quinta-feira, 20 de março de 2014

O NOVO SUSPIRO DAS FOLHAS MORTAS



Não me recordo de ter dado uma pausa tão grande entre uma postagem e outra, mas enfim, sucedeu-se desse jeito, sem carecer de maiores assuntamentos. Suceder-se-á daqui pra frente de um jeito que eu desconheço, mas, como diz a linda da Gadu, “deixa estar que o que for pra ser vigora”. Deixa estar.

Outono chegou ligeiro pra assumir as suas funções de síndico do tempo. Tudo agora é por conta dele, se aqui chove pouco, se lá as águas inundam tudo, se acolá faz um frio louco, que se reclame com outono e o coitado há de pagar pelo que não deve.

Era bonito quando as estações cumpriam cada qual o seu papel e pronto, sem maiores invencionices. Era do Outono derrubar as folhas e deixa-las ir por aí, à condução dos ventos, perdendo-se das suas origens, ganhando novos ares e lugares. Ora, mas uma folha quando se desprende da sua árvore mãe, morada, acolhedora, ela é livre e desimpedida de ficar aonde quer que seja. Assim devia acontecer com as pessoas, a prática do desprendimento das suas amarras, a permissão de ir-se por aí, descobrindo um motivo novo para inventar um riso, um suspiro mais intenso, um fôlego mais comprido pra levar a vida que tem horas de ser cabulosa que só.

E isso de “deixar-se ir” não carece necessariamente da pessoa se meter no oco do mundo, sem destino, lenço ou documento. Às vezes basta uma viagenzinha ligeira para dentro de si mesmo, uma espécie de mergulho nos próprios mares e pronto, deu-se a desobstrução dos labirintos internos e quem sabe o fôlego mais comprido apareça pra se demorar.

A verdade é que não é de toda vontade das folhas caírem dos seus lugares confortáveis e se lançarem no desconhecido. A natureza diz que a hora delas passou e agora chegarão outras folhas verdes, viçosas, bonitas que só. Uma espécie de “a fila anda, vaza, fia”... E não resta muito mais a fazer a não ser buscar novos voos, pra depois ajeitar-se num pouso diferente, até que venha o inverno.

9 comentários:

  1. Eu vivo a inventar suspiros ...
    e a desinventá-los também.
    Que leitura agradável você me proporcionou.
    Obrigada.

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  2. Linda reflexão sobre as folhas e sua hora de cair! Lindo OUTONO! bjs,chica

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  3. Eu recordo o tempo em que as estações, pelo menos no sul, tinham características mais definidas. Hoje, tudo pode acontecer a cada dia, e parece que deu a louca no clima!
    Aqui onde eu moro, parece que S. Pedro está economizando água!
    Mas, quanto a essas viagens interiores, elas podem ser mais longas do que o habitual, e às vezes dá até vontade de ficar por lá...
    E servem de inspiração para alguém escrever um belo texto...como este!
    Bjs, Milene!

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  4. Diz-me, folha querida,
    Para onde queres voar.
    Eu, tua brisa preferida,
    Para lá vou te levar...

    Beijos outonais, Miminha.

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  5. Oi, Milene!
    Tão interessante, ainda hoje de manhã eu estava pensando nesse caminhar das estações, que mostram também um pouco das mudanças por qual passamos nós mesmos.
    e com essas estações tão amalucadas, estaremos nós também um pouco destemperados?
    Gosto de sua divagação sobre as folhas secas e soltas ao vento... sim, também assim deveria ser a humanidade. Livre para divagar em si e pela vida, livre para tomar para si as escolhas que, ao contrário do que ensinam, significam mais liberdade do que responsabilidade. Voe e encontre seu pouso, Milene. É lá que irei tomar um café contigo.
    Um abraço!

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  6. Verdade né, as estações não são mais as mesmas... Se enrolaram todas e se confundiram.
    Mesmo assim, aos poucos a natureza vai se transformando né?

    Beijos... adoro seus textos.

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  7. As folhas caem, mas a sua viagem continua, até se desfazerem em húmus. Nem aí param as andanças. A pouco e pouco diluem-se num enorme abraço ao que as rodeia, renovam-se sob novas formas de vida... Nós, contudo, apenas damos atenção às novas folhas que se preparam para nascer. :)
    Sempre boa escrita por aqui, Milene!

    Beijo :)

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  8. Passei pela sua casinha algumas vezes e percebi que estava ausente. Atribuí o fato aos compromissos com estudos, mas senti falta de você.
    Quando a folha cai perde sua origem, seu lar... o domínio de si mesma. Fica ao sabor do vento, sem tristeza. Nosso apego é até compreensível porque o ser humano, quando perdido de suas raízes, costuma perambular carregando o peso da saudade. Bjs.

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  9. Milene, senti sua falta mesmo. Mas às vezes é bom dar um descanso criativo, digamos assim. Mas voltou em grande estilo porque esse texto sobre o outono e as estações do ano em comparação com nossas vidas está magnífico. Muitas vezes somos 'empurrados' pq não temos coragem, assim como a própria natureza que precisa de algo além dela pra mudar. bjssss

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