sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

DA AUSÊNCIA DE UM TÍTULO DECENTE, MELHOR IR DIRETO AO TEXTO


“De repente, num átimo, num salto, eu quis falar de amor. Na verdade eu quis mesmo foi dizer amor, amores... eu quis amar. Me importei menos com o quanto o amor me quis e sucumbi à vontade sair por aí com um imenso cesto derramando amores. Piegas que só! Mas, e daí, se não há bálsamo mais poderoso nesse mundo grande e descombinado? Foi só um espasmo, uma vontade meio doida que de repente, o que é sério não fosse tanto; o que é dor, sarasse a ferida; o que pesa nos ombros e machuca, fosse leve feito folha caindo da árvore pra viajar no vento. “

Foi eu quem escrevi o que guardam as aspas. Era exatamente essa a sensação que senti hoje no meio da tarde, quando uma porção de inquietação embaraçava a minha cabeça. Janeiro chegou meio louco, mal humorado, estranho mesmo. Eu brinquei seriamente que enterraram um sapo no quintal de janeiro, mizifio, e o negócio agora seria desenterra-lo para seguir melhor.

Por que tem vezes de vir assim, coisa sobre coisa e o vivente que se aguente pra dar conta, carregar os fardos com a mesma presteza dos estivadores à beira do mar. E desviar nem funciona, é preciso peitar a coisa esquisita e pronto.

Mas teve um único dia de janeiro que choveu por aqui, onde mora o Sol. Choveu de tarde e chuvas vespertinas tem o poder de me conduzir a um tempo que se foi, sem ter de fato ido, compreende? Tempo que aconteceu mas dá um jeito de ficar num retrato na memória da gente, sendo bom que só.

Tenho memória meio embaçada. Ela é mais de sensações do que visualizações. E tarde chuvosa me dá aquela sensação de meninice alegre, de banho de chuva bem no meio das poças enormes e depois de um banho bom, roupas sequinhas e ficar a postos na calçada, com o Vô, esperando o homem do carrinho de pão passar, porque pela redondeza não havia de passar homem vendendo pão doce melhor. A chuva de verão parecia que sabia exatamente o quanto chover, pra deixar o resto do tempo com aquele friozinho na medida exata pra se poder ficar na calçada vendo passar bem mais gente do que carro.

Depois de muitos “boas tardes”, um bocado de prosa do Vô com quem passava e já era de noitinha, hora de entrar pra tomar café.

Não é que reviver em pensamento um instante dessa meninice vá mudar qualquer coisa do que é agora, é apenas uma sensação de leveza e descompromisso que me acontece e eu gosto que só.

Mas depois... Ah, o depois nem chegou ainda.

Um beijo.


7 comentários:

  1. Milene, essas recordações chegam e ficam o tempo que nos entregarmos e fazem bem, revigoram, mesmo que com saudades! beijos praianos,chica

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  2. Coisa boa assim, dá gosto de lembrar ;)

    Bjus

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  3. Conheço tanto essa inquietação. E entendo muito também. Adorei o que você escreveu nas aspas, assim como a explicação sobre. Lembrar de coisas boas é sempre bom, ainda que muitas vezes venham coisas ruins no pacote das recordações. Beijos e bom fim de semana.

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  4. Oi Mí!
    Que legal ver vc escrever assim tão inspirada!
    A verdade é que temos um monte de recordações vivas, que de vez em quando vem a tona e nos faz sonhar com o que já foi... E se foi bom... Melhor!

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  5. Oi, Milene!
    Acho que memórias são saudáveis na medida em que trazem essa leveza como um sopro de vento no nosso cabelo pesado pelos pensamentos nebulosos...
    Eu não lembro do carrinho do pão, mas lembro da espera do homem vendendo barquilha e batendo a matraca para anunciar sua chegada quando eu estava na casa da minha avó e da minha tia (ambas moravam no mesmo terreno). Ambas já se foram, e como e´bom ter memória para resgatar essa presença...
    Quanto ao amor, não é piegas nem uma vontade de espasmos... é uma necessidade para alimentar nossos sonhos e objetivos.
    Adorei o texto... como sempre!
    Um abraço!

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  6. ...esses retratos fortalecem os instantes.

    teu coração é docinho , docinho.

    lembre de mais coisas Lele.... eu gosto de te ler.

    beij0

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  7. Muito belo seu entre aspas. Nem importam as memórias visuais quando as que envolvem sensações nos abraçam. É como reviver um sentir gostoso e saudoso. Bjs.

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