sábado, 30 de novembro de 2013

SUTILMENTE



No outro lado da rua, na igreja evangélica, crianças entoam, ainda que meio desafinadas, uma canção para Deus.

Afora o fato de não se tratar de um coral profissional, em tratando de criança, não há como desconsiderar a pureza dessa atitude. Elas cantam, as meninas, com uma força bonita, de que só os miúdos são capazes.

Isso me remete à sutileza, porque hoje, especialmente e sem ter muita explicação, era de sutileza a minha precisão. Da fino trato nas relações. Da ausência do cenho franzido ao menor sinal de contrariedade. Da leveza, da leveza!

As crianças ainda cantam e eu me lembro de quando essa igreja abriu suas portas lá no outro lado da minha rua. Armada com um bom punhado de preconceito, imaginei que viveria dias de imensa chatice com a cantoria desenfreada nas suas dependências. Surgiu-me, inclusive, a impraticável ideia de confeccionar um cartaz pra quando a barulheira se fizesse maior, que diria assim: “ATENÇÃO, GRITEM MAIS BAIXO, POIS EU NÃO SOU SURDO. ALÉM DO MAIS, A MILENE ESTÁ VENDO A NOVELA. ASSINADO: DEUS”.

Obviamente se tratou de mais uma brincadeira dessa que se acha a personificação do palhaço Arrelia. Eu jamais o faria, mas já me precavi de intolerância antes mesmo de começarem as aleluias.

A igreja, seus cantos, seus fiéis entusiasmados, não me causam mal algum. Seguem por lá sua cantoria e pregação. Eu sigo por cá no meu desencontro de fé. Cada um no caminho que é o seu. Cada um mudando a rota quando lhe for aguçada a vontade.

As crianças cantam e eu me lembro do menino da escola, história já contada por aí, quando me veio dar o nome para uma solicitada declaração. Quando já saía da secretaria, deu meia volta só para dizer: “semana que vem o meu nome vai crescer, é que meu pai vai me assumir”... Fui a única testemunha do dito, que nem pude retrucar nada porque o pequeno saiu em desembestada carreira pra sua sala de aula. Pouco depois, contando o fato para duas colegas, éramos três mulheres com os olhos marejados e o coração enternecido. É dessa sutileza a que me refiro. É de se importar e se enternecer. É de saber que o gigantismo do mundo, no fundo, se não formos um espiando o outro, é coisa que vai prestar cada dia menos.

E hoje o meu Miguel, que é da minha irmã, que é da família toda, faz seis meses de vida. Ou fará amanhã, simbolicamente, porque o dia certo mesmo seria um trinta e um inexistente em novembro. Ele sorri e é poesia. Miguel tem o olhar do amor. Miguel nos aceitou como sendo a família dele e tem sido, todos os dias, a coisa mais linda do mundo ser parte da vidinha dele.

É da leveza e do amor. É da sutileza que deve existir, um bocado, dentro da gente. É de sentir e se permitir engrandecer o coração.  É de tanta coisa...

É sábado e o sol ainda bate à minha janela pra me fazer lembrar e ver, que o caminho é um só.





sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O MARCENEIRO


Mais de um mês havia se passado da partida do pai e ainda misturava suas lembranças recentes com as antigas, de quando era menino e todo dia abraçava a liberdade entre árvores daquele quintal.

Como se o tempo tivesse voltado naquele instante em que se mantinha prostrado na velha marcenaria e pudesse ouvir seu Nestor gritando pro menino lhe trazer um copo d’água misturada, porque gelada demais ele não gostava não. Descia ligeiro do pneu velho amarrado numa corda, pendurado na mangueira generosa, e corria a fim de atender ao pedido do pai. Era sujeito pacato o seu Nestor, de fala sossegada, mas de olhar firme que só. Não gostava que lhe fizessem desaforo, os meninos. Se dava uma ordem, tava dado e era pra ser cumprido no exato instante.

 “Você não é um homem de bem se não respeita quem a vivência é maior que a sua”. Não tinha noção de quantas vezes havia escutado essa frase. Foi bom aluno nesse ensinamento de respeitar os mais velhos e não discutir, mesmo quando achasse que não tinham razão, Tadeu, o menino.

A marcenaria desativada, onde permanecia imóvel enquanto suas lembranças iam de cá pra lá feito tivessem no balanço de pneu velho, era a menina dos olhos do Seu Nestor. Foi de lá que tirou o sustento da família e se não deu pra viver com luxo, pelo menos um bocado de comida nunca lhes faltou. A semana inteira era dedicada à fabricação de móveis simples, mas de tanto esmero no seu feitio que encantava. E na segunda feira lá ia o seu Nestor, com a sua caminhonete levando banquinhos, cadeiras, mesinhas e sonhos, pra vender na feira livre da cidade, onde todo mundo já sabia do seu trabalho cheio de minúcia.

Havia também as encomendas dos arredores, clientes antigos que traziam novas pessoas, que gostavam do estilo “antigo” dos móveis do seu Nestor. E assim ele seguia, na melodia das máquinas, só parando pra almoçar e uma merendinha aqui e acolá, sob os mimos de Dona Helena, cujo doce de mamão com coco não se sabia melhor no mundo.

O tempo fez entristecer o olhar de seu Nestor. Muitas lojas de móveis na cidade, as pessoas gostavam da praticidade dos novos estabelecimentos e se esqueciam da feira... E se esqueciam de Seu Nestor. O maquinário apresentava problema em tempo cada vez mais próximo e se a renda não era mais a mesma, não tinha como tirar comida do prato pra alimentar máquina nenhuma.

Os filhos, já crescidos e senhores de si, diziam pro pai que era sua hora de descansar e a eles caberia a missão de prover a casa. A um homem como seu Nestor, que não sabia ser senão um trabalhador de toda a vida era o mesmo que dizer “o senhor está velho e desnecessário”.

Minguou até acolher a doença, o seu Nestor. Engraçou-se do seu corpo um AVC feroz que lhe roubou os movimentos do lado direito e desse jeito, então, muito pior ficou para fazer as máquinas cumprirem o seu comando. Na marcenaria, onde moravam os seus sonhos, só aparecia quando empurrado na cadeira de rodas, que agora pretendia ser extensão do seu corpo semidormido. Vez ou outra cochichava ao ouvido de Tadeu, na sua fala embaralhada, que seria bom ficar uma meia horinha por lá, nem que fosse pra sentir o cheiro do pó de serra.

Nem o pó de serra, nem o cheiro. Por lá só havia lembranças. Tadeu sabia que o pai remoía supostos fracassos e isso o mortificava. Embora pouco pudesse fazer para amenizar a melancolia do seu velho, de todas as maneiras tentava mostrar a ele que jamais estaria sozinho.

Foram alguns anos de morte lenta. O corpo vagarosamente desistia até sucumbir de vez. Chorou-se a morte de um homem valente, que trabalhou vida e sonhos. Que lutou até o limite do improvável para não ser tragado pela modernidade gulosa, que engole os que não se adequam às suas urgências.

Ali, de pé em meio ao que o tempo não correu de maquinário, Tadeu relembra o pai com uma saudade bonita e orgulhosa. Chorou uma lágrima, suspirou intensamente e fez seus pés se moverem de onde pareciam aterrados. Precisava ir. Os novos donos esperavam na porteira da chácara, onde lhes entregaria as chaves.


A estrada ficando pra trás. A poeira embaçando a paisagem. No pensamento outro ensinamento do pai, que sempre dizia: “meu filho, há sempre um amanhã esperando pra mostrar um Sol mais brilhante”.


domingo, 17 de novembro de 2013

OS POBRES MOÇOS E O BANHO FRIO


“Presos do mensalão farão três refeições por dia e tomarão banho frio”... Li tal notícia há uns instantes e senti um pesar imenso. Que vida difícil terão esses pobres (?) moços se alimentando com aquelas lavagens penitenciárias e batendo no couro com banhos geladões. Só que não, né?

Primeiro que banho frio não mata vivente nenhum. Segundo e não menos importante, se até os “reeducandos” mais comuns tem privilégios que nós aqui fora sequer desconfiamos, calcule o que esses moços, pobres moços mensaleiros, terão.

Eles também serão chamados de reeducandos, né? Aprenderão nos limites da prisão a compreenderem que não se pode querer para si o mundo inteiro. Que as leis atingem até os que se consideram acima dela. Que quando se passa a vida pregando contra a corrupção, isso implica em trabalhar contra ela e não na tentativa de conceituar a dita cuja como uma coisa ainda mais fétida e imensurável.

Por que eu, quando um dia tive ideologia, bati palma pra esses caras. E quando os ouvia numa entrevista qualquer, eu agradecia intimamente pela suas existências, porque assim nós, o povo, não estaríamos tão desamparados. E ingenuamente eu pensava que a democracia podia ser algo usado sim em benefício do bem comum e não como uma espécie de serra elétrica a derrubar tudo quando é madeira de lei a fim de guardar a madeira derrubada e rica, toda no próprio quintal.

E então esse bando de filho da puta concretizou o sonho de uma gente crédula feito eu e tratou logo de iniciar o desmatamento ideológico alheio. Era tanto dinheiro para malocar que eles escolheram os lugares mais bizarros. 

E se perderam na própria monstruosidade. Estão enjaulados não se sabe por quanto tempo, porque as leis brasileiras tem bom coração. Mas dá uma vontade de abraçar o Quincas, beijá-lo na face e agradecer por nos ter lavado um pouco a alma.

E se for assim, se a moda pega e tudo quando for corrupção tiver o mesmo tratamento, se não importarem as bandeiras, porque a lama é apartidária e definitivamente não é privilégio da flâmula vermelha e única estrela, quem sabe seja possível voltar a acreditar no jeito que se der a esse país.

Por aqui eu sigo tentando fazer o meu papel. Sou cidadã decente. Seguirei tentando dar ao meu voto o destino menos infeliz possível, mas meu grito é mudo. Meu braço já não tem mais força pra erguer bandeira nenhuma a não ser a da decência, que anda em desuso nos campos da democracia. Eu não tenho partido. Eu desacredito nos regimes políticos. Por que por trás de tudo isso está o homem, sua ambição e vaidade, que se sobrepõe sempre a quaisquer interesses populares.

E para os picos de pressão do genuinamente mensaleiro, o cara de pau que se diz preso político, receita melhor não há do que uma madrugada fria numa fila do SUS, pra quando chegar de manhã nem conseguir ficha pra ser atendido. 

Foi há muito tempo, mataram minha ideologia e ela vem sendo minuciosamente esquartejada.




quinta-feira, 14 de novembro de 2013

DUETO


Combinaram, a noite e ela, de juntas pintarem no escuro do céu uma poesia a encantar quem avistasse da maior lonjura. A noite, a própria, representaria o vivo dos versos: meia lua prateada, meia lua escura; estrelas, um bocado delas, que nem tanto brilho vestiam, mas eram de alegrar o manto negro do céu. A ela cabia organizar rimas óbvias dos elementos todos... Dos sentimentos todos: Então a lua num segundo estava nua; o céu, romântico, derramava o seu véu; e havia o baile das estrelas, meninas dançarinas... A noite pensava que merecia versos mais rebuscados, numa impecável métrica do seu acontecimento, mas se apiedou do estado de confusão emocional em que se encontrava a sua parceira de desalinhados poemas e apenas sorriu. Pode, então, da noite se extrair um riso? Se não por motivos mais eruditos, só por beijar toda a gente com um largo inimaginável sorriso, pariu a noite, por si só, um poema. 


terça-feira, 5 de novembro de 2013

POEMINHA DO MEIO DIA (Abraçadorismo)



Ando desconfiada que você
Ainda cabe direitinho
Assim, no meu abraço inteiro
Seja novembro ou fevereiro
Dia de bruxa ou
Véspera de carnaval

Escandalosamente fora do sutil
Essa minha desconfiança
Por que, pelo que me consta
Pelo que me vaga à lembrança
Quando você chegou, em noite de lua qualquer,
Era pra nunca mais nessa vida
Poder me desabraçar

Abraço é coisa pra se dar e ficar pra sempre dado
Por que fica o abraçado
Gostado, guardado, contente
Um tanto de frio não sente na pele ou coração

E se a pessoa sente algum canto doendo
Nessa hora de abraçar
Até mesmo o dolorido fica meio constrangido
E deixa num canto o doente
Morando num abraço quente
Pro tempo bom que durar

Pois é de toda certeza
Como dois e dois é conta redonda
Que meu abraço, pobrezinho, que vileza!
Chora de ser sozinho
Por que no seu pensamento
Não há de ter contentamento
De vida sem abraçar


sábado, 2 de novembro de 2013

NO PAÍS DO MEU AMIGO

O país do meu amigo está doente. Quer dizer, as pessoas no país do meu amigo estão adoecendo a sua própria terra. É de se ter maturidade e compreender que cada país tem seus problemas e tentam lidar com eles da forma mais conveniente possível.

Assim sendo, percebo que me faltará maturidade para esse entendimento até o meu último suspiro. Não compreendo as guerras. Jamais as compreenderei. O propósito maior desses encontros desamorosos é contar os cadáveres depois das batalhas e quem conseguiu derrubar o maior número de corpos é vencedor. É claro, jamais vi uma guerra de perto e me baseio para esse comentário infantil nos filmes sobre o tema.

Vão-se lá, atacam numa fingida justificativa de defender nem se sabe direito o quê e pronto, os poucos homens sobrevividos voltam para suas casas, quando lhes resta casas, de bandeira em punho inventando uma alegria desajeitada.

Mas na terra do meu amigo é diferente. O valente vingador dos filmes, defensor do povo, se contrapondo a toda espécie de desumanidade, não se sabe onde habita. Na terra do meu amigo o povo está acuado, esperando a guerra que dá sinais mais evidentes a cada dia e não há para onde correr.

O governo, que pela lógica das coisas era pra estar guardando o povo sob as suas asas protetoras, faz vista cega e ouvidos moucos. Quer garantir o seu lado, o poder, e só. Os justiceiros desenham um jeito torto de praticar a sua justiça. Atiram a esmo. Atacam inocentes. Sequestram. Lutam para tirar do poder um governo que não funciona, para assumirem então os comandos, de um país sem povo?

Nos filmes eles seriam os heróis. Nos filmes tudo acabaria bem, embora com sequelas e chagas a demorarem de cura.

E lá naquele prédio, na tal sala da justiça mundial, o que fazem os homens? Por que se calam? Decerto não haverá na terra do meu amigo, no sul da África, à beira do Oceano Índico, riqueza natural suficiente que justifique uma intromissãozinha dos donos do mundo. “Eles que lá o hajam com as suas picuinhas caseiras”, devem pensar.

Bendita vida real onde bandidos e mocinhos se misturam tudo numa coisa desarranjada só!




O melhor de Moçambique são os camponeses que embalam à pressa os seus haveres para fugirem das balas. O melhor de Moçambique são os que, mesmo não tendo dinheiro, pagam subornos para não serem incomodados por agentes da ordem cuja única autoridade nasce da arrogância.
(...)
Os melhores de Moçambique não precisam de grandes discursos para acreditarem numa pátria onde se possa viver sem medo, sem guerra, sem mentira e sem ódio. Precisam, sim, de acções claras que eliminem o crime e a corrupção. Porque a par deste galardão que distingue o melhor de Moçambique há um outro galardão, invisível mas permanente, que premeia o pior de Moçambique. Todos os dias, o pior de Moçambique é premiado pela impunidade, pela cumplicidade e pelo silêncio.

(Mia Couto)



Que fiquem bem, o meu amigo e toda a gente do seu país.