sexta-feira, 29 de março de 2013

PAZ, AMOR E CHOCOLATE









Amanhã, que já é hoje, será mais um dia do “pode-não-pode”. A realidade é que esse dia há muito ficou pelo caminho. Quando eu era pequenininha cá em Arapiraca, vivi isso intensamente, as ameaças com o passaporte para o quinto duzinferno, caso fizesse coisinha que fosse da imensurável lista proibitiva para a sexta-feira santa.
 
Décadas se passaram então agora eu posso confessar. Na verdade gostaria de confessar ao Francisco, o papa hermano e simpaticíssimo. Eu diria pra ele das vezes em que li a revista Sétimo Céu, vendo o beijo estranho dos artistas das fotonovelas em pleno dia santíssimo; confessaria, também, das vezes em que fazíamos procissão às casas dos tios e padrinhos com a descarada intenção de receber a benção, um doce e um trocadinho. Por que ovo de Páscoa é coisa que só se sabia o que era pelas tevês, nas propagandas do ovo de chocolate do coelho que nem bota ovo. Contar piada era coisa que não podia, também. E durante o dia era um tal de corre aqui e corre acolá pra contar ao pai e a mãe que fulano riu, cicrano chutou uma pedra e o beltrano falou um nome feio. Eu confessaria tudo pro Francisco e depois emendaríamos um papo sobre futebol. Ele diria que o Messi é melhor que Pelé e eu retrucaria: “Sou Botafogo, Chico! Ouviste falar do Mané, o endiabrado anjo de pernas tortas?”... 

Como do passado não se pode viver nem se alimentar, me preparei psicologicamente, embora jamais o suficiente e rumei em direção ao comércio enlouquecido. Gente demais pelas ruas em busca de alimentar o corpo, pois o espírito nem desconfia do porquê do furdunço. Eu quis cartolina, pincel e coragem pra espalhar cartazes com dizeres mais ou menos assim:

 VÃO PRA CASA, SEUS INFIÉIS! 

COMAM O CHOCOLATE, ME DEEM O VENTO DAS RUAS, SEUS HEREGES!

CHOCOLATE TEM O ANO TODO, SEUS BESTÕES!

SAIAM DA MINHA FRENTE!!!

CONSUMISTA DUZINFERNO, PRECISAVA VIR PRA RUA JUSTO NO ÚNICO DIA QUE EU VIM?


Mas, pessoa boa que sou, fiz meio minuto de mentalização, entoei canções de acalmarem a alma e segui, esbarrando em um ou outro estrupício que bem poderia estar em casa ou no seu abençoado trabalho, ao invés de ocupar as calçadas, roubando-me o vento. Por que vento por aqui é artigo de luxo, daqui a pouco estaremos engarrafando o produto e armazenando para momentos de total escassez. 

O mais importante é encher o coração de amor e empanturrar-se de chocolate, os ovos do coelho que nem ovo bota, embora isso já seja sabido, além do inúmero cardápio deste dia reservado para se jejuar e purificar o espírito. Caso você seja mais um a cometer o pecado da gula como em nenhum outro dia do ano, lápis e papel na mão, escreva na primeira hora do sábado, antes de achar a aleluia, uma carta para Francisco. Ele intercederá junto a Deus nosso Senhor para a sua clemência. 

Confabulando agora há pouco pelo Face, eu e Rodolfo, contei-me minha luta para lidar com esse arremedo de internet a qual tenho tido acesso esses dias. Meu modem queimou e demorará um século e meio para a resolução, pois não tem aqui na cidade e etecéteras... Esqueci de propor uma rifa para me ajudar a angariar fundos a fim de adquirir um modem novo. Vivo? Claro! Oi? Tim-tim! Nada funciona. Eu só não os odeio, todos, com toda a força da minha alma, porque odiar nas primeiras horas da sexta feira santa, não pode. Eu mostrava a ele esse poema, que agora compartilho na voz do Cordel do Fogo Encantado. Bom que só!

Que sejam dias esses próximos, em que o meu coração, o seu, o dele também, se encha de uma vontade incontrolável de ser melhor... O máximo possível. E depois se melhora um pouquinho mais. E assim a estrada aparenta mais boniteza, a cada passo dado. 

Bora dormir?
Beijo!








sexta-feira, 22 de março de 2013

A FACE AZUL

A BEIJOQUEIRA


Teve um dia, lá na outra escola em que eu trabalhava, que eu pude constatar a minha condição de não ser uma pessoa muito boa. O Emerson carimbando as carteirinhas dos alunos. Ele estava na bancada, eu num birô próximo, tendo a sua visão de perfil, sentado à cadeira. Então meu celular toca. Então uma das carteirinhas caiu no chão. Eu atendo e começo a conversar com um amigo lá de Minas. Ele inicia um movimento de inclinação lateral, movendo o braço direito lentamente em direção ao chão, à caça do objeto caído. Eu continuo conversando. Ele não olha para o piso, segue inclinando o braço e o rosto espiando pra frente, enquanto conversava com alguns alunos na janela. A almofadinha do carimbo encontra-se abertinha da silva justamente do lado direito, enquanto ele continua baixando o braço, levando junto o ombro e o rosto, que não podem ser apartados do resto do corpo, obviamente. Eu começo a supor o que vai acontecer e sem perceber, deixo a pessoa amiga falando sozinha ao telefone móvel. Alguns segundos que parecem demorar séculos é o tempo que separa a face direita do Emerson, da carimbeira transbordante em tinta azul, aberta, querendo beijá-lo. Ele não percebe o afago carimbado preenchendo o lado direito do seu rosto socialista. Eu disparo numa risada descontrolada, sem conseguir ao menos responder ao meu interlocutor o que se passava. Apenas gargalhava. Emerson me olhava sem entender até que, longos minutos depois, eu consegui recobrar a seriedade (?) e ofereci-lhe meu espelho para que ele se visse azulzinho. Uns anos se passaram, mas, até hoje ele me acusa, injustamente, por não tê-lo avisado da armadilha carimbada. Eu juro que tentei. Quer dizer, na verdade quis muito ver o inacreditável acontecer. Como aquela caixinha de carimbo foi se postar justamente ali? Como ele pousou tão lenta e lindamente sobre ela, sem perceber nadinha? Acho que foi só porque me ama muito e queria me fazer rir como em raras vezes na minha vida.





Mas, no fundo, bem no fundo, sou uma pessoa de boa índole. Não foi de propósito que perguntei à menina na escola se aquela colega (mais nova que ela) seria sua mãe. Foi sem querer, eu juro. E depois também foi sem querer que não consegui controlar o riso, pela vergonha que nem era alheia, era de mim mesma.

Tentar acertar é a minha meta. Merecer o perdão pelas minhas falhas, essas coisas, sabem? Quando naquele dia bem lá longe eu estava na calçada de casa e vinham aquelas duas mulheres do meu conhecimento e eu, fofa que só, cumprimentei a mais velha com um “tudo bem dona Fulaninha?” e a mais nova de imediato respondeu: “não é a mamãe não, Milene, é a Coisinha de Jesus, minha irmã mais velha”... Fazer o que numa hora dessas em que o chão não se abre na vã tentativa de te guardar? Buscando um resquício de fala que me restou, falei: “Poxa, mas elas são parecidas demais, né? É que dona Fulaninha está muito jovem, por isso as confundi”. Foi!

É que eu fui criada pra lidar com esse tipo de situação. Desde menina fui obrigada a me desdobrar quando o assunto é vergonha dos alheios e de mim, por tabela. Estava de férias lá onde meu pai trabalhava. Um anjinho morreu e fomos, eu e vó Júlia, mãe do meu pai, pro velório do inocente. À luz da candeia, postavam-se na sala umas mulheres conversadeiras e minha vó desatou a falar mal de uma vizinha que andava de olho grande pro meu pai, o Luiz filho dela. Vovó rezou um rosário inteiro de elogios contrários para a tal moça, enquanto uma mulher rezadeira e outra tentavam fazê-la parar. Depois de muito xingamento, uma pessoa diz lá no fundo, encoberta pela pouca luz do candeeiro: “estou aqui, Dona Júlia”... Fez o silêncio por segundos que pareceram séculos, até que vovó recuperou o fôlego e xingou tudo de novo, dessa vez dando o recado diretamente ao motivo da sua irritação. E depois foi só dizer “vamo simbora, Milene” e pronto.

Vamo simbora dormir?
Sou pessoa boa, sou sim!



quarta-feira, 20 de março de 2013

DA INQUIETA CONDIÇÃO



Primeiros minutos da quarta-feira. Gosto de escrever o dia nos seus primeiros minutos. Gosto de escrever antes que ele me diga chatices ou sei lá o que. Escrevo sem muita razão de ser. Apenas pra inaugurar a roupa nova do meu filho inquieto, porque essa imagem pra mim representa a própria inquietação, a estrada levando o fusca pra onde não se sabe. A poeira na estrada. O incerto. O desejo de seguir. E depois querer voltar. Por que não?

É certo que eu gosto mais dos layouts mais claros. É feito meus textos ficassem mais ao alcance dos olhos amorosos de quem os lê. Mas pretendo deixar o fusca na estrada, me levando por aí a comer poeira e vida. Rodolfo disse que será “infinito enquanto dure” essa repaginada. Denise que todo inquieto é mutante. Por que ninguém confia no meu poder de decisão? Estou ameaçando mudar minha postura, me transformar numa mulher madura e contida, seguríssima. Se necessário mudarei inclusive o nome e o RG. Denise afagou meu ego e disse que me ama assim desse jeitinho... Tipo, não quis prolongar a prosa a fim de perguntar como seria esse “jeitinho”. Mas se ela me ama do jeito que eu sou, tá amado e pronto! Não sou de devolver amores assim tão facilmente.

Sobre a prova, a bendita, obrigada a quem está na torcida. Mas eu adianto que não me saí bem em uma das profundas reflexões acerca do BBB. Imaginem então o que fui capaz de aprontar com Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Drummond, no seu poema tão lindo que postarei ao final desse post. Então agora resta apenas o arrependimento e a constatação de que bancar a preguiçosa todo o tempo não é engraçado. É infantil e burro. E a consequência bate à porta sem jeito de evitar a sua entrada. Alguém sabe o telefone do Augusto Cury? Preciso de autoajudatividade.

Cadê a chuva, São José? Caiu, por poucos minutos, uma espécie de suor celeste, que não deu nem pra sentir o cheiro de terra molhada, aquele que minha vó dizia ser pecado reparar. Quer dizer, reparar até podia, mas se admirar podia não, fazia mal. Terra e chuva se encontrando é coisa tão bonita de se ver, nunca entendi  onde estava a maldade. Devia ter perguntado pra Vó quem inventava essas coisas pra ela.

Se não for pedir muito, quero uma quarta-feira de chuva e música. Eu rechaço as más notícias, aquela das rádios no início da manhã, que contam tanta feiura a nublar, sem chuva, o dia todo. Carecia haver um dia de poesia no muro, sorriso genuíno de quem se esbarra na rua, leveza nos passos mesmo quando o caminhar é incerto.  

Madrugada me diz que é hora de ir. Mas não sem antes Drummondear um bocado:



Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçado na mesa, todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.





domingo, 17 de março de 2013

FUGIU-ME UM TÍTULO




”Eu penso do amanhã gostar dos sonhos que eu tenho pra ele. Eu penso dele ficar alegre, sorrir e dizer: ‘Bora lá, faça valer, eu só existo pra te fazer sentir carnes e alma pulsando, com sede e fome de engolir o mundo em bons bocados’. Eu penso...”

Escrevi as aspas acima ontem, antes de deitar. Eu quis que o hoje, que ontem foi amanhã, gostasse do que reservei pra ele, mas receio não ter sido o suficiente esse gostar. Fiz uma prova hoje, vestibular pra Letras, faculdade à distância porque ir todo dia eu não gosto mais não. Nunca pensei que Drummond, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos fossem ser tão sacaninhas comigo só porque não estudei vírgula que fosse para a bendita prova. Cabeça latejante de dor, não de ideias, travei duelo feroz com as escritas do moço na tentativa de alcançar a melhor compreensão. Compreendi quase nada, são apenas dez vaguinhas porque as outras quarenta vagas são reservadas para os cotistas. Sim, senhores! Dizem por aí que todos que trabalham na educação são também educadores, conversa bonita que só! Mas, na teoria a prática é bem diferente. Aos professores todas as honras, glórias e plataformas do Paulo Freire. Ao resto dos mortais, só lasqueira! Agora é esperar pra ver se ao menos as duas questõezinhas pertinentes ao BBB eu acertei. Brincadeira não, havia mesmo duas questões sobre o programa e eu tive que matutar um bocado sobre elas. E o povo ainda fica minimizando a importância cultural deste divisor de águas da televisionice brasileira. Ano que vem vou querer ao menos metade das questões bigbrotherzadas, aí as minhas chances aumentarão consideravelmente.

Preciso ir ali, comer um pão com qualquer coisa, meu estômago sente fome. Minha preguiça está saciada. Tenho que chamar a polícia para calar uns arigós que se postaram à frente da minha casa, do outro lado da rua, com uma absurdez de música feia, na tentativa de serem ouvidos lá no Suriname. Alto que só! Só não sei se chamo os puliça antes ou depois do pão... Oh, dúvida cruel.

Antes, porém, quero fazer feito as pessoinhas no programa da Xuxa e mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai e pra você. Reencontrei ontem à noite uns amores que guardo no peito, do meu antigo trabalho, lá onde era tão bom e alegre, dos cafés e pão doce quentinhos do fim de tarde, da risadaria incontrolável, do elo a não ser desfeito nunquinha. Rimos ontem tudo de novo. Maristela, Emerson, Cicinha, Michelle... Que massa!

Outro antes, outro porém, o poema abaixo é de um menino que mora aqui pertinho da minha casa. Que talvez não nos cumprimentássemos caso nos víssemos na rua. Que por motivos de histórico escolar e milagre facebokeano, encontrei essa belezura de poema. E lá no blog dele tem mais. E eu quis segui-lo, mas não há a opção porque ele não sabe mexer no blog. Ele só sabe escrever feito gente grande.

Agora eu vou comer um pão e inventar um sonho pra amanhã.

Atchim! Boa noite... eis o menino:



Feliz Cidade



Agradeço,mas não sei a quem
Na dúvida, porém
me esvazio
O amor que tenho, entreguei
ao céu, ao seu, ao meu, eu sei

Sinto-me grato, e desconheço o fato
Transcendente, fez convite
Sensação!
O valor que tenho me reflete
num espelho turvo, um ativismo inerte

Extasiado, em demasia
Ao meio fio, ao meio dia
A alma, em calmaria
Agradeço, mas não sei a quem
Na dúvida, porém
Alegria!

Para nós.





quarta-feira, 13 de março de 2013

QUESTÃO DE OPINIÃO

A questão é que eu preciso ter opinião sobre tudo, ou aquela velha opinião formada sobre nada. Os temas estão aí, diversos, complexos, modinha, frívolos... É preciso opinar, oxente!

Se a fumaça ainda é preta, em vias de embranquecer, eu devo ter um ponto de vista inteligente para fazer valer a pose de antenada. Nesse assunto, aliás, discorro um pensamento revolucionário: como não aproveitamos o dia doze de março, o dia mundial do envio de scraps, para lançar um movimento em prol da eleição de uma mulher para o cargo? Li por aí que qualquer cristão batizado pode ter essa ambição. Ops, ambição não! Santos homens não ambicionam, por um motivo divinal no máximo querem muito uma coisa. Mas, também andei lendo por aí que é preciso antes ser padre para alcançar a cadeira número um do Vaticano. Isto dito, lascou-se a minha opinião esfumaçada.

Sobre a estadia por tempo infinito da quentura aqui no agreste alagoano, eu ainda não formulei opinião porque a fervura dos miolos não permite. Um dia até choveu, eu contei? Pois é, passou toda cheia de charme a chuva, se derramando sobre plantas e tetos e gentes, mas como dizem os mais velhos por essas bandas, “foi só uma chuva” mesmo. Lá na roça cibernética, onde mora minha tia do olho miúdo, sorriso constante e coração do tamanho do céu, a mãe da Cida, os pés de laranja estão amarelinhos, lindos, enfeitados de tanta laranja. Mas, e o líquido, cadê? Duras que só, as bichinhas, boas de consumir não. E lá do outro lado, pras bandas do Sudeste, chove chuva, chove sem parar... Rodolfo até repetiu história. Ele está cansado de dizer todo ano a mesma coisa. Cheia de opinião é a natureza, deve pensar que se o bicho homem se mete a cometer besteirice desgovernada, ela fica de birra e só manda o que quer, pra onde bem quiser. Eu penso, porque eu sou dessas que pensam, que se os raios não fossem ultravioletas e se pintassem, por exemplo, de ultra-azuis da cor do mar, talvez sol e chuva gostassem de aparecer um tanto de cada vez, em todo canto.

É de bom tom da sagacidade que eu emita parecer sobre a morte precoce do Chorão, roqueiro, salvação da lavoura poética dessa geração carente de verso que preste, por esses dias. Mas eu não sei como direcionar o meu pensamento opinativo. Não sei se sigo o caminho dos fãs ardorosos que mal sabem a diferença de uma letra dele ou dos Raimundos, ou franzir o cenho enquanto teço comentários do tipo “infelizmente mais uma vida ceifada pelas drogas”. Ora! Um cara morreu porque um dia se meteu com o pó branco e miserável, assassino impiedoso. Um cara morreu! Não importa se era um músico ou advogado. Não é culpa da música que ele tenha partido assim. É culpa de quem eu não sei, ou do que sequer suponho. Então diz-se “eu tinha restrições quanto à conduta de vida dele, mas admirava o seu talento”. Bom mesmo é cada um cuidar da conduta da sua própria vida e quanto à música, apenas senti-la, venha como vier. A propósito, a palavra "ceifada" é tão irritante!

Mas, conduta boa mesmo foi a do Botafogo nesse final de semana. Mistura linda de fumaça branca e preta; grito apaixonado dizendo que “ninguém cala esse nosso amor”; príncipe Seedorf sublimando na arte de ser elegante com a bola no pé, com a palavra simpática sempre na ponta da língua. Casa comigo Seedorf? Opinião lascada outra vez! Casou-se sem mim, o moço. Só sei que ser Botafogo dá uma emoção que eu não sei dar parecer não, sentir é o que eu sei.






quinta-feira, 7 de março de 2013

DUAS FALAS



O que me move? Por que será que o que faz alguns mudar montanhas de lugar, não me inspira nem a suspirar?

O que tem no meu olhar a me fazer enxergar o que verdadeiramente desejo, tão distante? Não passará a tal ilha sonhada de uma miragem produzida pela vontade encerrada no meu coração? Ah, esse moço – o coração – tão louco! Mas, esperar o quê de quem não tem razão e tenta, em vão, encontrá-la no imponderável?

Não devia, usando a minha mente cheia de razão, esperar por algo, alguém ou uma mudança de situação pra assim poder ser feliz. Mas, do que adianta um cérebro cheio de certezas se o que bombeia e me faz pulsar, fala mais alto e faz calar?

E se eu mandar, nem que seja aos berros, calar o tal coração pra dar voz à razão e perceber que sem essa música repetitiva que me manda ser feliz não vale a pena viver?

Sim, eu sei que por hora acabo de me contradizer. Mas, são sempre duas falas a se confrontarem dentro de um só ser: a que grita e manda falar...  a que sussurra e manda calar.

(Da anônima mente)



A MIM FOI CONCEDIDO O DIREITO 
DE ARREMEDAR POEMA A PARTIR DO TEXTO ACIMA, 
ANONIMAMENTE LINDO. ASSIM O FIZ:




De dia, acordo razão
dizendo: não, coração!
já basta o que você fez
calou a minha sensatez

e agora sou só escombro
do que fui e sequer me lembro
um vulto de sanidade
vestindo falsa verdade

De noite me rouba a fala
agindo descompensado
suplico e você não cala

Coração, bobo emotivo!
talvez eu morra de amar
só de amor ainda vivo

(Milene Lima)




terça-feira, 5 de março de 2013

DAS ÁGUAS DE MARÇO E DA PEQUENA FELICIDADE



E não é que março chegou chovendo? Na verdade fazendo certo charme, deixou o povo todo com gosto de “quero mais”. E há de vir. O dia ficou numa boniteza só, depois da chuva, o calor avermelhou-se de constrangimento pela sua super presença e guardou-se um tanto.

Estou numa vibe otimista hoje, pensando que as coisas não tem que ser todo o tempo ruim, Feito a Denise falou na sua última postagem do Tecendo Ideias, sobre as coisas da vida que realmente valem a pena, que “é preciso despertar do sono profundo da insatisfação e saber receber as bênçãos, vislumbrar as riquezas que as travessias dessa viagem produzem em nós, porque não somo ilhas, não seguimos sós”. Pois é! Viver um troço bacaninha, eu gosto. Só acho que de vez em quando ela, a vida, poderia ser mais bobona, casual, e deixar a gente tropeçar na felicidade sem carecer de muita explicação.

Viver o que pode se chamar de “pequena felicidade”, mas que de miúda não tem nada. É que não importa se foi um momento gigante ou efêmero, se a gente trombou com ela por aí, deu-se da alma ficar alegre e se manter saciada por um bocado de tempo e isso é massa!

Ser feliz sem motivo aparente. Ser feliz por agora, sem saber o que virá, porque pensar absurdamente no que virá e gastar a felicidade acontecida sem ao menos fazer uso direito, é broquice demais. Tem horas de só se querer um coração leve e meio tolo. Tem horas de se fazer vista grossa pra vida carrancuda e cheia de não-me-toques e tão somente se permitir experimentá-la nas suas cores mais viçosas.

Não é certeza saber o que virá. Mas, que venha leveza por um bom punhado de tempo. Seja a vida, embora brevidade, companheira fiel da felicidade, mesmo quando os seus caminhos não se misturarem. Se não é neste agora, lá na frente hão de tropeçarem outra vez, os seus caminhos.

À espreita do menor descuido da felicidade, pequena e tão grande, caminham os seres ávidos e insaciáveis, amém!




Trilha sonora por conta da Rafaela. 
Inspiração conversadora por conta de
Denise, Rafaela e Simone, 
que chegou quando a madrugada já se aprontava. 
Amo isso de conversar, porque é também aprender.


A quem  ficou se perguntando o que gota serena seria "broquice", 
é um termo do nordestinês derivado do  substantivo "broco". 
Não importa o que digam os dicionários,  
broco é assim, um cabra que não é muito sabido...  
Dito isto, que é quase nada, vou-me!






sexta-feira, 1 de março de 2013

CHÃO QUEBRADO

Do sertão eu não sei de ter visto, sei apenas de ouvir falar. Do sertão se conhece a peleja desde a vida toda. É um povo bravo, que ama tanto a terra mesmo quando ela se quebra inteira, rejeitando plantação, renegando vida. Os mais velhos espiam pro céu e lamentam que esse ano parece não ter pretensão de chuva.

Se pode pensar que lá no céu, depois de conferência feita, decidiu-se que o Nordeste deve amargar secura, sem chance de terra molhada. Se não tem chuva, cadê o pasto? Cadê o capim pros boizinhos brancos e malhados não morrerem à míngua por falta do que comer? Aí se escuta a velha e repetida cantiga na vitrola quebrada, dizendo do povo passando aperto, chorando a água que não caiu, saindo do campo pra cidade grande em busca do sonho de concreto, tão duro quanto a ausência do sorriso na face de quem os recebe.

É pra bem dizer uma tragédia que não se acaba. Faz pra mais de trinta anos que não se tem notícia de uma recusa de chuva dessa espécie. É uma tragédia continuada que deixou de ganhar manchete porque nesse mundo de correria tem coisa mais urgente pra se noticiar: a namorada nova do Neymar; a gravidez da Ivete Sangalo; a cubana que só quer um papel higiênico mais macio; as férias vitalícias do Bento...   Mas todo dia acontece do bicho morrer de sede e fome, do homem forte chorar porque o Sol é de rachar e não dá trégua, porque do chão não se tira mais o sustento.

Aí o moço disse na internet que era preciso jogar uma bomba no Senado e também aqui em Alagoas, porque somos todos pais e mães do Renan e do Fernando, o Collor. Todo mundo se indignou com o moço, quer dizer, quase todo mundo, porque sempre há os que acham engraçado. Eu não me indignei, nem achei engraçado. Eu ignorei o moço porque é assim que se faz com cretinos. Acho que o moço esqueceu que o Senado só tem esse presidente bacaninha porque os senadores dos outros estados, todos honestos e trabalhadores, o carregaram até lá. Pois, não é pra se festejar que naquela casa ilustre apenas esses dois políticos sejam mal intencionados e todo o resto sejam homens de bem? O Brasil está a salvo. Comemoremos! Talvez seja o caso de nós alagoanos pedirmos desculpas por macularmos a santa imagem da política brasileira.

Enquanto isso, com a absoluta conivência e falta de vontade de todos os cretinos mandatários dos podres poderes, a população de uma região inteira se arrasa pela falta de perspectiva. E o homem que ama a sua terra fraqueja e vai embora pro Sudeste que já não comporta mais tanta gente, tentando acreditar nos dias melhores que virão depois do Sol.