sexta-feira, 31 de maio de 2013

A NATUREZA DAS COISAS


Isso de viver era pra ser mais leve e sem precisão de tanta necessidade. Explico. Pelo menos tento. É que a tal prática da vida apresenta tanta opção de estampa que não é de se admirar a confusão que o sujeito faz, sem saber direito que estampado está mais de acordo com o seu jeito de querer caminhar.

Por que, por um bocado de tempo, viver é ter que cumprir esses “de acordos” todos. As tais necessidades inerentes à condição de ser livre, porém ciente das obrigações que se carrega por onde quer que se vá. É preciso comer, beber, festejar... e para isso conjugue-se impreterivelmente o verbo trabalhar. É preciso estudar, ouvir, respeitar. A todo instante da vida, aprender. Aprende-se até quando esse não é o propósito. Mas o sujeito só guarda o aprendido quando quer, quando não, deixa escorregar pelo caminho fingindo nem estar percebendo.

E segue-se pela vida escolhendo estampados, tomando decisões. E segue-se pela vida praticando, quando da tal necessidade, o ato de recuar. Por que recuar não implica de todo jeito em se acovardar frente à determinada peleja. Recuar pode apenas significar que o sujeito pensou diferente, oxente! A certa altura da vida, se obrigar a um “de acordo” qualquer não apresenta sentido. Quando se caminha pela vida há um tempo estendido, pelo menos a possibilidade de gritar um estrondoso não a qualquer coisa que não lhe dê o menor tesão, o sujeito precisa ter.

E grita munido de uma efêmera, mas feliz certeza, de que não vai carregar “de acordo” nenhum, só porque é esse o esperado. E segue cantando a canção que diz “toda caminhada começa no primeiro passo”... E tem vezes do primeiro passo ter precisão de ser pra trás, desfazendo o feito errado, pra caminhar melhor. E leve. E livre.


A natureza não tem pressa,
segue o passo
inexoravelmente chega lá
♫♪




segunda-feira, 27 de maio de 2013

É PRECISO TER PEITO

ESTRELA MAIS LINDA DE TODAS AS GALÁXIAS

Estava em todos os noticiários televisivos, internéticos e tals. Neymar, aquele, chorando enquanto  tentava cantar o hino nacional brasileiro (é pra escrever em iniciais maiúsculas?) vestindo pela última vez a camisa do Santos, ao menos por essa temporada.

Não é sobre futebol ou o cabelo esquisito do Neymar essa postagem. Não é o quanto ele já é rico e enriquecerá ainda mais jogando pelo melhor time do planeta, em tempos atuais. Ele é um menino, um sujeito que teve a sorte de ganhar dinheiro numa coisa extremamente prazerosa e isso é demérito? Eu não acho. Há naqueles cambitos magrelos muito talento. Há por trás um pai atentíssimo para conduzi-lo às melhores ações.

Então, após o choro incontido do menino, surgiram várias opiniões sobre a importância disso para o bom desenvolvimento da humanidade. Por que opinião é coisa que o povo gasta à vontade. Mas, houve quem descascasse o moço por causa do chororô, sugerindo que ele pensasse nas crianças da África passando fome, nas pessoas que saem cedo de casa e pegam condução pra trabalhar, em quem nem emprego tem e esses sim tinham motivo pra chorar... Esses e outros tantos exemplos  do estilo “salvarei o mundo pela tela do meu PC”.

Quem disse que emoção tem a ver com o cara ser podre de rico, mega pegador, estar indo jogar do lado do Messi ou ter aquele cabelo estranhão, que já foi bem mais feio? Tolice! O menino chorou porque estava indo embora da sua casa. O menino chorou porque a lágrima pertence a quem carrega dentro de si os sentimentos derretidos. O menino viu a sua vida curta passando feito um filminho e esvaiu-se em emoção, porque ele tem esse direito. Por que cada um que vive, além de existir, não o faz sem se permitir emocionar-se e chorar, seja lá por qual motivo.

É de todo mundo a emoção. E também é livre, não pertence a ninguém a sua exclusividade. Gosta de estar nos peitos mais desprevenidos e propensos a se deixarem desorganizar por ela. E isso não tem a ver com a vida dura ou mole que sujeito leva. Emoção e tristeza não tem necessariamente que caminharem juntas, aliás, ela faz um par bem mais bacana com a alegria, penso eu aqui do alto do meu arremedo filosófico sentimental.

Já que falamos em emoção, nada mais sutilmente oportuno do que ilustrar esse palavrório com uma imagem de um coração, que carrega em si toda a emoção e só por coincidência traz muitíssimo bem alojadas essas cores de combinação incrível, com a estrela solitária mais linda do mundo ao centro, que também por acaso enfeita a minha cama.

O acaso também emociona, né não? Despeço-me antes de proferir outra cafonice em forma de frase.


Então, inté... E tal.


Atenção

Essa vida contém cenas explícitas de tédio

Nos intervalos da emoção

Atenção

Quem não gostar que conte outra,

encontre, corra atrás,

enfrente, tente, invente
sua própria versão

Aqui não tem segunda sessão

(Alice Ruiz)


sexta-feira, 24 de maio de 2013

DEZ_CONSIDERAÇÕES SOBRE QUASE NADA (texto chatão)


A Bolsa Família não acabou, não rasgou, não se escafedeu. Foi um boatão daqueles. O povo todo foi pra fila do banco. Com bolsa é comodismo, parasitismo, esquisitismo. Sem bolsa é exploração de quem paga dez tostões pra ter alguém lambendo o chão da sua casa. Tem jeito esse país?

Um pedação do povo está revoltoso por causa do casamento gay. No que isso implica na vida do povo mesmo? Se o sujeito não é gay, se ele não pretende se casar com um gay, onde está o problema? Eu proponho a seguinte campanha: SE VOCÊ É CONTRA O CASAMENTO GAY, NÃO SE CASE COM UM.

Os moços da Câmara Federal esses dias trabalharam que só! Vararam a noite na tentativa de votar um projeto que eu não compreendi direito, porque eu quase sempre descompreendo e estavam exauridos da maratona. Oh, dó! Há em mim a esperança de que eles acostumem a conjugar o verbo trabalhar e o façam ao menos duas vezes por semana. Oremos.

Vem acontecendo na minha cidade, a incrível capital do agreste alagoano, um enlouquecido pisca-pisca fora de época e com pausas de “apaga-acende” bastante fora do padrão. Numa noite a energia elétrica funciona perfeitamente, na outra, deu-se a escuridão. É preciso avisar à prefeitura que ainda não mudaram a época do Natal e falta muito para dezembro chegar. Parem já essa piscaria da pohha!

Eu agora me acho uma pessoa melhor porque, em menos de uma semana de faculdade distante, adicionei as palavras andragogia e heutagogia ao meu vocabulário. Sério que você não conhece tais e lindas palavras? Nossa, pessoa, como você é iletrado (a). Só lamento.

Nos sites das notícias mais importantes eu leio: Sheron Stone é vista sem nenhuma maquiagem. Que coisa, heim? Agora as guerras cessam, tudo para. Vamos maquiar a Sheron! Sou do tempo em que as pessoas se preocupavam com os mascarados, agora a falta de máscara é o que chama a atenção. Enquanto isso, o mundo morre cada dia um pouquinho...

O Neymar... Ah, o Neymar! Recusou-se hoje pelo seu passe cerca de cinquenta e dois milhões de euros, mô bem! Dinheiro demais para duas pernas tão magrelas que nem vem jogando isso tudo, né não? Contabilizassem o tempo em que ele fica deitado em campo ou ajeitando o topete que nem é mais tão topetudo, reduziria tanto esse valor que até o ASA da minha cidade arranjaria uns trocados para contratá-lo.

Se você tem um amigo gordinho ou gordão, ao presenciá-lo comendo aquelas coisas deliciosas e absurdamente calóricas, evite o comentário: “isso engorda, sabia?”... Acredite, a pessoa com fartura de fofura sabe até a quantidade de água que o faz engordar. Seja um “magro de ruim” agradável e deixe o gordinho se lascar à vontade. Só aconselhando.

A pessoa (que não sou eu) posta uma despretensiosa imagem do Chaves,  o amigo da Chiquinha e não o venezuelano amigo do Lula, na sua página facebokeana e isso desencadeia dois quilômetros de palavreado acerca da verdadeira intenção por trás do personagem, da nuance política nas vestes do Chapolin Colorado, e etéteceteras. Conclusão: não se pode mais ser frívolo e porra-louca à vontade nesse mundo de semirevoltosos de mouse e teclado em punho.

Despertar. Tomar banho, café e coragem. Todo dia ela faz tudo sempre igual. Daqui a pouco é esse todo dia outra vez, cheio de aperreio e eu nem lhe dou tanto ouvidos. Mas ele grita. Então chega de frivolidades por esta noite de pouca lua. Que venham logo as luas cheias e alvoroçadas. Durmamos, sonhemos. Amém! 

E se foi ontem foi dia de se praticar o abracionismo, dia bom que só, lê essa belezura:

6/6

Abraço é quando
Há braços se entrelaçando
Dois corpos num mesmo lugar
Sintonia, se entonando


Contesto o contexto
Da distância, entre tu e eu,
Faço construção de texto
Já que não moro,
Nem namoro
O abraço teu


Dia do abraço
Via do Eu te amasso
Mas já que não moro
Nem namoro o teu carinho
Nostalgia, no Hoje, eu faço...


Dia seis não se repete,
Mês seis divorciou
Só é eterno quando é terno
Teu abraço eternizou

terça-feira, 21 de maio de 2013

CLICHÊ À MEIA NOITE



Queria poesia bonita pra dizer tudo o que a amizade merece escutar, mas não colhi nada a não ser um bocado de verso murcho. Desimporta. Falar de amizade não tem hora e nem lugar, nem precisa ser o verso mais aprumado na erudição. Por que, por si só, é palavra linda demais, forte demais. Não tanto pelas letras que a rabiscam, mas pelo tanto de mundo que cabe dentro dela. Mundão sem porta nem parede, mundão livre das amarras e acordos pré-estabelecidos. É preciso apenas um encontro de duas existências e duas doses de boa vontade e pronto, deu-se o nascimento de uma relação que se for bem cuidada, pode durar até o fim raiar. Eu gosto demais dessa prática. Eu seria um imenso espaço físico, mas plena de vazio, não fosse a condição de estar amiga quando o dia nem amanheceu, e também mais tarde quando for um sol alegre e dourado. E mesmo nas horas do céu apresentar mormaço e nuvem cinza, tenha-se por perto um só par de olhos amigos, se fará claridade. Um bocado de riso; o cuidado extremado; o “bater de frente”, pra ser melhor caminhar do lado; a liberdade pra se ser imperfeito e ainda assim amado; canção de saudade;  poesia de afeto; remendar o erro; repartir acertos; colecionar lembranças; assoprar das dores; um bem querer sem fim... Amizadear é conjugação boa que só!





 E falando em amizade, prática das mais bonitas de se viver, pedi pro Camello cantar essa canção para Rafaela, que de amizade entende tudinho, que acabou de ficar mais velha hoje, que já é ontem, e ela não curte muito isso de envelhecer. Com aquele riso baiano, solto e lindo, envelhece tão cedo não. Rafaela, morena, menina, que adora dizer assim: “Mil, amo tu que só”... Bendito seja o dia em que os deuses da amizade nos deixaram na mesma sala daquele curso chato, menina arigó!


sábado, 18 de maio de 2013

MÚSCULO



Tolo e vadio
menino indolente
esse tal sujeito, coração
Mora num canto grande
do lado esquerdo do peito
o músculo involuntário
da canção

Afeito a delírios e sonhos
suspeito de crimes de amor
jura inocência
suplica paixão
se fere de morte
desfaz-se em pedaços
rubro, teimoso, refaz-se urgente
e afoito, ignora a ilusão


insano
imperfeito
inteiro ou não
do começo do dia
até a última hora
inconsequente
e valente
coração


quinta-feira, 16 de maio de 2013

NOTÍCIAS E RETRATOS



Finda a noite com uma chuva boa e dessa vez sem pequenas cachoeiras invasoras dos dormires alheios. Chove lá fora e eu querendo brotar palavras. Tem vezes de ser assim, querer parir, mas cadê gestação? Então se inventa rabiscos. Se comenta o frívolo.

Na TV a notícia do dia é a tal convocação da seleção brasileira, aquela que fará parar o país em dias de jogos na copa do mundo (amém) e todos permitirão o saltitar dos corações (exceto o meu, que descalcei as chuteiras da pátria há tempos). Será lindo. Não sei como farão para esconder as comunidades que de comunitárias pouca coisa apresentam. Ideia genial seria pintar todas as casinhas de branco e lá do alto dos aviões europeus daria uma impressão das casinhas bonitinhas das ilhas gregas. E se alegrariam da ausência de feiura urbana do Brasil.

Reparem, parem, atentem! Sou praticamente uma seita, tenho duzentos e noventa e nove seguidores e isso é massa! Qualquer pessoa normal esperaria para propagar essa nobre conquista quando atingisse o número trezentos, mas eu não sou chegada a exatidões ou coisinhas arrumadas por demais. O incompleto oferece mais possibilidades de descobertas... Ou não. É que já passa da meia noite e meus devaneios já não me dizem coisa com coisa.

Falando semissério, nunca pensei ver tanta gente aqui, embora a maioria pendure os retratos na parede e partam sem deixar sinal. Há quem venha sem dizer palavra e isso me soa estranho. Blogs são cantos de se falar, de se deixar impressão da leitura ou apreciação de qualquer arte. Gentileza não gera gentileza se você não deixa rastro e a pessoa não tem como o encontrar para saber se foi com a sua cara escrivinhadora.

Um bocado de anos e ainda não me cansei daqui. Espero não cansar, porque gosto de praticar a arte da besteira, esmiuçá-la ao extremo. Então umas pessoas vem e dizem coisas tão bacanas e isso me aguça uma vaidadezinha, porque sou filha do Criador, mas ainda cheia de pecados. Adoro mesmo é quando dizem ter rido comigo (riram de mim, seus arigós amados?), porque é como se tivéssemos conversado de pertinho e me dissesem: “deixe de ser besta, Milene”, no que eu imediatamente responderia: “E a pessoa pode nascer de novo?”...

O telejornal acabou. Agora tirei os meus fones de ouvido e posso esperar pra ver o que tem no Jô. Por que telejornal é coisa pra deprimir o sujeito. Por que se tem a impressão do mundo ser ainda mais feio do que é de fato. Arruma-se todo jeito de tragédia e as pessoas dizem “oh, que tristeza”, pra esperarem, curiosas, as feiuras mundanas de amanhã. Eu preferia os tempos de leitura de jornal velho...

Ah, o TV também contou que o Curintxa não perdeu, mas se lascou. Poxa, é uma gente tão simpática e desprovida de arrogância. Estou solidária... Tá, estou semiconsternada. Assim me torno uma pessoa mais bacana?

Eu devo ir dormir. Quem inventou que é preciso disputar com o galo a hora mais cedo de acordar, pra se ser um cidadão decente? Por que as coisas, todas elas, não podem começar a funcionar às dez da manhã? Pra quê essa ligeireza toda de funcionalidade? Sigo desentendendo e procurando pra ver se meu bom humor caiu embaixo da cama, ao acordar.

Antes de ir, eu vos peço: Visitem esse menino bom de letra. Ele agora até tem um canto do seguidor no blog dele, coisa que antes não havia porque ele não tinha lá muita intimidade com o blogger. Arigozinho mais amado. O Alfabeto Numérico dele é massa.

A ilustração foi a Margoh que me deixou, na página do Face. Eu sou alegre! E se puderem dizer, com absurda espontaneidade, que meu layout está assim, lindíssimo e elegante, eu direi o quão são generosos e fofos.

Fui-me! 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

ESMIUÇANDO A BURAQUEIRA



Passado o frisson do que foi aquele show pra mim, é hora da palavra mais séria e revolucionária. Eu falaria da vontade de um atentado terrorista contra a buraqueira, mas meu irmão Geovane falou assim: “não fala em terrorismo no seu blog não, nem de brincadeira”... Então tá, falo não. É mesmo uma brincadeirinha muito da sem noção, tomando um tema tão sério e meu irmão sabe das coisas.

É que as pohhas dos buracos estavam lá no meio do caminho, de um lado, do outro também e isso me tira do sério. Por que sou uma pessoa séria que só!  Na semana que antecedeu o evento, liguei pra empresa organizadora a fim de saber sobre essas questões tolas de acessibilidade, e tal. Por que o anúncio citava as meias entradas inclusive para os portadores de insignificância especial, o que fez acender  a luzinha da esperança de que o local acomodasse a todos confortavelmente. A moça disse assim: “mas o acesso às cadeiras laterais não dá para cadeirantes não, porque tem uma rampa, mas tem também uns degraus”... Eu questionei porque o anúncio dava e depois roubava o doce das nossas bocas famintas por facilidade de locomoção, ela não soube responder.

A menos que a cadeira do especial possuísse asas, além de rodas, chegar ao destino irresponsavelmente a ele oferecido, seria impossível. Quanto a mim, parte de uma categoria sequer existente, rejeitado até pelo world, os muletantes, resolvi arriscar. O que seriam uns reles degraus se eu estaria em êxtase musical logo em seguida?

Mas, os medonhos buracos sussurraram no melhor estilo Chapolim Colorado: “não contavam com nossa astúcia”... Não mesmo! Tinham a circunferência de buraco de campo de golfe. Provavelmente servem para escoar a água do local, no caso de muita chuva, já que o terreno está em concreto. Um pé ali não cabe, as rodas do cadeirante também não. Para quê placas, então? Por que outra categoria, além dos normais e especiais empurrados, não haveria de ter, essa deve ter sido a estúpida lógica de quem teve a ideia de organizar a buraqueira.

Eu acho tão lindo isso de se inventar palavra bonita para não traumatizar a pessoa. Não chamem o idoso de velho e continuem a não parar os ônibus para eles, porque é prejuízo para as empresas, afinal, o idoso que é velho não paga mísero centavo. O cego agora tem outro nome, comprido que só, mas continua tropeçando nas calçadas desalinhadas. O cadeirante merece todas as honras da lei, mas uma rampa decente pra trafegar, que é bom, cadê?

Chamem-me de deficiente, se eu ganhar um trauma por me dizerem tamanha verdade, agarro uns recortes de revista e saio por aí remodelando coisas alheias, num momento terapia ocupacional, mas me deem o direito de caminhar, dentro dos meus limites, para onde eu bem quiser, sem o temor de escorregar aqui e ali, ou ser engolida por um buraco metido à besta. As nomenclaturas cheias de frescura eu dispenso, fofa e semiloira.

Mas, sigamos acreditando numa sociedade aonde as leis existirão, mas o respeito e a empatia estarão tão em prática, que as leis serão guardadas apenas para casos extremos. Seremos inteligentes e bons. Usaremos de racionalidade amorosa, uns para com os outros, desimportando como seja cada aparência. Oremos.




POR QUE DJAVANEAR É BOM QUE SÓ!



sábado, 11 de maio de 2013

NO MEIO DO CAMINHO HAVIA UM BURACO




Em frente ao ginásio um amontoado de carros e gentes, tornando lentos os movimentos, com suas pressas desmedidas. Daqui a pouco, bastando caminhar alguns metros, haveria magia num palco.  E eu estaria lá para ser testemunha apaixonada de cada verso cantado em tons de perfeição.

Tudo se encaminhando na mais absoluta normalidade, não fosse o buraco estrategicamente colocado para demonstração prática do que é inacessibilidade. Buracos numa espessura média de uma bola de golfe, engolidores de muletas desavisadas, conduzindo sua portadora ao chão, de joelhos, pedindo perdão nem se sabe a quem. Foi uma paixão avassaladora do maldito buraco pela pobrezinha da muleta, conduzindo eu, a Terezinha da hora, ao chão. Mas não existe Terezinha sem três cavalheiros a acudi-la, não é? Meu irmão Jean aflito de um lado, um moço desconhecido do outro e quando eu pensava não conseguir, um segurança me pegou de jeito pela cintura e pronto, era hora de ignorar o buraco e pensar no que havia me feito viajar mais de cem quilômetros até aquele local.

Era chegada a hora. As luzes no palco denunciavam o que eu jamais acreditei presenciar. Aquele sujeito magrinho, de tripinha no cabelo e transbordante em carisma era o mito, o poeta, o cara que embalou meus pensamentos por toda a minha vida. Meu joelho esqueceu-se de continuar me incomodando. Eu chorava um choro alegre. Eu ria um riso infantil. Eu estava incrédula e feliz à beça. Meu irmão, Marlene – a cunhada, Moisés que não é o profeta nem o poeta – e a sua querida Débora, se colocaram desconfortáveis apenas para me possibilitar a famigerada acessibilidade. Desconfio que essa palavra infame deva estar entre as mais odiadas por mim em instantes bem próximos. E não fosse por mim, aproveitaria cada migalha daquele show por eles, pelos olhares de cuidado e amor. É só cercada de gente assim que eu sei viver... e é tão bom.

E o show... Não sei o que posso dizer para desenhar a maravilha na medida exata. Eu não o aplaudi como fez todo o ginásio. Eu não gritei eufórica. Eu apenas imergi naquele mar de poesia e deixei fluir lágrimas alegres que molhavam o meu riso. Era o Djavan ali, ao alcance dos meus olhos incrédulos. Eu fui. Eu vi e ouvi. Principalmente, eu senti. E foi coisa pra não esquecer nunca mais, mesmo sem ter havido Pétala, ainda assim ouvir o ginásio inteiro cantando feito fosse um só, um bocado das suas canções, foi coisa de não se saber contar direito.

No final de tudo, era preciso fazer o caminho de volta até fora do ginásio, reparando na buraqueira sem freio. Pensei no quão injusta e irônica é a vida, que dificulta tanto pro sujeito acertar números da loteria a fim de fazer mais fácil o seu dia-a-dia, mas, num chão grande daqueles, acertar num buraco mequetrefes daquele foi de tanta facilidade. E o segurança moreno, não tão alto, bonito e sensual, nem estava mais lá para me abraçar e perguntar se eu estava carente. Oh, vida!

Não sei se é Sol ou chuva que chega daqui a pouco. Sei apenas que vou dormir sem dar muita importância a joelho arranhado ou dor sem jeito que carrego no ombro. Tivesse eu de frente pro buraco, tentaria ajustar as contas. Diria algo que o inundasse de remorso para todo o sempre e nunca mais ele engoliria muletas de ninguém. Mas eu vou assim, leve e tentando digerir "as borboletas no meu estômago", feito disse o meu amigo Itallo, cuja frase acabei de furtar.

No meio do caminho havia um buraco... mas eu to tão feliz que nem me importo.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

O MENINO QUE ERA VELHO




O menino que era velho gostava de desenhar o mundo conforme a boniteza do seu sentimento. Tinha amor demais no peito enorme do menino e ele não gostava de guardar só para si. Era semear o que queria. Era apontar para onde doía o mundo e dizer que, se fosse grande o querer, a ferida que também era grande, devagarzinho ia se fechando. O mundo gostava que o menino fosse assim, ficava mais alegre e leve, acreditando que se fosse um bocado os meninos que nem aquele, não haveria de lhe doer ferida nenhuma. Só amor haveria de ter. E o vento tirando pra dançar as folhas secas. E ternura, muita ternura. E o menino rabiscando no chão do mar uns pedaços do pensamento bonito dele, feito acarinhasse o mundo, que era grande e sentia dor. Todo dia o menino que era velho cantava, feliz, a canção de curar o mundo. 


domingo, 5 de maio de 2013

FAÇA SEU CORAÇÃO PARAR DE CHORAR



Recolham seus lenços. Não se trata de discorrer aqui sobre assuntos chorosos, amores despedaçados ou outros etecéteras. É apenas o título de uma música, a minha escolhida para o dia de hoje a fim de escutar até o disco arranhar na vitrola... Se ainda eu tivesse uma vitrola.

Sou meio retardatária pra essa coisa de música. Quando ninguém mais quer, vou lá e busco para melodiarem os meus dias. É certo que música é atemporal, uma vez nascida, não há como esmigalhá-la em mil notinhas fragmentadas. Ainda bem... Ou não. Por que quando a canção é daquelas a despertar sensações bacanas, viva! Quando não, é preciso paciência para esperar a dita cuja voltar para o sarcófago musical de onde jamais deveria ter escapulido.

Minha tolerância musical é imensa. E não digo isso para causar pensamento do tipo “olha como ela é fofa e meiga”, de jeito nenhum! É apenas preguiça de ser. Por que há tanto nessa vida para se preocupar e reclamar, vou lá perder meu tempo discutindo com o sujeito porque ele se acaba na música ruim? Meu lema é que, se a companhia é prazerosa, qualquer trilha sonora há de valer a pena... Quer dizer, peraí, Latino não porque aí já é tortura. Sejamos compreensivos, portanto.

Dia desses eu estava na escola e uma colega de trabalho prestou atenção no que rolava no meu pendrive. Ela se espantou por eu estar escutando Jau, meu muso baiano, e disse: “to espantada de você estar ouvindo esses ‘pagodes’, porque seu gosto musical é refinado”... Judiou! Primeiro, chamou Jau, meu afro-lindezo, de pagodeiro. Segundo, tolinha, se soubesse que eu sou adoro batucar na mesa ao som de um pagode, ou um samba de raiz, olhando pros lados e vendo um bocado de gente boa na minha companhia. E nesse dia, no meu banho, me vi num momento de absurdo lirismo, enquanto me banhava a água generosa, ouvi de minha própria voz a seguinte pérola: “fui num pagode na casa do gago, e o rango demorou sair, acenava pra ele, ele fez qui-qui-qui, qui-qui-qui, guentaí”... Isso não é coisa pra se dizer a ninguém, nem ao padre no confessionário, eu sei. Mas eu precisava dividir essa mácula com todo mundo, contando com a condescendência musical de todos.

O mundo é grande e cabe nele um bocado de coisas. Cabe gosto pra tudo, do bom e do ruim. E o que pode ser bom pra mim, pro outro é uma ruindade só e há pertinência no inverso das opiniões. E no mundo, que é grande, há de caber o que eu gosto e acho bom, o que ele gosta e eu acho chato que só! E há de se ter boa convivência ainda assim, porque de complexidade besta esse mundo, que é grande, já está transbordante.

Metade do domingo já foi embora e se foi levando quase nada. O Sol, que também é grande e gosta de estar por aqui, insinua que há mais boniteza quando se está do lado de fora, mesmo quando o lado de dentro é confortável e supostamente seguro. Então vou lá, ver o que há do lado de fora do domingo. Só ainda não sei que trilha musical escolher para além das horas. O pagode do gago não sei a letra toda, quando ele começa a gaguejar me confunde e deu-se o esquecimento.

Me sugere o quê, você?

Enquanto isso, enquanto sinto, enquanto penso, num inglês desesperado, desconstruído, sigo cantando Stop Crying Your Heart Out, dos moços do Oasis, que um dia alardearam ser muito melhores que os meninos de Liverpool e ganharam o ódio mortal dos beatlemaníacos.

Não se discute com loucos. Melhor apenas ouvi-los.

Se aviem, pessoas. O domingo carrega as horas. O Sol daqui a pouco cochila e você, e você? E eu? Quem sabe?

 Inté!




sexta-feira, 3 de maio de 2013

SEMIPALAVRAS



Lê, amor, é o meu canto de despedida para o nosso breve imbróglio amoroso. Brindemos às semipalavras paridas da minha boca e da tua, por línguas e mãos varrendo alvoroçadamente esquinas e becos de nós, numa indescritível confusão de sentidos. Semipalavras mentidas que, quando tudo era romance e perfume, foi o nosso alimento e água, o ópio a nos manter insanos e um. Olha, amor, lê! Poemas rabiscados na pele, em traços vermelhos e tortos, em linhas inventadas quando negaceávamos felizes, as juras de sermos o pedaço desencontrado um do outro. Semipalavras. Ruidosas lembranças. Pequenos fragmentos de um amor que sequer chegou a ser.