terça-feira, 10 de dezembro de 2013

DIÁRIO DE UM DIA, SORRIA.


“Sorria, você está sendo filmado”... Só faltou essa frase na parede para me dar as boas vindas na sala em que eu trabalho, que desde ontem conta com esse recurso tecnológico, necessário e infame que são as câmeras de segurança.

Quer filmar, filma. Mas exigir de mim que sorria e acene para as câmeras do Big Brother Educação, aí é demais para a minha fragmentada paciência. Estou odiando a sensação. Odiarei por muitas eternidades, eu acho. Eu carrego comigo, desde o mais longínquo ontem, uma vontade absurda de invisibilidade e a ideia de ser permanente vista não me apraz de jeito nenhum. Mas, sigamos o diário de um dia calorento, à base de limonada sem mísero rastro de açúcar.

Já era meio dia quando voltava pra casa, de carona com um dos meus cunhados, e ao abrir a porta do carro para descer, escuto uma voz dizendo “tchau Memem”... Era voz feminina e adolescente, que definitivamente não poderia ser do gentil condutor. Espiei, ligeira, pra trás e lá estavam Maria Clara e Isabella feito duas meliantezinhas na mala do carro, com suas caras mais lisas lançando um sorriso. O caminho da escola até em casa é curto, não se preocupem pessoas, elas não correram perigo. Mas, a adolescente e a pirralha sua irmã me pregaram uma peça e o pai foi conivente. Rimos os quatro e eu constatei que minha irmã pariu duas adoráveis e adoradas palhaças.

Ao atravessar, ou melhor, tentar atravessar a minha desilustre avenida, calculei pessimamente a distância entre os dois carros à direita e o tempo que eu levaria para alcançar a segurança da minha calçada. O carro preto, que passou no quebra-molas numa ligeireza desnecessária, sentiu-se seduzido a me beijar apaixonadamente. E lá vem o carro. E eu estaciono no meio da rua, num grito histérico, enquanto o carro da esquerda também se aproximava. No fim, me senti feito aquelas moças bonitonas, sem a parte da boniteza toda, que fica a bandeirar os grids de largada das corridas automobilística. Ah, faltou a bandeira também. E faltou empatia por parte do motorista do carro preto, que sobrou ao taxista do carro seguinte, parando para que a pessoa louca completasse o percurso sem beijo com cheiro de gasolina.

O dia seguia cabuloso e estranho. Não. Eu oferecia ao dia minha estranheza e parecia resistir bravamente para coisar diferente. Então mais tarde o meu Miguel veio. E quando ele vem eu fico leve. Ele vem cheio de sono e manha, e deita no meu ombro, quietinho. Mas parece saber que preciso daquele sorriso único e especial. Então Maria Clara, a malocada, canta a musiquinha preferida dele (Nesta Rua Tem Um Bosque), e ele ri numa alegria contagiante. É lindo. E logo chega a irmãzinha dele, a Lorena, pra coisa ficar melhor ainda.
Mas hoje, além de tudo, é dia pra se pensar um bocado de coisa bacana. Dos meus amores, há quem aniversarie nesta data querida e pra ela, minha cunhada-amiga-irmã, como ela própria definiu, citarei Cazuza ao dizer: “todo amor que há nessa vida pra você”.

Então agora fui ver Rodolfo lá no Sete Ramos. Rodolfo é pessoa que não dá pra tentar mensurar o que significa a existência dele. Eu teria que me transformar em palavras para uma obra inteira a fim de esmiuçar o tanto de carinho e generosidade mora nesse homem. Eu e a minha estranheza merecíamos um afago para o fim desse dia e por lá encontrei. No Sete Ramos há um poema, há tanto carinho e amizade, há Rodolfo dizendo lindezas para mim. Sinto saudades dos tempos que nos falávamos mais. O eme-esse-ene foi morto e carregou com ele alguns costumes de um cotidiano virtual que me faz falta, faz sim. Ler esse poema me remeteu a essa época onde compartilhávamos tanto, mas não me fez sentir mais amada por ele, porque sei que o elo de bem querer que criamos é pra sempre. Eu tenho um amigo que mora lá em Niterói e um dia qualquer, quem sabe, leremos poesia e tomaremos uma cerveja bem acomodados no seu parque aquático.
Pra câmera vigilante, sequer um aceno.

Pro Miguel, pra Marlene (cunhada), pro Rodolfo, um bocado de beijo, abraço, aperto, amor... tudo. 




13 comentários:

  1. Estive no Barcellos e li aqueles maravilhosos versos que lhe dedicou. A luz que lhe enviou deve ter feito com que se sentisse, merecidamente, querida. Que Deus a abençoe muito e lhe proporcione alegrias incontáveis, ainda que passe os dias sendo observada pela câmera. Grande beijo!

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  2. Milene, li os versos no recanto do Barcellos, coisa mais linda, e você merece. Há a opção de conversar pelo outlook, clicando no balãozinho à direita superior, ao lado da foto, como no tempo do MSN. #ficaadica.
    Até um tempo atrás eu acreditava que quando um dia começava mal, terminava mal, hahaha... hoje penso como tu. Não me rendo mais à dias em que as coisas parecem nublados. Lembremos que o sol pode surgir. Como Miguel e as meninas surgiram no seu dia sem gentilezas de motoristas afobados. Para esses o dia segue em eterno cinza.
    Um abraço!

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  3. Rodolfo é essa criatura adorável, um amigo pra sempre, com certeza!

    Tua travessia na rua movimentada me fez rir, e como sempre fico com a sensação de que vc chuleia os assuntos de tal forma, que no final, a prosa toda tá costurada e bem acabada!
    Bjos, escritora amiga... famosa em breve... :D

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  4. Adorei o texto, Milene! Apesar dos contratempos, que aqui acabaram ficando engraçados, foi um dia e tanto! Aliás, sobre a morte do MSN, eu tb sinto falta. Culpa do maldito do Facebook, que destruiu Orkut e MSN. Preferia os dois do que isso. bjs

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  5. Você é luzes e cores, solstícios e equinócios. Beijos.

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  6. Muiet, cuidado com esse motoristas assassinos. Vc merece todos os poemas. Um beijo enorme para a parentada.

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  7. Peripécias de Mi Lene! Hahahahahaa

    Vc apronta dia e noite. Adori esse seu jeito e atravesse na faixa da próxima vez! Hahahaha

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  8. Levo comigo as meninas aprontonas....e o sorriso rejuvenescedor
    e dengoso do Miguel.....vamos todos ler Rodolfo.

    Beij0

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  9. Oi Milene,
    Infelizmente não temos como fugir do olhar dessas discretas câmeras. Seja nas ruas, repartições públicas, local de trabalho e até mesmo nossos blogs, de certa forma, são monitorados. Se o povo tivesse mais acesso a educação e cultura, não haveria necessidade de toda essa forma de constrangimento. Desconsidere as câmeras, os motoristas e fique com as coisas boas.
    Abraço.

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  10. Milene!

    Eu desejo tudo de bom a voce, seus familiares e a todos nossos amigos presentes.

    Boas Festas, muita paz.

    Beijos

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  11. Oi Milene,

    Estive no Barcellos ontem e vi o soneto que ele lhe dedicou. Percebi, logo que comecei a ler, que o soneto remetia a você. Lindo este carinho de vocês, assim como adoráveis os versos dele..
    Sua crônica está uma delícia de ler. Não há como não sentir ternura e mais ternura diante das crianças em geral, mas as da família nos pegam de jeito. Amamos incondicionalmente e a simples presença delas já muda nosso astral.

    Natal feliz , amoroso e abençoado para você e família. Um 2014 recheado de surpresas maravilhosas.

    Ótimas festas. Celebremos a vida e o que há de melhor nela.

    Grata pelo carinho da companhia no decorrer do ano.

    Beijão.

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  12. Pois é, tb sinto saudades intensas daqueles tempos de msn e minha ignorância total em manuseá-lo sendo sempre socorrida por vc, Dê, Si,Bruxo e cia ltda. Ah quantas janelas abertas, eu conversando sozinha rsrs no aguardo... e ficava euzinha dependurada nelas quiném as namoradeiras daqui...saudades de muitos e amor pra poucos.... simplesmente sôdades!
    Beijuuss minha Mi_nina

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  13. Ô Mi!
    Fica tranquila, com o tempo tu esquece as camerazinhas e a vida segue do mesmo jeito.
    E quanta criança bem amada tem nessa família, hein?? *-*

    Bjus

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