quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

UM BOCADO DE VAZIO


Um bocado de vazio
salta no peito da gente
um bocado de palavra
dizendo coisa nenhuma
ecoa dentro da gente
num grito surdo, demente
roendo o resto do sonho
que era de matar a fome
gastou-se, o que é da gente?




Mais cedo eu comecei a rabiscar digitação e saiu esse negócio aí em cima. Parece um grito incontido de dor. Parece sei mais o quê. Não é lá muita coisa não. É que às vezes de vazio eu entendo. De tristeza e angústia eu ensaio. Mas não deixo “que fiquem, que pensem, que falem”... É mais ou menos o tempo de uns pernoites e pronto, é hora de dar tchau.

Por que ser triste demais é coisa de dar trabalho. Suplica tempo pra alma ficar quieta, ensimesmada, lacrimejando por qualquer mínima ausência do vento. Por que angustiar é coisa que dói, fere o peito numa profundidade que a mão da gente não alcança pra fazer um afago e fingir bálsamo.

Mas tem vezes de aparecer um vazio gigante, uma falta que a gente sente de algo que nem viveu ainda. Uma incompletude, sabe? E é de precisar um passo mais ligeiro em direção a um caminho qualquer. Falta uma bocarra escancarada pra abocanhar um pedaço significativo desse negócio estranho e fascinante chamado vida. Falta ir... Então, enquanto eu não vou, a vida caminha sem pressa, mas ela não é de se sentar pelo caminho a espera de vivente nenhum.

É que inquietude demais desnorteia e às vezes só se quer permissão pra sentir a leveza das coisas. Mas, daqui a pouco, eu sei, é festa cá dentro do meu peito e o vazio se preenche feito mágica da sublime arte de existir. O meu bocado de sonho fará o caminho de volta e me adormecerá por várias meninas luas.  Afinal, como bem falou o guri Léo Santos no Relicário, “é que a gente quer saber o que é ser feliz”... Pois é!


domingo, 24 de fevereiro de 2013

UM COICE NA PACIÊNCIA


Definitivamente não dá! Eu bem tentei acabar o domingo em paz com a vida e o que ela me traz, como canta Roberto, o Rei... mas não deu. Inventei de não ouvir música e liguei a minha humilde TV de antena quebrada que crio no quarto, a fim de conferir as notícias do Fantástico, o Show da Vida.

Como diria minha amiga e cúmplice, Simone: “caraca, Mané”! Se isso é o show da vida, a gente tá bem ruim de espetáculo, viu? Foi uma chatice em cima da outra, me dá sono só em lembrar, mas como sei que vocês tinham coisa melhor pra fazer no fim de domingo e não tiveram o desprazer de degustar essa bagaceira, eu vos direi, generosa e sádica que sou.

Bora lá. Houve a apresentação do menor supostamente responsável por lançar o negócio que matou o garoto no jogo na Bolívia. O mocinho assumiu a culpa e disse que foi o único responsável por todo o processo. Comprou o produto, carregou na sua mochila e os moços educados, pacíficos e maiores de idade da sua torcida organizada nada sabiam. Eu acredito nessa versão, vocês não? Aliás, vou falar pro coelhinho da Páscoa que quero também ovos de chocolate branco. Não gosto de tudo uma coisa só.

Aquela moça do cabelão liso e loiro, repórter que só aparece quando algo ruim acontece lá na Europa, surgiu hoje toda lacrimosa falando do afastamento do Bento, quase ex-papa. Pensei: “Essa mulher está falando nessa sentimentalidade toda porque o galego morreu? Onde andei que estou tão desinformada?” Quando estava quase lacrimando feito ela, percebi que o chororô era apenas pela sua demissão do cargo de religioso mor do planeta. Deixem o homem!

Na parte do Doutor Dráuzio Varela eu não posso contar tudo porque corri pra ligar meus fones de ouvido e topar o volume ligeiro. O que tenho eu a ver com o fato do sujeito desbotar a mão por lavar setecentas vezes? O Doutor do Carandiru é simpatiquinho, eu gosto, mas tem horas de ser o próprio remedinho de fazer sono.

De insuperável bizarrice foi a matéria sobre o hambúrguer feito de carne de cavalo. Não há muito o que ser dito diante de tamanha falta de assunto. O sujeito ainda foi às ruas fazer as pessoas provarem a iguaria, tentando adivinhar qual era o bovino ou o equino. Faltou-lhe um belo coice de cavalo vivo bem no meio das fuças e um sonoro “vá se lascar” da população.

Domingo que vem vou me lembrar do Rappa cantando “mas não me deixe sentar na poltrona num dia de domingo” e procurarei coisa melhor pra fazer. Em qual instante me dirão “desligue a TV e vá ler um livro”? Digam. Talvez eu vá... ou não. 

Estou com sono. Vou dormir porque Doutor Dráuzio certamente aconselharia. Antes ouvirei outra vez essa canção. Nada tem a ver com as besteirices escritas. Tudo tem a ver com quem as escreveu. Sim... ou não.

Beijos... E poupem-se dos hambúrgers por uns dias. Os pobres cavalinhos são tão bacaninhas galopando com folgados em suas garupas, pra cá e pra lá, não merecem tal crueldade.





sábado, 23 de fevereiro de 2013

DO BOM FINGIMENTO




A gente é bom fingidor, diz pro amor que se ele não vem, tanto faz. A gente mente pra gente quando desdenha da aparição do amor. Por que quando ele vem, é bom. Por que quando ele vem, é feito tudo se fizesse claridade dentro e ao redor da gente. O amor tem disso, é poderoso que só! Ele abre a porta do sonho e diz pra não se ter medo, porque ele é forte e protetor. Então a gente vai e ama... Ou inventa esse estado de amar que vem nos sonhos. E por um tempo de brevidade ou estendido, a gente se percebe um pedaço grande do amor e acha que o amor nunca será o mesmo sem a gente. E ele nunca será sujeito abandonador. E ele rejeitará a efemeridade pelo prazer da companhia. Por que o olho de quem ama faz a boniteza do amor. E tem vezes do olho vê uma boniteza que nem existe, só pra deixar contente o coração, que é quem abre a porta da alma pro amor fazer morada. É tempo de festa quando ele está em casa. É tempo insólito quando ele vai embora. A gente mistura o que era com o inventado e desarruma a casa da alma. A gente fica bravo pela bagunça e pensa que era coisa diferente disfarçada de amor, que fingiu aparição e bateu a porta quando cansou de brincar. A gente nem sente, mas ainda espera, ansioso, que outro arremedo de amor escolha a casa da alma da gente pra fingir morada por mais uma incerteza de tempo...







terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

POIS, ENTÃO!



Não atentem para o título, quer dizer coisa alguma. Na verdade é bom desatentar para quaisquer palavras lançadas a esmo nessa folha borocoxô. A primeira sensação ao abrir os olhos da mente hoje pela manhã foi a de que uma dor de cabeça resolvera me acompanhar. Eu penso que se uma dor de cabeça decide ser o seu presente assim logo cedo, é por que há nela um tanto de sentimento em relação a você. Talvez eu deva me sentir privilegiada, então, por ter sido contemplada com essa inusitada aparição de amor? Fiz até versinhos rimados pra ela.

Mas, qual a relevância de uma reles dor de cabeça diante de tantos acontecimentos nesse mundão desembestado, louco e lindo porque nós vivemos nele? Hei de dar os meus pitacos acerca dos últimos fatos do cotidiano, afinal, é dele que me alimento. O cotidiano é meu camarada, oxente! A princípio tecerei opiniões imprescindíveis sobre o afastamento, aposentadoria, licença prêmio, seja lá que raios de nome arranjarem, do papa Bento XVI. E cria-se um furdunço que eu não compreendo o porquê. Qual o problema do cara querer (quase virou letra de música, tipo o cara-caramba-caraô do Chiclete com Banana) se afastar do trabalho e ter sossego no que lhe resta de vida? Por que deve ser uma coisa cansativa viver toda a vida vigiado feito tivesse num Big Brother mundial, aos olhos amorosos dos que o adoram ou aos olhos críticos dos que lhe sentem ojeriza. E estar sempre a acenar e sorrir levemente. E dizer aos irmãos e irmãs de fé aquilo que devem ou não devem pensar. Sujeito sábio o alemão (cujo nome é difícil que só), saiu do caldeirão fervente das discussões do estilo “quem sabe mais de Deus sou eu”, para a vida sem pompas e bajulação dos reles mortais, que tendo um dia sido pontífice (adoro essa palavra), certamente partirão sem escalas para ocupar uma cadeira celeste. Deixem-no!

Domingo no Fantástico, uma moça hollywoodyana entrevistada, contando da sua passagem pelo Brasil, orgulhou-se em dizer que havia visitado uma favela. Ontem, no Jornal Nacional, o Indiana Jones andou passeando por uma outra favela no Rio de Janeiro e claro, todo o povo do jornalismo estava lá para conferir. Comovente, né não? Penso no quão exótico deve ser, para eles, um passeio assim. Algum guia do lado explicando: “Esse líquido de aroma pouco agradável trata-se do nosso esgoto que não tendo aonde se malocar, corre para a rua aonde o senhor está a pisara”. É claro que estou sendo leviana em comentar sobre uma realidade a qual não conheço, mas acho de uma hipocrisia filhadamãe esses caras de sotaque importado passear pelos becos e vielas como se tivessem num safári, cercado por seguranças, polícia e etecétera e talvez uma placa com os dizeres “o senhor Harrison Indiana Jones Ford certa vez passou por aqui e todo o esgoto ganhou um bueiro” seja pendurada na principal parede do lugar.

Gosto de atentar para as coisas importantes circulando nas redes sociais e demais sites expert em frivolidades. Isso não me enriquece o espírito, mas testa o quanto é grande o meu poder de tolerar. Adoro, por exemplo, as atualizações alheias no tal Instagram. Um dia ainda vou ter um novinho só pra mim. Quando eu via as fotos do povo nas situações mais bacaninhas ou não, comendo, dançando, bebendo, enlouquecendo, praticando do profundo direito ao nada e postando as fotinhas no através do tal, eu pensava: “esse moço é bom que só, vive deixando as pessoas fazerem dele o seu instrumento de aparição”. A pessoa está, por exemplo, na praia e entre um mergulho e outro abre um sorrisão meio sem vontade, a fim de mostrar a todos o quanto está curtindo. Eu acho que estou meio fora de forma no quesito curtição, porque na minha época, quando eu era pequena aqui em Arapiraca, a gente curtia a curtição bem mais que parava pra fotografar. A gente comia, bebia e se divertia despudoradamente e gostava de registrar os momentos através da câmera, porque se perpetuava tudo aquilo, mas o que valia mesmo não se via com os olhos de se enxergar pra fora. Se o Instagram fosse uma pessoa, eu o visualizaria multifacetário: comilão, bebum, feliz, imediatamente triste, fazendo coraçãozinho emo, sensualizando no biquinho, curtindo um show sem nem saber que música tocava naquele instante, jurando amor eterno, chorando o coração partido, feio, lindo, cabelo chapadinho, maquiadão, #festa#amigos#partiu...

Última e velha notícia carnavalesca: O trio elétrico do Chiclete com Banana (cara-caramba-caraô) foi avaliado em cem milhões de reais. Eu pergunto: o que fazem de braços cruzados os terroristas e revolucionários desse mundo?

Ah, bora parar, né? Estou mesmo insuportável hoje. Nem minha dor de cabeça me aguentou e #partiu sem nem me deixar retratá-la no Instagram que eu nem tenho.

“Eu to ficando velha
Eu to ficando louca!”

O poema:

Querida dor de cabeça
só te peço gentilmente
pelamordeDeus me esqueça
eu sou muito boa gente

Mas se tu te recusar
e insistir na paquera
veja bem, vá se lascar!
que meu bom humor já era






sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

QUANDO UM DIA FOI SONHO

Eram mais de vinte jovens alegremente loucos e famintos por viver a vida naqueles quatro dias de carnaval. Pontal de Coruripe, e seus arrecifes caprichosamente pintados pelos dedos de Deus, haviam sido escolhidos como o destino de se sonhar.

Gente demais na casa miúda, alugada no sacrifício e participação de todo mundo. Gente feliz demais pra se incomodar com pormenores do tipo comer pão com ovo em três cafés da manhã seguidos; lidar com a perna machucada do Seu Luís, o locatário (que ninguém ouse confundir com o meu pai, o melhor Seu Luiz que já houve por essas bandas chamada planeta Terra), cujo inchaço e feiura era tamanho e as moscas gostavam de passear pela sua perna pra depois se aventurarem nos pães, ao menor descuido de alguém; ou dormir literalmente na calçada por falta de espaço dentro de casa. E lá pela madrugada, os que não encontraram um um canto pra deitar o corpo, faziam algazarra a não permitir quietude a quem tentava descansar sob o teto de estrelas.

Perto dali, na beira-mar, o Farol parecia querer compartilhar daquela inclinação espontânea para o estado de absoluta felicidade. Tudo era motivo de festa. Tanto era motivo de riso. Até as eventuais briguinhas se faziam engraçadas e virariam lendas. Houvesse por ali uma máquina de se contabilizar risada, não daria conta do desmazelo alegre a se espalhar. Eram meninos querendo ser gente grande.

Fez-se dança, canto e brincadeira. Fez-se bebedeira de se curar no dia com outra mais maneira. Fez-se interação como nunca se ouviu dizer coisa parecida. Era pra estarem lá aquelas pessoas, feito tivesse predestinado o encontro, feito não tivesse sito tão especial caso uma delas faltasse. Era pra ter sido escolhida exatamente aquela seleção musical compondo uma inesquecível fita k-7 de músicas deliciosamente tolas e lindas e deles. Os amigos, os Piras, as meninas. A amizade!

Tudo aquilo intensamente vivido permanece feito tatuagem de maresia na memória de cada um. Os diálogos, as bobagens ditas como filosofia, os fatos engraçados que se eternizaram folclore, tudo é guardado feito peça valiosa do incalculável relicário chamado coração. É preciso apenas um encontro casual entre alguns dos que viveram esses dias. É preciso que uma daquelas músicas comece a tocar e pronto, deram-se as lembranças, deram-se os olhares lacrimosos, deu-se a saudade de algo tão simples e inexplicavelmente bom, capaz de ter a sua grandeza sentimental compreendida apenas por quem foi parte disso, por quem esteve lá e vivenciou o que só foi possível naquele fevereiro de mil novecentos e noventa e três.

Eu vi.





sábado, 9 de fevereiro de 2013

CARNAVALIZANDO


Eu diria coisas engraçadinhas sobre a falta total falta de nexo no país parar por quase uma semana a fim de cumprir os ritos de uma festa. Eu me contradiria vibrando com tantos dias de absoluto “nada pra fazer”, à margem do som das cuícas, atabaques e tamborins.

Em sintomas de revolta, criticaria tanto empenho em se executar tal evento enquanto tanta coisa, que nem é bloco ou escola de samba, desce a ladeira no meu Brasil verde morto, amarelo desbotado, branco acinzentado e azul que já foi mais anil. Em segundos, me viraria pra dormir mais um pouquinho, porque é cedo demais pra superficializar um protesto.

Eu bradaria contra a alienação popular, que se joga nas ruas e avenidas atrás das baterias, trios elétricos ou um mero toque de corneta, esquecendo de que no resto do ano as notas nos quesitos educação, saúde, segurança pública e afins não evoluem do zero, nota zero. Mas eu me confrontaria dizendo que carnaval é justamente pra isso, pra se jogar pro alto a corrente de problemas que se arrasta o ano inteiro e aproveitar os dias de folia para exorcizar o peso do cotidiano.

Maldiria tanto dinheiro desperdiçado em fantasias, adereços e alegorias, em terras onde tanta gente pena por um prato de comida. No instante seguinte confessaria o quanto me encanta a beleza de um desfile de escola de samba, seus enredos magicamente demonstrados e os sambas a contagiarem até quem é ruim da cabeça e doente do pé.

Amaldiçoaria a festa pagã. Bendiria a frívola necessidade do circo. Bradaria contra a bagaceira e desordem pelas ruas. Sorriria em face aos arlequins, pierrôs e colombinas, mensageiros do amor nos salões e avenidas.
 
Eu lançaria as minhas tolas considerações sobre a inabalável carnavalização brasileira, se hoje parassem por aqui as minhas letras. Finalizaria suplicando a presença constante da alegria, no quarto trancado do sossego, ou na rua sob o domínio dos reis e rainhas da folia.

Inté!


Quando a folia chegou
eu já era fevereiro
esperei o mês inteiro
pra te carnavalizar

Sambei na tua avenida
batuquei teu coração
fiz enredo e evolução
pra te ver me acompanhar

Eu sou a tua cabrocha
tua passista fagueira
de hoje até quarta-feira
sem hora pra dispersar

Pra lá da apoteose
desmascaro a fantasia
eu e tu, só alegria
vem logo me desfilar!





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

DA MENINICE



Começo essa palestra com um bendito comprimido tentando se derreter sob a minha língua. Um calor que só deverá existir semelhante na matriz do inferno e o coiso demorando tanto a esvair-se em vitaminas para o meu ser.

Quando falei em “palestra” não quis insinuar que me tornei uma palestrante, daquelas que percorrem léguas dizendo tudo, ou nada, e de vez em quando um fica ricão que nem o Augusto Cury, que chamou o FBI pra descobrir quem roubou o seu queijo. Eu não fui! Doctor Gui, lindo, cheiroso e futuro rasgador do meu bucho, me proibiu categoricamente de ingerir os derivados do leite, inclusive o queijo que euzinha bem amo. A palestra nesse caso se trata de conversa, papo bom entre dois compadres no balcão da bodega, enquanto espera o bodegueiro entregar o pacote com o pão dos meninos.

Meu pai, quando trabalhador de uma das muitas fazendas pelas quais passou, tinha uma bodega, ou venda, ou seja lá que nome se dava. Fim de tarde, à luz do candeeiro, os outros homens da fazenda sempre apareciam para tomar uma dose antes de ir pra casa. Eu, miúda, os observava até que ele percebesse e me mandasse sair. E vez ou outra aparecia um sapo quase do meu tamanho, ou uma caranguejeira, ou um dinossauro... Não, menos. Na minha meninice eu nem supunha o que seria dinossauro.

Eu gostava de passear nas fazendas alheias onde meu pai trabalhava. Chegava lá meio acanhada porque só convivia com meus irmãos e primos nas férias, eu era menininha muletante da cidade. Fresca que só! Paparicada feito uma convidada de honra. E era incrível brincar nos quintais sem fronteira, e brincar de Daniel Boone ao som de “pijum-pijum”. Nossos tiros eram no alvo, nossas armas, vitais: a inocência e alegria. Até as sopas feitas das vísceras da galinha, cozidas em panelinhas de barro, se tornavam deliciosas. Tudo, instintivamente, induzia à participação de todo mundo na elaboração e feitio das brincadeiras, porque o mundo estava lá fora, bastava abrir a porta e espiar em volta. Éramos artesãos da nossa própria infância.

Não há intenção nessa palestra de comparar a infância daqui, com a meninice de acolá atrás. O tempo exige que as coisas evoluam e o acompanhem. Eu apenas acho que firmamos lembranças mais sólidas. Manuscrevemos nossa meninice e hoje ela só se faz por digitação, com direito a editor de texto para reparar os pequenos equívocos. Equivocar-se é preciso, assim como fazer as próprias roupinhas de boneca, os divertidos carrinhos com lata de leite, os boizinhos de mangas abortadas, também foi preciso e mágico.

Palestrei coisa que só pra uma noite que já adormece.
Bora dormir?
Boa semana, pessoas!


No fim da tarde, 
nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: 
Meus filhos, o dia já envelheceu, 
entrem pra dentro.

Manoel de Barros


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

QUANDO FEVEREIRO CHEGAR



Fevereiro havia me feito promessas e antes de nem chegar, já as descumpriu. Sacanagi, fevê! Agora serei a melhor amiga de março e suas águas e esperarei se é um bom cumpridor dos seus compromissos para com os comigos de mim (obrigada, Pessoa).

Até lá seguirei firme na missão de fazer uma boa parceria com a paciência. “Tudo acontece na hora certa”, me disseram as boas vozes. Tenho tido imensa vontade de me encontrar com essa dita “hora certa” e perguntá-la sobre quando se dará essa sua ansiada aparição.  Na verdade a meu desejo dizer pra ela se lascar e aparecer quando bem quiser, porque meu estoque de paciência está com o prazo de validade expirado. Digo não. Vai que a sujeita seja obediente e se atrase mais ainda. Tivesse no meu agreste um mar extraordinário amanhã eu faria oferendas á Iemanjá pela boa aparição da hora que é certa, mas cheia de vontades. Lançaria às águas um punhado de flores e uma agenda eletrônica pra ela se achar logo comigo... Tipo, é nessa encarnação?

Mas fevereiro chegou trazendo coisa muito boa não e nem tem a ver com o meu desencontro com a hora certa. Chegou chegando o aumento da gasolina, o que, aliás, ainda não se viu a presidente-enta interrompendo a novela pra dizer que é a melhor coisa do mundo para todos os seus queridos e queridas e o povo todo está indócil. Só porque até preço do pensamento vai subir? O povo alardeia por pouca coisa, né não?

Mas o evento mais bafônico do início do mês, sob o ponto de vista do como somos um povo passivo, deu-se em função da eleição do meu ilustríssimo conterrâneo para novamente presidente do senado, Renan, o Calheiros. Quero só compreender o porquê da surpresa. Quero só perguntar quem é a boa alma que ainda acredita na ausência de conchavos por parte daqueles que NÓS elegemos para que naquela filial duzinferno tudo funcione absolutamente como o desejado pelos caras donos do poder. Ensaio indagação para o meu próprio eu acerca do que move essas pessoas e não encontro respostas razoáveis. Se acham o próprio umbigo do mundo podre da política e nós, na estranha obrigação de conivência, os colocamos lá. Feito gostássemos das raposas cuidando do galinheiro, senão esses caras não estariam com suas bundas sujas sentadas nas cadeiras mais importantes do país. Que quando numa eleição eu simpatizo com um candidato cujas ideias me agradam, mas deixo de votar nele por saber que não tem chances de ganhar, e escolho entre o ruim e os menos pior, dentre os que tem chances, estou dando o meu aval para que os nobres senadores escolham a raposa mais perigosa para cuidar das pobres e passivas galinhas.

Mea culpa!

Mas vem aí o carná e todas as coisinhas chatas serão desligadas das nossas memórias festeiras, só importando o toque do timbal e as penas do faisão. Eu, aliás, amo o toque do timbal. Fosse me concedido o sublime direito de dançar por um dia que fosse, desceria a ladeira atrás da Timbalada sem remorso nenhum, gritando alto “e fala pra mim poesia no meio da praça”... um amigo que me  “viu” no Juracy  Parque (como gentilmente a Simone chamou o MSN) ouvindo Timbalada, falou: “pensei que você só escutasse música boa”... Eu não sei o que venha a ser música boa. Pra mim existem três categorias: as músicas que eu amo;  as que eu nem gosto tanto, mas se a companhia for bacana eu ouço feliz da vida, e o Latino, o qual eu prefiro não me estender no assunto porque estou sem remédio para enjoo.

Musicado, carnavalesco, caro pra caramba! Deixa fevereiro acabar de chegar, né?
Vou lá.
Inté!