sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O MARCENEIRO


Mais de um mês havia se passado da partida do pai e ainda misturava suas lembranças recentes com as antigas, de quando era menino e todo dia abraçava a liberdade entre árvores daquele quintal.

Como se o tempo tivesse voltado naquele instante em que se mantinha prostrado na velha marcenaria e pudesse ouvir seu Nestor gritando pro menino lhe trazer um copo d’água misturada, porque gelada demais ele não gostava não. Descia ligeiro do pneu velho amarrado numa corda, pendurado na mangueira generosa, e corria a fim de atender ao pedido do pai. Era sujeito pacato o seu Nestor, de fala sossegada, mas de olhar firme que só. Não gostava que lhe fizessem desaforo, os meninos. Se dava uma ordem, tava dado e era pra ser cumprido no exato instante.

 “Você não é um homem de bem se não respeita quem a vivência é maior que a sua”. Não tinha noção de quantas vezes havia escutado essa frase. Foi bom aluno nesse ensinamento de respeitar os mais velhos e não discutir, mesmo quando achasse que não tinham razão, Tadeu, o menino.

A marcenaria desativada, onde permanecia imóvel enquanto suas lembranças iam de cá pra lá feito tivessem no balanço de pneu velho, era a menina dos olhos do Seu Nestor. Foi de lá que tirou o sustento da família e se não deu pra viver com luxo, pelo menos um bocado de comida nunca lhes faltou. A semana inteira era dedicada à fabricação de móveis simples, mas de tanto esmero no seu feitio que encantava. E na segunda feira lá ia o seu Nestor, com a sua caminhonete levando banquinhos, cadeiras, mesinhas e sonhos, pra vender na feira livre da cidade, onde todo mundo já sabia do seu trabalho cheio de minúcia.

Havia também as encomendas dos arredores, clientes antigos que traziam novas pessoas, que gostavam do estilo “antigo” dos móveis do seu Nestor. E assim ele seguia, na melodia das máquinas, só parando pra almoçar e uma merendinha aqui e acolá, sob os mimos de Dona Helena, cujo doce de mamão com coco não se sabia melhor no mundo.

O tempo fez entristecer o olhar de seu Nestor. Muitas lojas de móveis na cidade, as pessoas gostavam da praticidade dos novos estabelecimentos e se esqueciam da feira... E se esqueciam de Seu Nestor. O maquinário apresentava problema em tempo cada vez mais próximo e se a renda não era mais a mesma, não tinha como tirar comida do prato pra alimentar máquina nenhuma.

Os filhos, já crescidos e senhores de si, diziam pro pai que era sua hora de descansar e a eles caberia a missão de prover a casa. A um homem como seu Nestor, que não sabia ser senão um trabalhador de toda a vida era o mesmo que dizer “o senhor está velho e desnecessário”.

Minguou até acolher a doença, o seu Nestor. Engraçou-se do seu corpo um AVC feroz que lhe roubou os movimentos do lado direito e desse jeito, então, muito pior ficou para fazer as máquinas cumprirem o seu comando. Na marcenaria, onde moravam os seus sonhos, só aparecia quando empurrado na cadeira de rodas, que agora pretendia ser extensão do seu corpo semidormido. Vez ou outra cochichava ao ouvido de Tadeu, na sua fala embaralhada, que seria bom ficar uma meia horinha por lá, nem que fosse pra sentir o cheiro do pó de serra.

Nem o pó de serra, nem o cheiro. Por lá só havia lembranças. Tadeu sabia que o pai remoía supostos fracassos e isso o mortificava. Embora pouco pudesse fazer para amenizar a melancolia do seu velho, de todas as maneiras tentava mostrar a ele que jamais estaria sozinho.

Foram alguns anos de morte lenta. O corpo vagarosamente desistia até sucumbir de vez. Chorou-se a morte de um homem valente, que trabalhou vida e sonhos. Que lutou até o limite do improvável para não ser tragado pela modernidade gulosa, que engole os que não se adequam às suas urgências.

Ali, de pé em meio ao que o tempo não correu de maquinário, Tadeu relembra o pai com uma saudade bonita e orgulhosa. Chorou uma lágrima, suspirou intensamente e fez seus pés se moverem de onde pareciam aterrados. Precisava ir. Os novos donos esperavam na porteira da chácara, onde lhes entregaria as chaves.


A estrada ficando pra trás. A poeira embaçando a paisagem. No pensamento outro ensinamento do pai, que sempre dizia: “meu filho, há sempre um amanhã esperando pra mostrar um Sol mais brilhante”.


13 comentários:

  1. Conheci o velho Nestor, boa pessoa sim senhor
    beijo Milene

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  2. Nossa Srta, olha, aplausos pra você, que história linda, emocionante! abraços

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  3. Linda história , tocante e que nos faz bem ler! Exemplos, recados que ficam! Adorei! beijos,tudo de bom,chica

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  4. Quem trabalha a madeira com amor dá nova vida às árvores que já morreram. Este texto é madeira de lei e você é a marceneira.
    Beijos.

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  5. O amor de Deus é considerado o mair de todas as conquistas.
    por isso este é o amor de maior força em nosso coração.
    E através desse amor , que depositamos nossa fé e esperança
    em tudo ,que planejamos para nossas vidas.
    Como já é tradição minha a nove anos falar de fé , esperança e
    amor hoje não poderia ser diferente voltar sempre , que preciso me ausentar
    falando de amor , fé e esperança.
    Eu espero , que um dia o amor de Deus seja o maior dentro de todos os corações.
    Obrigada pelo seu carinho comigo, obrigada por saber , que existe um cantinho
    para mim no seu lindo coração.
    Que seu Domingo seja tremendamente lindo beijos,Evanir.

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  6. Conto lindo Milene. Meu avô era marceneiro e seus escritos me fizeram lembrar do lugar, até do cheiro, onde ficavam seus equipamentos. Chegou a perder dois dedos na serra de corte!
    O tempo vem, as doenças abatem, e o que resta da nossa história é isso mesmo, os sonhos que tivemos a coragem de perseguir. Um abraço!

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  7. Me emocionou esse texto, Milene. Triste mas tão bonito ao mesmo tempo. Seu Nestor é a representação de muita gente. Beijos.

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  8. Deixar o passado para trás e encarar o presente às vezes pode ser uma tarefa ingrata...
    Principalmente quando o passado é tão substancial em boas e melancólicas lembranças...
    Muito sentimento nesta crônica.
    Bjs, Milene!

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  9. Não é bom ficar olhando pra trás.
    Cadinho RoCo

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  10. Emocionante, Milene. É com histórias assim que somos moldados, alguns ultrapassados pela modernidade, outros indo adiante escrever sua própria história. Bjos.

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  11. Seu Nestor partiu, porém o seu belo legado ficou marcada na vida de quem permaneceu.

    Abraço.

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  12. Lágrimas...de uma delicadeza, sensibilidade que só mesmo uma alma como a sua pode escrever! Há um tanto de saudade nessa escrita/leitura. Há amor em cada linha. E eu daqui agradeço.
    Beijuuss minha Mi_nina DOCE

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  13. A vida de muitos terminou assim. Foram engolidos pelo progresso. Mas os exemplos de honra e de amor ficam para sempre. Um belo e sensivel conto. Bjs.

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