quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O CORCUNDA

O homem corcunda, de barba branca e vestido em trapos semi sujos caminhava a passos ligeiros em direção ao banheiro do supermercado. Muitos minutos depois saiu do banheiro em direção à drogaria, em que chegaria andando uns poucos passos. A moça, sentada nas cadeiras de espera, observava tudo enquanto se fazia perguntas às quais nunca obteria respostas. Outros tantos minutos se passaram e o homem corcunda sai da drogaria e espia com olhos de vontade para as duas cadeiras ladeando a moça observadora, mas é no chão o que resolve acocorar-se a fim de esperar não se sabe o quê. A moça grita: “ei, moço, venha sentar aqui, tem lugar, tá vendo?”... Ele se levanta com dificuldades e se põe à sua direita, enquanto esboça umas palavras mal expressadas para justificar porque se poria no chão. Decerto supôs que o seu aspecto pouco fora dos padrões não seria recebido com um sorriso acolhedor. O homem corcunda entende bem de seres humanos e suas regras de bonita e limpa convivência. A moça tem vontade de perguntar onde ele mora, mas teme ouvir na resposta que ele não mora, apenas perambula por aí feito tantos outros homens invisíveis aos olhos da civilização. A moça, caso ouvisse tal resposta, sentiria pena da situação do homem corcunda, mas seguiria sua vida ajeitada apesar de tal sentimento. Mantém-se os dois num silêncio perguntador até que é hora da moça ir embora... as fartas compras para os festejos haviam sido concluídas. “Vá com Deus”, diz o homem corcunda, num misto de gratidão e compaixão pela moça de muletas. “Fique com Deus o senhor também”, responde ela, desejando intensamente que Deus encontre tempo na sua agenda celestial para livrar de um bocado de dores , frios e fomes, o homem que carrega nas costas uma bagagem sofrida.  


sábado, 21 de dezembro de 2013

OBVIEDADES


Há pouco via uma matéria num programa esportivo sobre um sujeito colecionador de camisas esportivas dos mais variados clubes do mundão afora. Uau! Que tudo!

A questão é que tenho certa dificuldade de compreender esse “tudo”. O sujeito coleciona... e daí? E depois? Por que ele não usa as camisas preciosas, ele apenas as pendura num cabide e as aprisiona num relicário qualquer e pronto, é lá que elas passam a viver feito um tesouro de valor inestimável. Então vez ou outra ele as visita e as admira, admira mais um tanto e pronto, esse é o tesão da questão.

Meu irmão, quando fomos adolescentes, guardava no seu quarto uma caixinha com várias canetas. Era o pequeno relicário dele. Eu tinha dó das bichinhas que viviam ali sem água e comida e vez ou outra lhes concedia liberdade provisória... sem que ele sequer imaginasse, é claro. Por que o destino delas eu já sabia: morrerem cheias de tinta ressecada, sem servir pra escrever mísera carta de amor. Vejam bem, não estou querendo justificar o furto das canetas do relicário alheio, apenas ressaltando que sou uma pessoa boa e tentei livrá-las do cativeiro canetário.

Mas eu não sou assim tão intolerante a ponto de torcer para as traças visitarem as vinte e cinco camisas do Pelé, que constam do tesouro do moço. Não sou tão má assim. Até pelos alpinistas nutro certa simpatia, vejam só! Por que antes eu não compreendia a necessidade deles subirem as montanhas mais altas só pra fincar uma bandeira lá em cima e depois darem meia volta e pronto. Que é vantagem quando conseguem descer e só perder um dedinho aqui, outro acolá, na esperança de fazer brotar pé de alpinista na vegetação das montanhas geladas. Pior mesmo é quando não conseguem descer e pra lá ficam, esculhambando a estrutura de quem cá embaixo não desejou fincar bandeira, mas tem que dar seus pulos pra resgatar o atleta das neves.

É Natal. Devo dizer coisas lindas e altruístas. O mundo precisa é dessas coisas, né não? Vamos nos conscientizar e natalizar, verdadeiramente, oxente. Entre uma compra e outra, nos corredores tumultuados dos shoppings; entre um caixa de chocolate e outra, do amigo doce no trabalho; entre um e outro pedido de desculpas que não tem lá tanta profundidade, o essencialmente massa é natalizar-se. Essa coisa urgente e efêmera de se seguir os ritos inerentes à data, é bonitinho, divertidinho, mas é raso. O mundo - e quando digo “mundo” ele começa aqui dentro de mim, ele envolve os meus pensamentos, sentimentos e atitudes – precisa que eu seja uma pessoa melhor. Se não é isso, se não é assim, o Natal do ano vindouro aparecerá com o mesmo discurso do consumo desenfreado, do peru que se lasca sem dó, da mesa farta pra uns e totalmente vazias pra muitos, dos abraços e choros arrependidos e isso tudo fará ínfima diferença... Eu acho. E sem falar da Simone cantando “então é Natal” ano após ano. Ninguém cala essa mulher???

Lembrei-me agora das orientações para não se usar o “eu acho” num texto discursivo. Ora! Mas tem hora que eu só acho mesmo, tenho certeza de coisa nenhuma. Essa rigidez das leis gramaticais são pra lá de complexas e eu desentendo o porquê dessa complexidade toda. O que é um “o”, além de um simples artigo definido masculino? Não faça essa pergunta à nossa gramática, porque ela lhe dará um milhão de possibilidades. Saudades de quando um “o” era simplesmente... um “o”.

Um beijo. Vou ali plantar uma árvore de Natal no meu quintal concretado. 


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

BEM QUERER





Ele me sorriu bonito, o amigo, do outro lado de lá. Eu também sorri, de cá, feliz com a sua presença ao alcance do meu olhar. Falamos dizeres mútuos. Falamos quereres muitos. Contamos coisas. Cuidamos, eu e ele, da vida um do outro como só os grandes amigos são capazes. Palhaceamos. Fomos alegremente tolos e malcriados. Invocamos sinais do além tecnológico. Falamos sério e tudo. Esmiuçamos o mar e o mundo. Nos preocupamos. Nos acolhemos. E o prometido é que quando houver outra vez, outro encontro, eu verei das suas janelas interligadas, o mar que mora no seu quintal.




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

DIÁRIO DE UM DIA, SORRIA.


“Sorria, você está sendo filmado”... Só faltou essa frase na parede para me dar as boas vindas na sala em que eu trabalho, que desde ontem conta com esse recurso tecnológico, necessário e infame que são as câmeras de segurança.

Quer filmar, filma. Mas exigir de mim que sorria e acene para as câmeras do Big Brother Educação, aí é demais para a minha fragmentada paciência. Estou odiando a sensação. Odiarei por muitas eternidades, eu acho. Eu carrego comigo, desde o mais longínquo ontem, uma vontade absurda de invisibilidade e a ideia de ser permanente vista não me apraz de jeito nenhum. Mas, sigamos o diário de um dia calorento, à base de limonada sem mísero rastro de açúcar.

Já era meio dia quando voltava pra casa, de carona com um dos meus cunhados, e ao abrir a porta do carro para descer, escuto uma voz dizendo “tchau Memem”... Era voz feminina e adolescente, que definitivamente não poderia ser do gentil condutor. Espiei, ligeira, pra trás e lá estavam Maria Clara e Isabella feito duas meliantezinhas na mala do carro, com suas caras mais lisas lançando um sorriso. O caminho da escola até em casa é curto, não se preocupem pessoas, elas não correram perigo. Mas, a adolescente e a pirralha sua irmã me pregaram uma peça e o pai foi conivente. Rimos os quatro e eu constatei que minha irmã pariu duas adoráveis e adoradas palhaças.

Ao atravessar, ou melhor, tentar atravessar a minha desilustre avenida, calculei pessimamente a distância entre os dois carros à direita e o tempo que eu levaria para alcançar a segurança da minha calçada. O carro preto, que passou no quebra-molas numa ligeireza desnecessária, sentiu-se seduzido a me beijar apaixonadamente. E lá vem o carro. E eu estaciono no meio da rua, num grito histérico, enquanto o carro da esquerda também se aproximava. No fim, me senti feito aquelas moças bonitonas, sem a parte da boniteza toda, que fica a bandeirar os grids de largada das corridas automobilística. Ah, faltou a bandeira também. E faltou empatia por parte do motorista do carro preto, que sobrou ao taxista do carro seguinte, parando para que a pessoa louca completasse o percurso sem beijo com cheiro de gasolina.

O dia seguia cabuloso e estranho. Não. Eu oferecia ao dia minha estranheza e parecia resistir bravamente para coisar diferente. Então mais tarde o meu Miguel veio. E quando ele vem eu fico leve. Ele vem cheio de sono e manha, e deita no meu ombro, quietinho. Mas parece saber que preciso daquele sorriso único e especial. Então Maria Clara, a malocada, canta a musiquinha preferida dele (Nesta Rua Tem Um Bosque), e ele ri numa alegria contagiante. É lindo. E logo chega a irmãzinha dele, a Lorena, pra coisa ficar melhor ainda.
Mas hoje, além de tudo, é dia pra se pensar um bocado de coisa bacana. Dos meus amores, há quem aniversarie nesta data querida e pra ela, minha cunhada-amiga-irmã, como ela própria definiu, citarei Cazuza ao dizer: “todo amor que há nessa vida pra você”.

Então agora fui ver Rodolfo lá no Sete Ramos. Rodolfo é pessoa que não dá pra tentar mensurar o que significa a existência dele. Eu teria que me transformar em palavras para uma obra inteira a fim de esmiuçar o tanto de carinho e generosidade mora nesse homem. Eu e a minha estranheza merecíamos um afago para o fim desse dia e por lá encontrei. No Sete Ramos há um poema, há tanto carinho e amizade, há Rodolfo dizendo lindezas para mim. Sinto saudades dos tempos que nos falávamos mais. O eme-esse-ene foi morto e carregou com ele alguns costumes de um cotidiano virtual que me faz falta, faz sim. Ler esse poema me remeteu a essa época onde compartilhávamos tanto, mas não me fez sentir mais amada por ele, porque sei que o elo de bem querer que criamos é pra sempre. Eu tenho um amigo que mora lá em Niterói e um dia qualquer, quem sabe, leremos poesia e tomaremos uma cerveja bem acomodados no seu parque aquático.
Pra câmera vigilante, sequer um aceno.

Pro Miguel, pra Marlene (cunhada), pro Rodolfo, um bocado de beijo, abraço, aperto, amor... tudo. 




sábado, 7 de dezembro de 2013

RESENHANDO

Segundo o Wikipédia, resenha é um texto que serve para apresentar outro texto desconhecido pelo autor. Cá no Nordeste, popularmente, resenha é uma brincadeira que se faz de alguém ou determinada situação. “Fulano de tal fez muita resenha naquela festa”, dizemos. “Cicrano é resenheiro que só”.

Mas bora lá à resenha que interessa. Acho, aliás, de uma responsabilidade ímpar. Vou dar ao leitor o meu olhar sobre o lido? Devo apenas dizer ao leitor, superficialmente, do que se trata o contado? Tudo nunca é uma coisa só, já perceberam? Se assim o fosse, eu não seria louca e o mundo não teria graça.

Enfim. Certo dia, por meios virtuais, a moça me perguntou se eu toparia ler o livro dela, recém finalizado a escrita. Falei que sim, porque essas coisas não se nega a um amigo. Mas falei cabreira, porque conheço o meu bicho preguiçador... Temi desapontá-la como aconteceu em outra situação, com outro escrito, que acabou se perdendo no meu falecido PC. Então fui lendo uma página aqui, outra acolá, e a moça me perguntando o quanto eu já havia lido. “Isso não vai prestar”, pensava eu, num legítimo preguicês literário.

Mas, menino! Quando um dia resolvi levar a sério a leitura, quem disse que consegui mais parar? Já havia passado um bocado de capítulo e a coisa ficara mais e mais interessante. Um crime aqui, outro acolá. Mistério, drama, romance. Eu lia e queria gritar pras pessoas o que acontecia em volta delas. Eu queria bater no sujeito ruim. Eu ansiei pela redenção. Eu que o policial bonitão pedisse transferência pra Arapiraca.

Só sei que uma tarde dessas titia precisou me chamar pra almoçar umas vezes incontáveis, porque eu não sairia da frente dessa computador antes de ver tudo a vida de todos os personagens resolvidos, lá pela página de número duzentos e noventa e dois.

Resenhar eu não sei não senhor, só sei dizer que o livro é massa, a história prende o leitor, e o cabra vai alternando as emoções à medida que lê.

Então, da história que eu tinha lido em arquivo, hoje recebi impresso, cuidadoso e lindo. Camila Monteiro é minha amiga e estou orgulhosa e contente por vê-la realizando seu sonho,o primeiro deles, com o seu O ACUMULADOR DE TROFÉUS. Até fiz fotinha com o livro, com ajuda da Cicinha, daí quando escolhi e perguntei pra ela se tava legal mesmo com essa “papada” (os duzentos queixos”, ela fofamente respondeu: “e vai ter tempo de fazer plástica?”. Amo tanto esses meus amigos gentis.

Leiam a Camila e se envolvam. A sujeitinha é boa nessa coisa de nos fazer arregalar os olhos esperando o que virá.


Um beijo.




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

DOS DIAS ESPECIAIS, E TAL...


Pois não é que hoje é um daqueles dias especiais que só? Coisa que ouvi por acaso que em três de dezembro se comemora o dia do deficiente. Comemorar é força de expressão, né? É no mínimo meio esquisito se comemorar deficiência, penso eu e penso por mim apenas, sem carregar bandeira porque minha tendinite de dor de cotovelo não permite.

Sim, eu sei. Não é dia para comemorar e sim para conscientizar. Gosto dessa coisa conscientizadora de hoje, onde o sujeito é obrigado a engolir a seco o próprio preconceito com o outro que é diferente dele, que tem certa ou muita limitação, que pode esteticamente não ser a coisa mais linda de se ver. Ou você aceita isso com um sorriso nos lábios, meu caro, ou então a lei lhe empurra a tolerância goela adentro. Tudo na mais perfeita correção política, é claro. E disfarçando a nomenclatura, porque adequar a arquitetura é mais caro e dá um trabalho gigantesco.

Eu só sei que cutuquei a solidariedade cristã no Facebook, reclamando da falta de scraps para o dia especial, pois viv’alma não havia me dito um “feliz dia do deficiente”, para eu singelamente mandar se lascar, e coisa e tal. Então os meus queridos lançaram por lá os afagos scrapeiros. São uns lindos, são sim... Sabem quando eu seriamente brinco só pra ganhar dengos. Essa imagem, inclusive, foi um retrato meu depois de uma dieta (sem) massa, que Denise me levou.

Eu não sou de me aproveitar da minha condição para conseguir isso ou aquilo, jamais! E chantagem emocional é coisa que também nunca lanço mão. Na escola, por exemplo, nunquinha falei pra Cicinha coisas como “você vai se negar a pegar um copo dágua para uma pobre deficiente?”... Isso iria contra os meus princípios, meios e fins. E também quando ela ou outra pessoa por descuido deixa minhas pernas adicionais um pouco longe de mim eu não costumo ameaçar de morte ou execração pública, tipo tirando fotos e fazendo postagens com um teor “vejam como o deficiente é subjugado nesse país”. Sou uma pessoa de bom coração.

Acho errado isso de se fazer valer o “status” de deficiente para conseguir benefícios quaisquer. Tá, certa vez eu fui recadastrar o título eleitoral e fiz a moça me atender no carro, com uma cara de choro digna da Regina Duarte no seu auge namoradinha do Brasil, dizendo que caminhar até o local seria dificílimo para alguém como eu, mas foi só um vezinha de nada. Na maioria das vezes eu vou, caminhando e cantando, eu vou.

Agora eu tenho que ir comemorar os poucos minutos do meu dia especialíssimo. Vou-me antes que me apareça outra vez a vagina falante no Facebook. Vocês não souberam? Pois não é que ontem, enquanto fuxicava tranquilamente a vida alheia na página social mais lasqueira da internet, aparece do nada um vaginão escancarado, dizendo “siga-me”? Espantada fiquei eu a ponto de voltar à imagem umas vezes para ter certeza do que de fato se tratava. Era um vaginão botocado, sim senhores. A proprietária da coisa protuberante convidava a todos para segui-la pra onde bem se imagina. Senhor Facebook está passando dos limites oferecendo essa visão duzinferno em plena e singela tarde de primavera. A poesia, cadê? Ao esmiuçarem as redes sociais por aí, muito cuidado, uma vagina pode pular na sua cara... Se bem que os moços não reclamariam da presepada, suponho.

Fui-me!