quarta-feira, 30 de outubro de 2013

JOÃO E EU

João propôs que fizéssemos qualquer produção textual em cinco minutos, sobre um tema da minha escolha. Cinco minutos seria o tempo da produção, e mais de meia hora demorei eu pra escolher sobre o que rabiscar. Mandei: “Solidão É Coisa Pra não Doer”. Ele aprovou e sem mais mandou ver na contagem regressiva.Já disse, repito aos quatro ventos solitários: Sou fã! Brincar de dizer, é massa.Consegui uma meia dúzia de palavras e olha só o que esse homem fez nesse tempo miúdo:


Solidão é coisa meio aumentativa
em que não encontro muita solidez
coisa que sem amo presente cativa
e que deveria ir-se de uma vez

Com seus recordares tolos, pífios, ternos
que de corno podem se tornar canção
lá pr'onde quiser, pros quintos dos infernos
vai perturbar outro, vai, comigo não

Só me encontro agora noutra madrugada
me jogo num mundo virtual sem ver
que de solidão eu não entendo é nada
solidão é coisa, em mim, de não doer


(João Esteves)




Ter a solidão fazendo morada dentro de si, não é preciso ser coisa de fazer o sujeito padecer de tanta tristeza. Tem vezes de até ser boa companhia, a fulana famosa por ser má e indesejada. Há momentos, por exemplo, de se querer e carecer estar consigo mesmo, avaliando o vivido, reconstruindo retratos, planejando passos em outras direções a fim de dizer a ela que pode ir, porque estar só, sozinho, a esmo, de braços dados com a própria sombra, do agora por diante é bonito só na poesia.


(Milene Lima)


domingo, 27 de outubro de 2013

EU VEJO ESPERANÇA NO RISO AMARELO



Há esperança no riso amarelo. É, no mínimo, premissa de que pode virar um riso frouxo de um instante pra outro, com um bocado de motivação pra continuar aquilo a que chamamos vida. Por que viver é muito além de tolamente dar conta de uma existência a qual fomos presenteados. Viver é agigantar os sentidos, atentar para as minúcias do “ao redor”... e além dos arredores de nós, também. E das minúcias dos arredores o riso é dos mais gratificantes e balsâmicos. Rir de tudo. Rir bem alto. Rir até doer o estômago. Até todo mundo em volta parar o que está fazendo para tentar entender do que ri a pessoa descontrolada. Rir um riso largo, um riso livre. Rir nem que seja um riso amarelo, que ainda nem sabe de si direito, mas já sente o bem que faz a quem o compartilha. Eu vejo esperança no riso amarelo porque, embora apresente uma espécie de icterícia emocional, é riso se negando a minguar e se há coisa boa de proliferação é riso pintado de cor qualquer. E na alma brotando um miúdo pé de riso, há de se ver florescer numa ligeireza de tempo, alegria que só. Pois, então, viva a vida e o riso amarelo, branco, lilás, azul da cor do mar, verde vivinho feito esperança... Viva!


sábado, 19 de outubro de 2013

DAS DORES AO RISO AMARELO


Eu vos conto: o choro do Miguel, porque agora inventou de estranhar, é a coisa mais bonitinha desse mundo. Um beicinho fofo, uma cara de dengo, aí desata a chorar um choro de quem pergunta o que está fazendo ali, no colo de quem quer que seja. A mãe fala que é manha e acusa a nós todos de estragar o menino. Eu falo que é só lindeza. Daqui a meio minuto está o sacaninha a sorrir e pular, fazendo berrar a minha tendinite ‘ombral’... E quem lá quer saber de dor no ombro quando se tem o beiço choroso e o riso de colorir o mundo, do Miguel a pinotar no colo? Eu que não quero. As crianças do meu antigamente não vinham com uma pilha tão poderosa não senhor.

Eu vos conto também: o Daniel é meu sobrinho torto, filho do meu primo e todo dia me chama, na linguagem encantadora dos bebês, pela janela do meu quarto, que dá no quintal dele. E depois faz a mãe o levar aonde sabe que estou; e me abraça tão apertado; e eu espalmo a mão e digo “bate”, ele espalma a mãozinha na minha e diz: “pá”! E quando pergunto “cadê o Botafogo” ele corre pra abraçar a almofada de coração alvinegro sobre a minha cama. E quando falo “bora dançar” ele ergue as duas mãos pro alto e se joga na sonzeira. Tenho pra mim que estou estragando os ensinamentos assembleianos da criança com a minha maloqueirice. E esses dias foi o choro dele quem eu ouvi e não é bom não. Pois as bactérias, malvadas que só, causaram uma infecção na criança que não sorria, não comia, só chorava e sentia dor. E eu? De quase chorar nem queria espiar pra ele. E nessas horas só me reforça a ideia de que ser mãe é profissão da qual eu não ia saber mesmo dar conta.

Eu vos conto outra vez: não é uma ruindade só saber do amigo chorando e não lhe restar nada a fazer a não ser esticar o braço até não poder mais, dizendo “a bagaceira pode estar feia que nem o cão, mas vou estar por perto”? O amigo diz assim: “você é um anjo que Deus colocou em minha vida”. Eu penso que a gente pode ser anjo porque o amigo é anjo da gente também. Isso de amizade sem querer reciprocidade é coisa bonita que só, de se dizer, mas na prática a gente quer ser gostado. E não acredito muito na doação unilateral, aí vira um troço estranho, meio bajulativo, que pode ter qualquer nomenclatura, menos amizade. Mas, voltando ao xis da equação de primeiro grau, porque de segunda eu não aprendi, o choro do amigo dói na gente. Por que há ferida imensurável por trás, latejando e fazendo questão de esconder o dia de ir embora. Mas não há dor que venha de morada definitiva, não é?

Tendo vos contado, tendo achado bonito o beicinho choroso do Miguel. Tendo ficado contente porque o Daniel já melhorou um bocado. Tendo conseguido extrair um valiosíssimo riso amarelo do meu amigo, traduzido num único “K”, dormirei. Por que logo chega a manhã, com a primavera ensolarando logo cedo a minha janela, dizendo que a vida me espera lá fora. Preguiçosamente, atenderei ao chamado.

Que seja alegre, leve e esperançosa, pra semana inteira, pra um bocado de amanhãs, a vida pra nóis tudo.




sábado, 12 de outubro de 2013

PRA ONDE FOI QUEM ESTAVA?

Sou descombinada de ausências, tenho uma certeza libriana disso. Sou feita de partículas de saudades, essa é outra quase certeza. Quando nem me dou conta, quando espicho o olhar pro meu redor, cadê o que havia? Cadê quem estava?

Quem estava foi embora. Ou a gente foi embora e deixou pra trás quem um bocado de significância. Nessa hora não é tão importante saber se o tal biscoito é fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é fresquinho. O fato e não dito é que as coisas que a gente pensava estar a salvo numa eternidade bonita, esvaiu-se em lonjuras e estranhezas.

O bonito nessa hora é vestir-se de maturidade e compreensão, aceitando a impossibilidade de se pedir garantias do gostar alheio e permitindo que o alheio apenas siga as setas que escolher, mesmo que a gente fique um tanto perdido no caminho, porque se acostumou com a mão sempre estendida do outro lado da estrada. Dá-se a isso o nome de nobreza?

Gestos nobres são bacanas, mas não há como fazê-los do abraço pra fora. É preciso ser sentido e doado com uma veracidade inquestionável. E isso de apenas sorrir saudades optou por seguir outras setas eu ainda não tirei boa nota. Seja, talvez, uma espécie de presunção que se tornou frustração. A pessoa (eu) se achava tão incrível que não ousava supor que a vida de outrem pudesse ter, sem ela, a mesma desmesura de alegria. Por que a pessoa também não conseguia mensurar a vida caminhando sem as mesmas palavras e afeto de antes, de quando desmedir o riso e lamber o choro era parte de um acordo absolutamente involuntário e massa.

A sensação é de que a vida desacorda os sentires do outro dia, seguindo esses cursos inevitáveis. E a gente espera por um tempo, na tentativa infantil de que tudo retorne aos velhos retratos, até que de tanto esperar, tudo vira desimportância...







domingo, 6 de outubro de 2013

POR QUEM OS GRILOS CANTAM

Da série “EU SÓ QUERIA ENTENDER”: Quando uma pessoa diz gostar mais de bicho do que de gente, ela se odeia e está num treinamento intensivo para se tornar uma coruja, um rinoceronte... um grilo? Só pra saber...

Enquanto cito os grilos, ao meu redor eles saltitam felizes e destrambelhados. E cantam. E como irritam com esse canto tosco. Pensa-se seriamente em mudar o nome da cidade para Aragrilo, ou Grilolândia, porque por aqui os sujeitinhos estão se sentindo bem à vontade, não sei se uma espécie de praga do Egito com efeito retardatário, mas eles estão de fato insuportáveis. Uma noite dessas levantei na madrugada para tentar um acordo com uns cantadores embaixo da minha cama. Mandei a real pro bicho: “Caramba, a pessoa tem que dormir pra trabalhar direito amanhã. Para com essa cantoria desafinada e irritante”. Me olhou com cara de desdém o cantor e seguiu na serenata.  Eu, injuriada, chamei a polícia... ops! Chamei o chinelo. Estou me especializando na arte de exterminadora de grilos.

Isabella pergunta: “Vó, grilo é de Deus?“. A vó, minha mãe, responde: “Sim, filha. Não mate os bichinhos não”... Não consigo mensurar um céu cheio de grilos saltitantes e cantadores, roendo as nuvenzinhas. Tenho cá comigo a impressão de que Deus ficaria um tempo num SPA celestial.

Querendo uma praga de bombons. Querendo, só...

Além de grilos, o shopping recém inaugurado na cidade é pauta para toda conversa e resenha. E o povo a me perguntar: “e o shopping, Milene?”. Da minha vontade, responderia: “tá lá”. Por que essa sangria desatada para conhecer o templo do consumismo, se dinheiro que é bom, me falta? A menos que o prédio tenha sido construído por dois dos três porquinhos, que não fez conta do concreto, não há porque tanta ligeireza na visita, porque há de se soprar um bocado sem que as paredes desmaiem. É o que esperamos, todos.

Agora Arapiraca está uma belezura de evoluída. Não pelos grilos, mas pelo shopping que carrega o nome do motel mais famoso da cidade. Minha irmã disse que será a desculpa perfeita para as pessoas puladoras de cerca chegarem em casa dizendo que estavam no Garden... o shopping, não o motel. Pra ficar tipo uma coisa estupenda só falta mesmo um pedaço de mar. Custava inventarem um canal feito querem fazer com o Chicão, o rio e não o papa? Lá do litoral Sul dava pra cavar um túnel e desembocar água salgada até o agreste e aí, que maravilha seria o mar fazendo fronteira com o sertão. Ideia massa, né não?

Vou-me, agora, porque ainda há muita noite para se ouvir o canto odiento dos grilos. Se ao menos fossem coloridos feito as borboletas, eu os caçaria para colecionar. Como não o são, melhor que se vão de imediato para o além-grilos.

Sem conexão nenhuma com grilos, shoppings ou motéis, a imagem é só pra enfeitar meus arremedos de palavra fingindo serem versos...


Vamos ter uma semana boa que só, não vamos? Beijos!