sábado, 24 de agosto de 2013

CAMINHANTE

Gostava de se sentar, todas as tardes ao cair do Sol, na velha cadeira de balanço que ringia ao sentir o peso do seu corpo exausto. Postava-se ali a espiar o quadro oferecido pela janela de tintura gasta, fiel na missão de lhe mostrar o lado de fora, o lado de lá.

Um livro na mão. Uma xícara de café bem forte sobre a mesinha. Um paiol de pensamentos rabugentos, inquirindo-a por respostas às perguntas das quais sempre tentava escapulir. Mas as perguntas dos próprios pensamentos são as mais persistentes, ela sabia. Não poderia fugir por tanto tempo.

Entre um gole de café e um verso lido, invariavelmente seu olhar fitava, pela janela, a estrada que parecia não ter fim. Várias vezes caminhou naquela estrada sem precisão de levantar da cadeira velha e balançante. Deixava-se ir em pensamento, na tola esperança de encontrar, entre árvores bonitas e arbustos sem graça, o que há muito habitava canto amoroso da sua memória.

Das saudades ela não tinha medo. Das saudades sentia gratidão pelo que passou e foi bom. Por que do feio e ruim não guardava retrato. E tinha vezes de querer o que outrora foi bom, quem outrora se deixou ficar por um pedaço de tempo e da memória, onde os retratos tem a pintura mais bonita, não se vão nunca.

Da solidão ela também não tinha medo e nem tentava se esquivar feito um gato escapulindo da água. Por que a solidão, ela pensava, nunca vinha pra se demorar muito tempo. A solidão é bicho arredio e exagerado no querer, não gosta de gente alegre que não se importa se em algum pedaço da estrada sem fim, é preciso caminhar sem companhia se não da própria sombra.

Voltou seu olhar para os versos do livro pousado sobre as pernas, bebeu um gole de café e desejou que o amanhã lhe oferecesse mais retratos bonitos pra guardar na memória, pros dias em que vigiasse, pela janela, o caminho sem fim.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O BEIJO DO SOL







Me fazia falta o Sol beijando o meu rosto pela manhã. Por que em horas parecidas eu estaria dormindo ou então o céu estaria num cinza de pouco charme. Na calçada eu era beijada pelo Sol enquanto esperava a carona para cumprir mais um dia de trabalho. Nascemos, todos, apenas para cumprir isso e aquilo?

Deixemos para depois as questões filosóficas, porque o meu ser preguiçoso se recusa a buscar determinadas certezas. Quantas são as certezas que nos cercam? Nem sei, mas talvez eu até goste de uma prosa com quem possa ter essa resposta. 

Então, enquanto Jean, o meu irmão, não surgia e eu namorava o Sol, um moço sorridente montado em uma bicicleta parou na calçada, imediatamente me estendendo a mão, dizendo um simpático “há quanto tempo, te reconheci de longe”... Há justiça nessa história? A gordinha de ontem, que continua gortinha de hoje, as inseparáveis muletas... Como não reconhecê-la? Enquanto isso eu penava para lembrar de onde o conhecia, qual o seu nome, será que éramos amigos do tipo inseparáveis e eu o havia deletado da memória?

Emendei perguntas clichês no estilo “que bom te rever”, quando a pergunta desejada seria “nos conhecemos mesmo de onde e de quando?”, enquanto ouvia dele algumas respostas que me serviriam como pista. “E a madrinha, ainda mora no mesmo lugar?”... “Como vai o Jean?”... E de repente, para me salvar da completa ingratidão com a minha infância, surge a irmã do moço semiestranho, a quem conheço das mesmas distâncias, com quem casualmente trombo vez ou outra. Memória recuperada, amém!

Minha memória não costuma deletar importâncias, ela só gosta de adormecê-las um tanto, para reavivá-las quando for preciso e bom. E de repente aquele moço do sorriso grande, que também se chama Jean, já não me era um completo estranho. Os Jeans se reviram e seguimos, cada um, nosso curso cotidiano. “Tem gente que tem um sorriso acolhedor, né? Já faz a gente gostar”... Perguntou-me o Jean, o meu anjo mais velho. 

É, tem, ainda, um bocado de gente que sorri e tudo é Sol beijando a gente... 



domingo, 11 de agosto de 2013

O NAMORADOR DE SONHOS

Maria Clara ontem disse: “vai postar pro Vô amanhã? Todo ano você posta e a titia chora, e a mãinha chora”... Eu não estava na “vibe” de postar nada, como diria a carioquice da minha amiga Simone, de quem ando com saudade de palavrear, porque “meu bem, saudade é pra quem tem”, diz assim a canção.

Pois então, estava a espiar os dizeres de amor paterno alheio, uns tão bonitos, outros mais que tão bonitos. De pais alheios que eu conheci, outros eu adoraria ter conhecido... E quando me vem o Itallo, aquele meu amigo de quem tanto digo e me fala assim no inbox do Facebook: “Feliz dia dos pais pro seu pai, que tá forrozando com Dominguinhos e Gonzaga lá no céu, aquela música que lembra o filho Anselmo”...

Poxa! É assim que se desmantela o coração semiforte de uma pessoa, pessoas! Emudeci por uns instantes e as lágrimas vieram sem que eu as convidasse. Por que quase nunca choro pelo meu pai. Na maioria das vezes sorrio lembrando das engraçadices dele, até quando estava de mau humor. Aqui dentro mora uma saudade alegre que só, mas é saudade do mesmo jeito. É vontade de saber como ele estaria vendo esse bocado de menino correndo dentro de casa, em gritos eufóricos de inocência, atrapalhando a novela ou o jornal das oito horas. Sorriria, certamente.

Essa história do Anselmo, na canção do Gonzaga, eu contei pro Itallo faz um tempo e não imaginei que ele ainda lembraria. No último São João que ele passou com a gente, sentado à beira da fogueira na calçada de casa, quando Gonzaga cantava a sua “Karolina com K”,  toda vez que ouvia a palavra Ansermo meu pai sorria e espiava pro Anselmo dele, que estava ali à sua frente. Eram muitas as limitações físicas e emocionais impostas pelo implacável AVC que lhe sugava aos pouquinhos a vida e vê-lo sorrindo tão genuinamente é um retrato que eu jamais apaguei da memória.

O meu choro breve e intenso de hoje foi especialmente por ter o meu pai retratado de forma tão bonita e poética aos olhos e coração de quem não o conheceu a não ser pelas histórias que eu conto. Isso dele ter sido tão querido e ainda hoje instigar admiração em quem não conviveu com ele me entorpece de orgulho.  Certamente ele e o Itallo teriam conversas incríveis na calçada lá de casa, enquanto rolava um som qualquer que não fosse “ia-ia-ia-iô-iô-iô Salvador” e a fumaça do seu cigarro se espalhasse pelos ares da Mooca.


Meu pai, sujeito imperfeito. Sujeito valente que só! Namorador dos sonhos. Uma espécie de poeta sem único verso, a não ser a própria vida que foi uma poesia, oras densa, oras cheia de lirismo e verso involuntário. Um homem que dos tantos netos, quatro carregam o seu nome, só pode ter sido pra além de bacana, né não?A sensação que sinto ao me lembrar dele nesse instante, é de que os meus amigos que não o conheceram, se tivessem oportunidade de meia prosa com ele, diriam: “ seu pai é massa, Milene!”

Cuide bem do pai que é seu... Um beijo!


sábado, 10 de agosto de 2013

ENQUANTO GIRAM OS PONTEIROS


Gosto muito das poesias de amor que moram nos livros ou as que vão morar numa canção. Eternizam-se de qualquer maneira, que massa! "Meu amor, foi tanto amor, que eu quis que fosse eterno até morrer", é o que canta e me emociona a Monique Kessous. Talvez esse meu gostar em demasia se dê porque eu jamais seria capaz de dizer o amor assim tão intensamente... Ou senti-lo. Sentiria? Sentirei? Quem haverá de saber, se os ponteiros do relógio caminham sem dar a menor ousadia para esse meu alvoroço sentimental? Mas, atente, o que denomino ‘alvoroço sentimental’ não implica dizer que há morando cá dentro de mim um amor qualquer, amor maior, amor forte e demasiado que só! É que eu, feito você, feito o sujeito que habita o lugar mais longínquo do planeta, sou composta dessas substâncias estranhas e causadoras da movimentação sentimental. E por vezes a sensação da sentimentalidade é tanta que nem eu nem você sabemos direito o que fazer com ela. O mais racional seria esperar passar, feito uma ventania breve, embora forte? Quanta tolice! Desde quando essa ebulição permite o adequado emprego da razão? Sentimentos são senhores de si, entram e saem quando bem lhes convém e pouco se importam com a fervura que provocam. O sujeito sentimentalizado que dê jeito na sua questão, que trate de agir com um tanto de bom senso e não se deixe morrer... Por que segundo diz o poeta, e poetas sabem como ninguém das coisas do amor, “melhor mesmo é morrer de amor e continuar vivendo”. Enquanto giram os ponteiros e os sentires, alimentarei o corpo, pois do meio dia já se passou mais de uma hora. Um beijo!


Arapiraca, tarde friazinha de sábado, aos dez dias do mês oito.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

OS DEDOS DA CENTOPEIA


“Latumia do bute” era o que vovó exclamaria diante de tantas coisices acontecidas dias sim e em outros também, nessa vida que para jamais.

Pois hoje eu me surpreendi, e não sei porque ainda me surpreendo, com uma notícia telemostrada depois do meio dia. Dizia que na assembleia legislativa do Distrito Federal foi aprovada uma lei que garante a quem denuncia crime de desvio de verba pública dez por cento da quantia recuperada.

Oxente, rapaz! Não compreendo essa necessidade de nesse país ser preciso pagar pra tudo, inclusive pra se agir corretamente. Não seria obrigação do cidadão denunciar qualquer coisa comprovadamente torta, sob o ponto de vista da legalidade? Devo receber pra praticar de honestidade? Talvez seja uma percepção um tanto radical da minha pessoa injuriada. Talvez isso seja legítimo e acabe estimulando o sujeito a contar o que viu nos porões da gestão pública... A mim, porém, soará pra sempre estranho isso de se receber uma ‘gorgeta’ por se cumprir o papel de filho da Pátria lascada de tanta roubalheira.

Deixemos para lá essas questões toda vida confusas do desmantelado cotidiano político nacional. Falemos, pois, das centopeias e seus incontáveis dedos. Eis aí uma questão mais  filosófica do que científica, de extrema importância. Terão dedos os mais de cem pés da centopeia? E se sim, quantos serão os dedos? Responda-me se for capaz, rapaz! Eu brinquei usei o bichinho multipernas numa frase no Facebook, tomada pela vontade de ironizar as pessoas que se orgulham de ter pouquíssimos amigos verdadeiros, os quais se dá pra contar em meio dedo. É um tal de externar mágoa disso, mágoa daquilo, que verdadeiramente me instiga vontade de uma voadora verbal.

Então surgem os clichês das redes sociais, das pessoas vestidas em armadura de ferro contra qualquer possibilidade de sorrir por medo que o outro já lhe apunhale um sorriso de volta. “Amigos de verdade eu conto nos dedos”... Pelo menos vinte amigos ela pode ter, né? Já é bacaninha. Então eu postei que “amigos de verdade eu conto nos dedos das minhas cinco centopeias”... Brincadeirinha, óbvio. Eu demoraria mais tempo contanto todas as perninhas do bicho, do que dizendo amigos por aí. E eu os digo. E eu gosto. E se depois não for? Ah, melhor quase ter sido do que eu ter fechado abruptamente a porta da possibilidade.

Palavras terminadas para essa noite semifria, vestirei meu moletom surrado e camisa do vereador que não desviou verba pública, porque senão eu o denunciava e receberia um carinho remunerado de volta, e dormirei a noite da justa. Brincadeirinha! Já pensou se Santo Antonio resolve aparecer por aqui justamente hoje, tendo essa ideia da visão do inferno? Nunca mais ele manda um imprestável pra eu chamar de meu.


Sonhemos, pessoas, sonhemos... Deixemos que a noite se deite, silenciosa e observadora, sobre os nossos telhados e corpos. E a amanhã.... Amanhã? Outro dia pra não se deixar a vida seguir por aí sozinha. Vamos nós, vamos sim.

sábado, 3 de agosto de 2013

DA MAIS CONCRETA ABSTRAÇÃO


Não importa as tantas vezes que esmiuçaram o amor e o espremeram versos, e o cantaram em desbotados clichês. É meu desejo dissertá-lo neste instante, dizer palavras repetidas e tolas em torno do que já se sabe... Ou jamais se saberá.

Pois bem. Que coisa sentida é essa que leva o sujeito do paraíso ao mais iminente abismo, numa viagem ligeira? Que poeta ou antropólogo, que músico ou psicólogo tem peito pra dizer que encontrou a perfeita definição sobre ele, o rei dos sentimentos, cumprindo mandato vitalício num regime de governo absolutista? O amor é isso, ou é aquilo também? O amor se basta em meias palavras?

Eu gosto de espreitar o “amar” alheio. Por que amar é muito além do que se vê. E senti-lo, também, é algo que transcende a compreensão dos tolos viventes metidos a espertos. Amar é morar numa casa cujas paredes mudam de cor mediante a condição sentimental da criatura que o comporta.

Nessa morada de paredes vermelhas e brancas, rosas e azuis em nuances bem vivas, se revezariam em estadias curtas ou demoradas, hóspedes como: cumplicidade, sofrimento, amizade, solidão, sexo, perdão, humor, entrega, carinho, desejo, prazer, atenção, ternura, saudade, dor, escolha, encanto, cor, alegria, paz, intensidade, ar... Tudo isso pedindo abrigo no mesmo músculo pulsante? Tudo isso e um bocado de outras possibilidades. O amor é bonito, bobo, guloso, distraído, bestão... Mas ele também é bonzinho e inclui, protege, sente, doa.

O amor é um doido varrido. Um completo fingido. O amor não pede licença, se há brecha, é invasor descarado dos solos desabitados por outrem da sua espécie. É cara de pau, é bem à prova do mal? É concretude e abstração, tudo misturado, tudo se completando num incompreensível e sublime elo sentimental, o qual ainda não se fez equação exata do porquê, nem pra quê.

Amor, então, é isso?

Ou não.


As palavras e frases em negrito foram extraídas 
de uma pesquisa de suma importância feita por mim, 
antropóloga amorosa instantânea, com uma população de doze viventes 
acerca de como os seus sentidos percebem o amor.
 Itallo, Rafaela, Cida, Aquiles, Denise Pinheiro, Ellen, 
Rafa Oliveira, Cristiano, Denise Araújo, Eder, Rodolfo e Tony, 
necessariamente nessa ordem, obrigada pelo papo amoroso.