sábado, 26 de abril de 2014



Bebi dois copos de coragem e parti. Chegando lá eu não soube o que fazer, mal me acomodei e já foi me dando uma gastura de estar. Eu estava fora de onde me sentia segura. Eu estava lá onde chorar não me era permitido. Apenas ser forte me era permitido. Precisava conceber a ideia de sacrifícios caso decidisse continuar por lá, suportando e só. Então eu me lembrei que não queria mais essa coisa de suportar, se não fosse resultar em algo absolutamente recompensador. Eu me lembrei do meu desapaixonamento por coisas que não me causassem um profundo estado de contentamento. Eu queria espiar pra dentro, sorrir alargado e dizer: isso aqui é prazeroso que só. Mas eu não conseguia pensar em nada além de estar insistindo em sacrifício pra chegar num fim de arco-íris cinza sem pote de ouro no final. Então eu voltei antes de chegar direito lá, onde estar era dolorido e já não me causava vontades satisfatórias. Lá, embora fosse uma morada árida, me fazia capaz e valente sob o pensamento de outrem e agora é certo que olhares e falas desconfiadas conduzam dedos apontados e conceitos mal construídos acerca do meu breve regresso. Eu voltei oscilante, taciturna e com os meus próprios dedos em riste, apontados pra minha face sem brilho no espelho. A euforia da hora da partida efemerizou-se e só o descontentamento ecoa. O fastio de ir comanda as minhas poucas vontades e eu me sinto morna. E feia. Eu me posto na janela enquanto a vida, vivida, passa. Eu me ouço engolindo remorsos. Eu me flagro assassinando sonhos. Que Deus não me vomite, amém!


11 comentários:

  1. Uau! Intensa inspiração! Linda e instigante! beijos,chica

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  2. Olá Milene,

    Não sei exatamente o que você quis dizer, mas percebo que é um texto melancólico, de acusação de si própria por não ter sido capaz de violentar-se para 'lá' permanecer. Há lugares que não nos fazem bem e onde não desejamos ir ou ficar, portanto, não sinta remorsos por ter seguido sua vontade e instinto. Para tudo há um tempo certo. Somente 'assassinamos' sonhos que, na verdade, não são mais atraentes e que, no fundo, já não desejamos concretizar.

    Texto escrito com a alma.

    Beijo.

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  3. Minha amiga, vc como sempre, arrasa nos seus escritos! Parabens, vc é a melhor cronista da blogosfera!

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  4. Quem sabe se depois você resolve voltar "lá" e encarar, hein?
    Mas, só quando o astral estiver favorável para sair da tal "zona de conforto"!
    Isto, só você pode decidir!
    Bjs, Milene!

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  5. Era a turma do lampião que estava por lá e fez você voltar? Aqui no Sul, a gente não "costuma" cutucar onça com vara curta nem dar o tiro sem antes ver o tamanho do bicho. Você está no comando, se tiver que dar um passo atrás, volte sem remorsos.
    Abraço.

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  6. Meu tico e teco não compreenderam, mas sentiram...um desabafo doído, inquieto, com tons de irritação e decepção. Será?
    Beijuuss minha Mi_nina

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  7. Onde quer que você vá
    Vá em nosso fuscaflex
    Com um pardal pendurado, coitado,
    No espelho retrovisor
    Sassevasá Inquietude
    Corujinha na janela
    A tristeza na panela.

    E ponho as barbas de molho
    Seja de noite ou de dia
    Mas não sei se adianta
    Fico com cisco no olho
    Pois a minha Poesia
    Anda com nó na garganta.

    Beijo.

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  8. OI MILENE!
    AMIGA, UM TEXTO TÃO INTENSO QUE NÃO SE CONSEGUE PARAR DE LER, O FIZ DE UM FÔLEGO SÓ, DIVINO...
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  9. O texto estava tão bom que eu precisei ler duas vezes, Milene. Na primeira li tudo muito rápido pra chegar logo no fim. Intensidade é o que teve nessa postagem. Intensidade na entrega, nas palavras e no próprio desabafo. bj

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  10. Só tem que exigir seu direito e não deixar seu sonho se esvair no mar dos conformados...
    Lute sempre, não deixe de correr atrás de seus sonhos por causa de gente insensível e burra.
    Beijo

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  11. Lá, será sempre bem alí pra você. De que serveria a alguem um pódio sem alegria? Não combinaria.

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