segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ADORMECERAM OS SONHOS




Encontrei por aí um menino que escreve numa boniteza só, 
e levei-o pro Relicário... Vai lá?


Ontem foi verdadeiramente um dia a causar estranheza. Era coisa que se via nos filmes e de repente um cisco de fogo transformou em caos e dor em dosagens cruéis de realidade. Lamento. Choro. Sono eterno de tantos jovens que apenas começavam a descobrir seus caminhos. Num breve amanhã isso será apenas manchete de TV e internet. Num breve tempo os alvarás continuarão a ser detalhes insignificantes e os seguranças ganharão o ônus de vilões quando provavelmente só estarão cumprindo ordens, embora isso não minimize os seus feitos. E assim a vida caminha estranha, trôpega, interesseira, até que um próximo acidente por culpa de quem nem se sabe, adormeça para sempre outros sonhos.

A presidente (enta-enta-enta) imediatamente desembarcou em Santa Maria. Mas, pra fazer o que mesmo? Tipo ser voluntária? Abraçar as mais de duzentas e trinta famílias? Prometer que de ontem por diante todas as bodegas desse Brasil sem porteira e sem vigia, as fiscalizações serão levadas à risca? Poupem-me de toda a hipocrisia que há no mundo. A pohha da lei é feita pra ser cumprida mas aqui nessa terra de ninguém isso não funciona. Por que os caras vão lá e pagam um negocinho em tudo que é canto pra se minimizar a burocracia. E tudo fica a contento de quem só quer lucrar. E quem vai pra se divertir pouco-se-me-dá-pouco-se-me-deu com besteira de licença pra isso e aquilo, porque tudo estará sempre sob controle, até que se descontrole irremediavelmente.

Eu quero mudar o rumo dessa prosa. Bora? Falemos de amenidades, porque de bestialidade o mundão está transbordando. Hoje eu provoquei em mim uma absurda inquietação reflexiva, a ser capaz de revirar Sócrates, Platão, Aristóteles e mais duas dúzias de gregos sabidos que só, lá do seus túmulos filosofeiros revirarem todas as poerinhas. Por que legumes não podem ser verduras e também o avesso? Vivi quarenta e três anos, eu e o meu olhar, e nunquinha consegui diferenciar porque um não é o outro e o outro não é o um. Então hoje na escola, elaborando uma lista da merenda escolar, me veio esse desassossego. Existe um primo pobre e um primo rico no reino nas hortaliças? Se a resposta positiva, com se pode exigir igualdade social nesse mundo se até a ervilha se acha superior ao repolho?

Também hoje no trabalho eu achei bonitinho uma senhora que foi fazer a matrícula de duas das suas crias e disse que “não é fácil não dar conta de DEZ filhos”... É claro que eu a fitei, pasma, e quase perguntava se ela conhecia uma invenção chamada televisão. Ela disse que não operou antes dessa enxurrada de filhos porque não tinha dinheiro e o SUS só tomou conta quando viu que poderiam vir outros tantos. “Mas eu não me arrependo não, criei tudo direitinho, nenhum deles bebe nem fuma”... Pois é, pois é. Eis que a vida produz gente de verdade, que apesar de toda a luta, toma conta da vida reservada pra si.

Afora isso, outra moça timidamente voltou poucos minutos depois de levar um histórico, perguntando quem era aquele pai que eu arrumei pra filha dela. Eu pedi desculpas pelo equívoco de não ter apagado completamente o que constava no histórico anterior antes de fazer um novo e falei pro marido, que estava ao lado, para que não se preocupasse, pois depois de um confiabilíssimo exame de DNA de notas,cargas horárias e afins, ficou comprovado que ele era realmente o pai. Todos caíram na gargalhada e pronto, acabou-se a mínima possibilidade de me pegar na hora da saída. Esse meu jeito de simpática é pura estratégia para não levar umas mãozadas da clientela escolar, pessoas. Mas, algumas vezes eu deixo a cara de pau em casa, vos garanto... Ou não.

É o que temos pra hoje. Até breve. Seja leve. Releve. Abrace...


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

NO CLARO DO ESCURO DA NOITE




Pela fresta da porta entreaberta ela percebe a presença do vento como mensageiro da noite, misteriosa e sedutora.  Sai sem espiar o que nem vê, deixa pra trás o abajur de luz trôpega sobre o velho aparador, único móvel dos tempos em que ainda havia frescor e vivacidade naquela sala.  Como aceitação imediata do convite da noite, lança ao chão a taça que há poucos segundos guardava últimos goles do tinto bebido enquanto os pedaços do tempo passavam sem decidir direito o que fazer com ela. Eufórica, sequer se lembra de desligar a vitrola também postada ao chão do cômodo quase vazio. Era Baleiro cantando “calma, alma minha, calminha, não é hora de partir”...  Mas a ideia de partir era justamente o que lhe consumia de vontades naquele instante. Pouco sabia o que lhe reservava a noite, somente tinha a instável certeza de queria ir, apenas ir. E seus passos a guiariam para o desconhecido e talvez fosse bom. E seriam companhias o céu de estrelas alegres, uma lua inteira a lhe sorrir cumplicidade e a matilha de cães vadios, seus guardiões pelos becos e ruas que habitavam na noite. E o vento! Também o vento era sua companhia e a rodeava, afoito, brincalhão, dançarino. Ela dançava pelos becos enluarados da noite, enquanto a matilha de cães latia feito fizesse coro na outra música do Baleiro, que talvez naquele instante ainda cantasse na vitrola sobre o assoalho, dizendo “só a noite é que sabe que a vida não tem jeito, que pro escuro de um poema qualquer ganido é bom pretexto”...


domingo, 20 de janeiro de 2013

DO QUASE NADA



IMAGEM? NEM DESCONFIO DE QUEM SEJA...
SÓ QUERO POESIA PRO MEU DIA

“Escreva sobre o cotidiano, você faz isso muito bem”, é o que sempre me dizem. Pois então, bora lá! A primeira coisa que devo dizer sobre esse fulano tão íntimo da minha pessoa é que ele está muito quente. E muito caro. E meio morno, além de quente. E eu não estou louca, só um pouco, só o normal sob o ponto de vista de que carrego uma insanidade estável.  Quer dizer, lendo assim, devo estar um pouco mais deslúcida, translúcida, enfim. Esmiuçaremos a normal maluquez e o cotidiano.

Sobre a carestia: esses dias fui à loja de material de construção onde meu irmão trabalha, linda, fofa e me achando rica, a fim de comprar os negocinhos para revestimento e enfeite do meu banheiro novinho em concreto. Escolhe daqui, pechincha de lá, depois de tudo acertado eu quase tive um passamento dessa pra melhor (?) quando vi o orçamento. Cruz-credo-aleluia três vezes! Mas é só um banheiro, um lugar onde se faz o número um, o número dois e o número três, segundo teoria da minha pequena filha alheia, Isabella. Ela falou isso quando estava bem sentada no trono do cotidiano e gritou para minha irmã: “Mãe, vem me limpar que eu já fiz o número um, número dois e o número três”! Minha irmã questionou o tal terceiro item e ela prontamente respondeu: “É pum, né?!”... Ai, meu Deus. Ela é uma criança educadinha, só não é desse planeta, relevem, por favor.

Sobre a quentura: os deuses do calor devem ter se reunido numa oval e imensa nuvem e debatido: onde vamos morar dicunforça nesse verão? Aí o mais engraçadinho sugeriu: vamos “botar pocando” em Arapiraca, lá no agreste das Alagoas? Um dos mais maleáveis tentou argumentar que por aqui não havia praia, sequer um riozinho capenga para aliviar o incêndio corporal da população, mas não houve acordo. Os cabras calorosos vieram e daqui não saem, daqui ninguém os tira. O cotidiano por esses lados anda se derretendo, e nem é de amor.

Não sei mais o que falar desse domingão de puro calor. Pensei em me revoltar com as imagens da TV, onde se mostra idosos sendo espancados e agora a lei deu pra arrumar brecha pra defender os sacripantas. Segundo a legislação brasileira, confiável que só, há diferença entre tortura e maus tratos e muita gente ruim está escapando só com arranhõezinhos legais depois de terem judiado física e psicologicamente de quem lhes foi confiado o cuidado. Digo nada sobre isso não. Digo nem que desejaria Lampião de peixeira em punho tendo um dedo de prosa com esses covardes. Digo não.

Eu quero uma semana doce, leve, sorridente. Pode ser? Semana passada carreguei uns fardos nas costas, pesados que só! Ser grande é isso, ser grande tem vezes de ser chato e eu, feito suplica a Adélia Prado no seu poema, queria ter cinco anos (que nem a Isabella).

Me disseram assim, numa indagação reflexiva, depois que afirmei cheia de pose, estar impermeabilizada  em relação ao tal do amor: “E se o coração fosse obediente e se ouvisse cada conselho que sussurrássemos baixinho ao seu pé do ouvido? O que seria loucura, da paixão? Teríamos corações mudos e sem nenhuma opinião. Mas, deixa ele sofrer. Mesmo assim não aprenderá. Por que ele mora numa casa na qual as paredes vive tentando derrubar.”

Ah, eu não sei não. Meu diálogo com esse moço derrubador das próprias paredes é pouco, é nenhum. Por que ele grita, eu ensurdeço. Eu suplico, ele fica mudo. Eu corro pra alcançar o amor que ele fabrica, ele corre mais ligeiro. Mas é verdade, melhor deixá-lo penar um pouco. Coração obediente é coração dormente... e morno.

Já vou, já vou. Aonde? Sei lá... Tá calor. Se abrir a porta, se a noite chamar, eu vou por aí, vou por aí... Até a noite dormir. Beijo!


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

RÉ CONFESSA



Eu sou do povo, sou uma Maria Ninguém, sem miolos, sem cultura, sem lenço, mas tenho documento. Sou sem paciência pra frescura. Sou sem fone de ouvidos porque parti o meu ao meio na sutil intenção de dar uma esticadinha no fio. Sou quem odeia caldo de cana e ama café com um pingo de leite. Sou quem vê o BBB, jamais leu Nitzsche e não consegue se sentir culpada por isso. Sou quem conjuga despudoradamente o verbo dormir, mas antes, espera a madrugada se espalhar. Sou das que adorariam obrigar as moças do telemarketing a desconjugarem o gerúndio do mundo. Sou grito inverso, riso espalhado, choro sem hora. Sou quem desdenha dos pretensos donos de Deus, mas O espia de longe, enternecida. Sou, de alma, bailarina de todas as danças, fazendo moucos ouvidos para o óbvio quando me disse: não dance! Sou quem ama o mar e se deixa fascinar pela coreografia do fogo. Sou quem queria morar num abraço, odeia ser beliscada e ama cantar “fui morar numa casinha, nha, nha” pro bebê Daniel, sublimando de amor quando ele abre o maior sorrisão. Sou a que boicota a própria saúde, escapando feito o ladrão mais liso, de todas as dietas. Sou quem adoraria beijar os pés do inventor da fórmula perfeita chamada coca-cola. Sou boa moça, maloqueira, conversadeira, arengueira que só! Sou a que faz uma grosseria, no instante seguinte padece de remorso e nem sempre tem humildade de sorrir desculpas. Sou quem mastiga devaneios tolos e tropeça na relação com a vida real. Sou quem descaradamente acha ser a musa virtual do Djavan. Sou quem esbagaça as canções do Coldplay sem saber mísera letra em inglês. Sou samba e rock and roll, tango e baião. Sou prima-irmã do cotidiano, amante incondicional do que está por vir, personagem apaixonada pela vida como ela é: doce, bruta, indecifrável. Sou quem tem coração alvinegro do escudo mais lindo do mundo e acha que Garrincha fez uma vida inteira de poesia em pernas tortas. Sou de cá, do agreste quase-sertão, sou de lá, da fome por conhecer o mundo. Sou quem não sabe lidar com ausências, quem devora com gula a presença. Sou amor imenso, nem sempre lúcido, mas sempre amor. Sou raio, estrela e luar, seu iaiá, seu ioiô. Sou! 


sábado, 12 de janeiro de 2013

CAMINHAR É LONGE




Tem vezes do amanhã demorar mais do que o tempo que a gente desenhou no pensamento. O fim do caminho é lá aonde nem se enxerga, aí dá uma preguiça de continuar a andar porque a estrada parece seguir numa ligeireza maior do que a largura dos passos. O Sol toma conta do céu inteiro e nem pede licença de chegar e derreter a coragem da gente. Por que caminhar é longe, tem horas de se querer é sentar num cantinho de sombra, esperando pra ver se do céu cai uns pingos de chuva verdinhos de esperança. Por que só esperar é morrer um pouquinho a cada minuto de sombra e inércia. Por que o caminho já vai lá na frente, é preciso levantar e seguir viagem. O céu, satisfeito, sorri e diz que esperançar se faz caminhando...


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

DAQUI A POUCO JÁ É AMANHÃ


ROUBEI SIM! ME PRENDA LOGO, ENTÃO...


“Tem dias que de noite é assim”, diz Seu Luís, o meu velho, meu querido velho, quando as coisas não caminhavam de um jeito muito proveitoso. O que no início do dia era uma imensa flor de esperança, aos pouquinhos vai murchando e termina meio sem graça, desmotivada que só!

Lá no hospital hoje não era dia de ver o Doctor Gui. Que pena! Ficaria sem ver aquele sorriso tão lindo e firme cumprimento de mão, acompanhado de um “diga lá, estrela de última potência”. Sim, eu sei, ele diz isso pra todas, mas eu fingia ser um dizer galanteador e a vontade era sorrir e derramar: “ai, doutor, estou tão carente hoje, me abraça?”.

Definitivamente não seria uma boa ideia... Ou seria? O fato é que com ou sem Doctor Gui, despencaram do cume da minha montanha de otimismo as minhas expectativas neste dia. A vitamina B12 insiste em não me amar e isso impede a minha cirurgia. Chatice desvitaminada, pessoas! Eu não sei o que fiz pra ela, ou deixei de fazer (comer) pra ficar tão ausente do meu corpinho descompensado. Aí fica nesse marca-desmarca, rasga-não-rasga e o tempo passando... E armazenando um tonel de preguiça da situação.

Desistir? Nunquinha (sem tanta ênfase assim)! Vou esperar porque um dia floresce tudo de novo. E eu sou uma pessoa preguiçosa, mas num imenso grau de exagero, que tenho preguiça até de ficar triste por muito tempo. Ou sem esperança. Ou eu finjo ter esperança... Sei lá, viu? Quem souber favor me avisar.

E o papo com a doutora destruidora das minhas ilusões vitaminadas foi bacaninha que só. O jaleco e ela me olharam nos olhos e sorriram comigo. Ela até deu dicas supimpas pra minha irmã, que nem cirurgia vai fazer. Ela até reforçou aquele papo universal e atemporal sobre as diferenças do nosso metabolismo e a dos viventes usuários de cuecas. “A estrutura do nosso corpo é mesmo para armazenar gordura, precisamos disso para procriar. Nos homens é a força que prevalece. A natureza fez assim”... Pow, natureza, precisava exigir tanto de nós meninas? Eu troco a minha (enorme) parte em gordura e instinto paridor por um pouco apenas de sossego nas metamorfoses da vida feminina. Tudo cheio de conflito e exigência de autoconhecimento.  Gota serena! Às vezes fico cheia de tanto papo com o meu eu interior, o exterior...  Migrante e imigrante de mim. Oh, vida!

Depois da consulta desanimadora, fomos comprar quase nada no shopping, antes de pegarmos o caminho da roça. Meu cunhado me perguntava os caminhos a seguir e eu toda prosa, indicava. “É essa a entrada, Milene?”... Sim, vai na fé. Literalmente ele foi na fé, pois a entrada a confundir qualquer cidadão dava pra uma igrejona do Bispo lá da Record. Não dava pra recuar, foi preciso fazer o retorno por dentro do estacionamento do prédio suntuoso, aonde se encontravam alguns moços endinheirados da referida facção religiosa, que acenavam enlouquecidos para que parássemos nesse ou aquele local. O fato ao menos serviu pra provar que riso descontrolado não enfarta, senão não restaria um vivente naquele carro pra contar história. Não duvide da minha capacidade de navegadora, tenho lá culpa se o prédio onde Deus deveria se hospedar seja tão grandão?

Depois de enfim entrar no canto certo, depois de comprar besteirices, fomos procurar um canto para matar quem nos assolava, a fome. Lugar bacaninha, comida idem, Sam, idem. E lá se foi Cicinha ao banheiro... masculino! Haviam duas portas muito arrumadinhas, uma rosa e outra azul, frente à frente. A moça consumida pelo desejo de fazer xixi, entrou na primeira porta a ser vista pelos seus olhos verdes e só percebeu que era o banheiro dos meninos quando espiou a porta pelo lado de dentro, aonde moçoilas bundudas, seminuas faziam caras e dedos na boca. Comprovamos mais uma vez que a expressão “morrer de rir” é mero sentido figurado e ainda pudemos conferir pelo lado de dentro, a porta do banheiro feminino. Lindeza, pessoas, lindeza! Uns moços seminus, bonitos que só!

E na volta, já perto de casa, paramos na roça cibernética, onde curte férias a minha Cidoca prima, para nos deixarmos beijar pelo vento, devorar deliciosos abacaxis e uma cocadinha que de tão boa eu fiquei querendo mais. Abracei a tia dos olhos miúdos e amorosos, resenhei com os primos (quem sabe o que significa “resenhar” no nordestinês levante a mão sabida), até a tarde ameaçar despedida.

Quando minha irmã Gisele me deixou em casa e já ia embora, me falou na sua certeza de amor: “É pra ficar triste não, viu? Tudo vai dar certo”... Fico só hoje, mas daqui a pouco já é amanhã.

Né?


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

OS PÉS DE ILUSÃO

ROUBADA DO FACE DA SÔNIA


Sou fruto das ilusões cultivadas no meu próprio quintal. Eu as permito fincarem raízes rasas e me dizerem mentiras bonitas por algumas noites enluaradas. Mantemos uma estranha relação de cumplicidade, a ilusão e eu, embora eu conheça a fundo a sua vileza. E por conhecê-la eu não a impeço de chegar. Até danço pelas ruas as suas músicas. Até leio aos passarinhos os seus poemas. Ela sequer desconfia que eu a deixei vingar no meu mundo por puro interesse. Ela me guia quando quero aliar brancura e vermelhidão, mansidão e fúria. Escava em volta dos meus pés fincados no chão e os provoca ansiedade por tocarem o céu.  Ela me pede total devoção e eu, num espasmo de incrível lucidez, arranco-a pela raiz sem nenhuma piedade e ela, volúvel, brotará ilusão em outro quintal.







domingo, 6 de janeiro de 2013

MORTE AO BBB... SÓ QUE NÃO



Mal o ano começa a caminhada e os assuntos relevantíssimos já apontam. Para observação dos tais temas, basta atentar para o que diz a TV e internet. E o que dizia a TV mesmo antes do ano partir dessa para melhor? BBB... Sim, meus caros, Big Brother Brasil-il-il-il... E o país mais uma vez se divide entre os devoradores de livro e os incultos que se prestam a dar audiência a um programa tão baixo nível. Gente, vocês vão fazer o que comigo que fico lá dando uma espiadinha? Vão me lançar abandonada num porão à mercê dos ratos, baratas e escorpiões malvados? Façam isso não, sou pessoa frágil.

Juro que não consigo entender essa comoção raivosa e repetitiva acerca da desimportante atração televisiva. É apenas isso na minha concepção sem nenhuma garantia de valia: um programa ruim entre tantos outros exibidos diariamente. Mudar de canal ou desligar a TV são soluções que ainda funcionam. E bora parar com essa chatice de que “a cada vez que você assiste o BBB, um livro se suicida”. Os livros estão pouco se importando com essas mesquinharias e a sua generosidade diz que quando se precisa deles, se abrem em verbos e viagens para quem quiser. Essa coisa de “ditadura da cultura” é um pouco chata.

Como seria bacana se toda mudança necessária pra esse país criar jeito de decência acontecesse pela simples extinção do famigerado programa. Tudo resolvido num click, que massa! E nunca mais políticos com eleição vitalícia, aqueles que são uns canalhas, mas levam dinheiro pro seu estado, se tornando assim um mal necessário, afinal é melhor que ele leve pro próprio estado, do que o outro canalha ser mais esperto; e nunca mais cachoeirices e bandalheiras praticamente institucionalizadas; e nunca mais alunos alheios ao ano letivo inteiro em virtude de reformas mal arranjadas; e nunca mais desabamentos e mortes por causa das chuvas, porque se não há mais cachoeirices e múmias eleitas, o dinheiro público se empregaria nos lugares devidos.

E nunca mais escritoras renomadas, acima do bem e do mal verbal, comentariam das limitações alheias com tanto desdém e arrogância. Filha de uma égua é essa Lya Luft, a quem a minha preguiça de leitura me presenteou apenas com o conhecimento dos seus textos fragmentados e agora estou tentando um jeito de “desler” tudinho. Ela é do time dos defensores do “cada um no seu quadrado, ado, ado, ado”. Criança com defeito não pode se misturar com as normais, foi bem assim o meu entendimento das suas palavras absurdamente preconceituosas. Quero falar mais nisso não, porque me causou uma irritação duzinferno. Querendo, leia nesse canto.

Chega de assunto chato porque minhas mãos estressadas andam mais intolerantes que a Lya Luft. E se você resolver me deixar de quarentena no porão escuro, só por causa de uma insignificante espiadinha, não me deixe como companhia livros dessa senhora escritora com nome de remédio pra prisão de ventre, por misericórdia.

Vou por aí a procurar o que me reserva o domingão vespertino. Certeza de encontrar um vento bom que só, na calçada da casa da minha mãe e por lá deixar correrem as horas até que o tempo encontre a sua sexta noite desse ano. E para findar o escrivinhamento, um poema leve de imensa verdade,  a mim mostrado pelo Moisés, o Poeta, nas falas da madrugada. Diz assim Shakespeare:

“Você diz que ama a chuva, mas abre seu guarda-chuva quando chove
você diz que ama o sol, mas procura a sombra quando o sol brilha.
você diz que ama o vento, mas fecha as janelas quando o vento sopra.

É por isso que eu tenho medo,
você também diz que me ama...”

Intés!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O MAR, AS MÃOS E OS NEGOCINHOS



Bora começar? Chegou ano novinho em sonhos pra todo mundo. Tudo apenas começando, três diazinhos de estrada rodada, ainda. Nem dá pra se sentir coberto da poeira...

Pois bem. Fui pra perto do mar me despedir de dois mil e doze, dizendo assim: “já vai? Tá cedo” ... como a gente fala quando a visita que nem é tão chata, nem tão interessante, diz que é hora de dar tchau. Fiz muita festa com ele não, deixei-o partir sem maiores saudades. Lá pela meia noite eu me vi um ser emotivo, compartilhei meia lágrima com minha mãe, diante do espanto da espoleta Marina, que dizia: “não entendo porque vocês choram só porque o ano acabou”... Tanta coisa ela não entende no auge dos seus nove anos. Tanta coisa eu não entendo nos meus mais que quatro vezes nove. Seguimos assim, desentendendo, vivendo, porque é preciso e é bom. Foram dias lindos e alegres. Cheios de cor e vida, gentes e amor. O mar é massa. Amar é mais massa ainda.

Na volta, começar a cuidar dos pormenores da vida real já se fazia urgente. Que o tempo não para é clichê dos mais certos, então lá fui eu levar minha pele cheia de estranhezas para o dermatologista. Não há muito o que se fazer numa sala de espera de um hospital a não ser especular, refletir acerca do tudo que tolamente pensamos conhecer. Me distraí observando a escada em espiral, prateada, em motivos copiados do coliseu de Roma e as pessoas a desfilarem com seus jalecos brancos a lhes darem superpoderes. Ao menos é o que parece. Os mediquinhos (os mais novos) são de uma arrogância bem considerável. Não compreendo alguém transitar num local onde outros estão, ainda que sejam pobres mortais sem jaleco, e não lhes dirigir um simples cumprimento com a cabeça. Eu os provoco, eu os encaro para ver até onde vai a soberba do diploma recém conquistado.

No consultório, o dermadoutor que nem jaleco usava, simpaticamente me perguntou: “então, Milene, o que temos?”... Eu quis dizer pra ele aquilo do “se eu contar minha história pro carroceiro, até a burra chora”, mas preferi poupar o moço dessa bizarrice. Então fui devagarzinho explanando um sinal inflamado dali, a minha carequice (que só eu vejo) acolá, e os infames negocinhos que se alojaram entre os polegares e os indicadores das minhas DUAS mãozinhas fofas e meigas. Diagnóstico: “o sinal, possivelmente você coçou dormindo,ou passou o pente... Extrairemos se não desinflamar. A carequice, não há nenhum indício, você anda imaginando coisas”. Tá, ele quis dizer que sou louca, eu compreendi, embora tivesse feito cara de paisagem. Então esperei pelo diagnóstico dos negocinhos, que afinal foram a motivação maior da minha ida ao hospital com maior cheiro de hospital que já senti na vida. Ele pergunta: “você é estressada?”... Oi? “Isso aqui não é outra coisa a não ser sinais de estresse ou de alergia respiratória”. Sério, desentendo dessas modernidades. Sou do tempo em que crise alérgica se desenvolvia com o sujeito espirrando sem parar, com o narigão entupido, lascado da silva... E isso de tudo que se alojar no corpo e na alma da gente, vivente, doente, ser culpa do tal estresse tá ficando chato. Bora arrumar outra cantiga?

Mas tudo isso tem lá o seu charme. Qual dos senhores leitores possui duas mãos com pedaços em relevinho estressado e espirrante? Nenhum, nenhum! Mas, se quiserem, eu envio pelos Correios essa exclusividade toda pra vocês, é só acenarem.

Eu vou lá, porque o tempo levanta poeira.  Ah, e a música, ela está porque é linda. Simples bem assim.  Eu bem gosto de dividir belezura musical e negocinho estressado com vocês.

Intés!





Quando eu penso o peito cala
no silêncio a me lembrar
de um velho tempo que pra mim não passou...