sábado, 2 de novembro de 2013

NO PAÍS DO MEU AMIGO

O país do meu amigo está doente. Quer dizer, as pessoas no país do meu amigo estão adoecendo a sua própria terra. É de se ter maturidade e compreender que cada país tem seus problemas e tentam lidar com eles da forma mais conveniente possível.

Assim sendo, percebo que me faltará maturidade para esse entendimento até o meu último suspiro. Não compreendo as guerras. Jamais as compreenderei. O propósito maior desses encontros desamorosos é contar os cadáveres depois das batalhas e quem conseguiu derrubar o maior número de corpos é vencedor. É claro, jamais vi uma guerra de perto e me baseio para esse comentário infantil nos filmes sobre o tema.

Vão-se lá, atacam numa fingida justificativa de defender nem se sabe direito o quê e pronto, os poucos homens sobrevividos voltam para suas casas, quando lhes resta casas, de bandeira em punho inventando uma alegria desajeitada.

Mas na terra do meu amigo é diferente. O valente vingador dos filmes, defensor do povo, se contrapondo a toda espécie de desumanidade, não se sabe onde habita. Na terra do meu amigo o povo está acuado, esperando a guerra que dá sinais mais evidentes a cada dia e não há para onde correr.

O governo, que pela lógica das coisas era pra estar guardando o povo sob as suas asas protetoras, faz vista cega e ouvidos moucos. Quer garantir o seu lado, o poder, e só. Os justiceiros desenham um jeito torto de praticar a sua justiça. Atiram a esmo. Atacam inocentes. Sequestram. Lutam para tirar do poder um governo que não funciona, para assumirem então os comandos, de um país sem povo?

Nos filmes eles seriam os heróis. Nos filmes tudo acabaria bem, embora com sequelas e chagas a demorarem de cura.

E lá naquele prédio, na tal sala da justiça mundial, o que fazem os homens? Por que se calam? Decerto não haverá na terra do meu amigo, no sul da África, à beira do Oceano Índico, riqueza natural suficiente que justifique uma intromissãozinha dos donos do mundo. “Eles que lá o hajam com as suas picuinhas caseiras”, devem pensar.

Bendita vida real onde bandidos e mocinhos se misturam tudo numa coisa desarranjada só!




O melhor de Moçambique são os camponeses que embalam à pressa os seus haveres para fugirem das balas. O melhor de Moçambique são os que, mesmo não tendo dinheiro, pagam subornos para não serem incomodados por agentes da ordem cuja única autoridade nasce da arrogância.
(...)
Os melhores de Moçambique não precisam de grandes discursos para acreditarem numa pátria onde se possa viver sem medo, sem guerra, sem mentira e sem ódio. Precisam, sim, de acções claras que eliminem o crime e a corrupção. Porque a par deste galardão que distingue o melhor de Moçambique há um outro galardão, invisível mas permanente, que premeia o pior de Moçambique. Todos os dias, o pior de Moçambique é premiado pela impunidade, pela cumplicidade e pelo silêncio.

(Mia Couto)



Que fiquem bem, o meu amigo e toda a gente do seu país.


10 comentários:

  1. Obrigado pela solidariedade Milene.
    beijo

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  2. O poder corrompe, seja no Brasil, em Moçambique, em Portugal, na Ásia... Nesse aspecto - é melhor ficar por aqui - continuamos autênticos trogloditas.

    Beijo :)

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  3. É minha amiga! Se vc quer conhecer alguém... Dê-lhe poder!
    A coisa nesses países africanos ainda estão muito mais terríveis que aqui no Brasil, onde a desigualdade social já é enorme, imagine lá então!!

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  4. Poxa vida Mi! Que texto! O poder tem dessas coisas. ..
    Que triste realidade!

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  5. Grande denúncia!
    Nosso país está cada vez mais parecido com o de nossos irmãos!
    Bjs, Milene!




















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  6. Milene, não vejo sentido nenhum em guerras. Penso que sempre nascem da arrogância humana, do sentimento vão de superioridade sobre o outro. Lamentável, mais que vilões ou mocinhos, buscamos pessoas que amem umas às outras.. Um abraço!

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  7. O homem é uma experiência errada. Isso me basta para compreender essa merda toda. Bjos.

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  8. Lindo ato de solidariedade pra nosso amigo Tony. Realmente não fazemos ideia (por mais imaginação que tenhamos) da realidade cruel de uma guerra. Muiiiito triste!
    Beijuuss nocê Mi

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  9. Pois é, Milene, nunca chegarei a alcançar o sentido das guerras. Como é que o homem se presta a destruir seu semelhante apenas por orgulho e sede de poder? Se as guerras não trouxessem benefício para aqueles que a declaram haveria mais diálogo entre as nações e a possibilidade de paz no mundo. É profundamente lamentável e me solidarizo também com o seu amigo. Que haja luz nestas trevas!

    Beijo.

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  10. Só digo uma coisa, Milene, esse texto deveria ser publicado em um jornal de grande circulação. Primoroso! Guerra é um câncer e nunca fez sentido. Só fez desgraças. Uma postagem pra lá de pertinente. Bjs!

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