado, 12 de outubro de 2013

PRA ONDE FOI QUEM ESTAVA?

Sou descombinada de ausências, tenho uma certeza libriana disso. Sou feita de partículas de saudades, essa é outra quase certeza. Quando nem me dou conta, quando espicho o olhar pro meu redor, cadê o que havia? Cadê quem estava?

Quem estava foi embora. Ou a gente foi embora e deixou pra trás quem um bocado de significância. Nessa hora não é tão importante saber se o tal biscoito é fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é fresquinho. O fato e não dito é que as coisas que a gente pensava estar a salvo numa eternidade bonita, esvaiu-se em lonjuras e estranhezas.

O bonito nessa hora é vestir-se de maturidade e compreensão, aceitando a impossibilidade de se pedir garantias do gostar alheio e permitindo que o alheio apenas siga as setas que escolher, mesmo que a gente fique um tanto perdido no caminho, porque se acostumou com a mão sempre estendida do outro lado da estrada. Dá-se a isso o nome de nobreza?

Gestos nobres são bacanas, mas não há como fazê-los do abraço pra fora. É preciso ser sentido e doado com uma veracidade inquestionável. E isso de apenas sorrir saudades optou por seguir outras setas eu ainda não tirei boa nota. Seja, talvez, uma espécie de presunção que se tornou frustração. A pessoa (eu) se achava tão incrível que não ousava supor que a vida de outrem pudesse ter, sem ela, a mesma desmesura de alegria. Por que a pessoa também não conseguia mensurar a vida caminhando sem as mesmas palavras e afeto de antes, de quando desmedir o riso e lamber o choro era parte de um acordo absolutamente involuntário e massa.

A sensação é de que a vida desacorda os sentires do outro dia, seguindo esses cursos inevitáveis. E a gente espera por um tempo, na tentativa infantil de que tudo retorne aos velhos retratos, até que de tanto esperar, tudo vira desimportância...







16 comentários:

  1. Saudades pura nesse teu lindo e reflexivo texto! Gostaríamos que as pessoas que se foram, pudessem voltar, mas...

    beijos,chica

    ResponderExcluir
  2. ... a mais elevada forma de esperança é o desespero superado.

    amar , amar e amar até na desimportância.

    beij0

    ResponderExcluir
  3. Maravilhoso texto, Milene. E realmente gestos nobres são sempre bem vindos mas nunca do abraço pra fora (adorei isso). Essa espera acaba fazendo parte da vida de todas as pessoas. Bjs e bom domingo. ps: essa música é linda.

    ResponderExcluir
  4. A alegria interior deve manter equilíbrio com aquela exterior, que advém das interações com as nossas amizades e amores...
    É bom guardar sempre um pouco de motivação e alegria no nosso interior, para consumir quando as alegrias que vêm de fora nos abandonam...
    Mesmo porque o abandono é temporário: quando as amizades e amores não retornam, sempre surgem os novos...
    Beijo e um bom domingo para você, minha querida e inspirada cronista!

    ResponderExcluir
  5. Falar de ausências e saudades assim... só pra quem pode. E vc tá podendo faz tempo!!! Gostei do que Leonel sugere: "é bom guardar..." Eu me esqueço de fazer essa poupança para tempos invernais. Vou tentar ser mais formiga. Será que consigo?!
    Beijuuss amaaada

    ResponderExcluir
  6. Oi Mi

    É que a vida segue cursos, ou setas, que não não são as esperadas ou desejadas.
    Desimportante pode ser que se torne, mas, que nunca morra, como diria Ferreira Gullar em sua
    Cantiga para não morrer

    Quando você for se embora, me leve.
    Se acaso você não possa me carregar pela mão, me leve no coração.

    Se no coração não possa por acaso me levar, me leve no seu lembrar.
    E se aí também não possa por tanta coisa que leve já viva em seu pensamento,
    me leve no esquecimento.

    Beijos

    ResponderExcluir
  7. o importante dessa caminhada é os amigos que fazemos, e esses são inesquecíveis. Vc já marcou minha caminhada, arigó, minha cronista preferida. Bjos.

    ResponderExcluir
  8. Lindo blog!
    Isabela Assumpção - Busca pelo Invisível
    http://servisivel.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  9. Não gosto de trilhos, com seus sinais impositivos. Prefiro as trilhas. Nelas as setas sugerem...

    Beijos.

    ResponderExcluir
  10. Nossa, me pareceu triste esse seu texto!

    Eu espero que vc não esteja nessa vibe e se estiver se sacode aí e tenha uma daquelas insonias maravilhosas que só vc sabe ter hauhauauahauha

    Beijos!

    ResponderExcluir
  11. Acho que vc vai gostar do meu blog!
    http://servisivel.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  12. Milene,
    Estas questões - às vezes questiúnculas, outras grandes questões - fazem parte de nós, do nosso tempero inicial. E as suas, seja qual for o grau do adjectivo, têm sempre uma maneira muito própria de se manifestar. Que eu adoooroo!!

    Beijo :)

    ResponderExcluir
  13. Ah, Milene... o que li aqui foi o avesso, o outro lado de pessoas que conheci. Me policio constantemente para valorizar, amar, reconhecer e demonstrar tudo isso para quem está comigo. O avesso é que com o tempo os gestos, cotidianos, parecem tão naturais quanto o amanhecer diário... e essa ausência de atenção para com o carinho alheio vai doendo aos pouquinhos até a hora da partida. "Você deixa as pessoas muito seguras", diz minha mãe, "esse é o seu erro". Mas assim é o meu jeito de amar...
    Assim como sei que tens uma alma de linda sensibilidade e aprende um bocado todo dia... tenho certeza que ficará atenta em uma próxima oportunidade. E nem sempre o que se foi acabou... a vida pode trazer novamente os mesmos retratos em outras molduras, e essa é a hora de colocar o aprendizado em ação.
    Cuide bem desse seu coração... um abraço!

    PS: Pode levar meu texto para o Face se quiser, será uma honra.

    ResponderExcluir
  14. Essa estrada e todas as outras levam embora quem amamos, gosto não! Mas gostei muito do texto e da linda canção, música de qualidade.

    forte abraço e saudações alvinegras.

    c@urosa

    ResponderExcluir
  15. Oi Mi, vim te ver. Ando na correria, mas eis-me para ler-te, e que texto hein?
    São tantas as estradas e as direções, que nós precisamos dar paradas, descansar e adormecer para não desanimar. E eu sei que tu não desanimas.

    beijão de saudade

    Lu C.
    :)

    ResponderExcluir
  16. Passeei por aqui hj, e elegi este como um dos mais tocantes que "perdi" neste tempo que me arrastou ali, não muito longe...
    Esse teu sentir tocou-me, encontrou ressonância em meu pensar sobre este sentir... e confesso a saudade que se impôs quando o fusca me acenou!
    Beijos, moça querida, que meus outubros se assemelhem aos teus setembros!

    ResponderExcluir