sábado, 15 de novembro de 2014

A VIDA COMO ELA TAMBÉM PODE SER

Esses dias liguei para um taxista conhecido, precisava dele pra me levar a um novo encontro com agulhas vampirizadoras do meu sangue farto. Minutos depois, sentei no banco da frente do passageiro e qual não foi minha surpresa quando percebi que no banco de trás já haviam duas passageiras... meio constrangido, me pediu desculpas porque achou que eu ia pra casa e assim fosse, daria pra fazer as duas viagens tranquilamente.

Era pra eu dizer que ele não tinha que pensar nada, apenas chegar ao local combinado com passageiro nenhum, simples desse jeito. Mas eu estava com cansada demais depois de trabalhar sob a companhia incessante do calor a manhã inteira e além do mais, aquilo definitivamente não me incomodava. Embora fosse o meu direito de consumidora e eu deveria ter sido mais firme com ele... ainda assim, aquilo não me incomodava.

Acertamos o percurso, ele as deixaria primeiro na Pestalozzi e depois me deixaria no local do exame, no outro lado da cidade. E não, eu não estava de jejum, não chorem. O exame não requeria isso. Foi só depois de ouvir a palavra “Pestalozzi” que atentei para o estado da menina, que pouca coisa balbuciava e o que conseguia, parecia reclamação. Acho que ela também não estava gostando daquele dia quente e enfadonho.

E enquanto o taxi encontrava meios de adequar os desvios para encurtar o trajeto, eu prestava atenção na menina e sua mãe a fim de ver nas minúcias o quão presente estaria o amor naquela relação, ou não. É uma prática que eu gosto nesse cotidiano de todos nós, é espreitar a fim de enxergar fragmentos do amor em mera palavra ou gesto e o bom é que ele gosta de se fazer presente, e isso não é maravilhoso?

“É um sacrifício trazer ela aqui, mas a doutora quer vê-la pra poder dar as receitas. Ela não pode ficar sem remédio, a minha menina”, me disse a mãe, resignada. Eu perguntei a idade dela e perguntaria mais, se a viagem tivesse sido mais comprida e o meu cansaço fosse menor. Mas me ative a observá-las, com meu peito acalentado de perceber ali um tanto de amor muito maior do que qualquer sacrifício que aquela mãe seja obrigada a cumprir a cada dia de cuidados com a sua menina especial, um bebê de onze anos. A mãe calçou as sapatilhas da menina, sempre dizendo palavras carinhosas e pacientes, as duas desceram do carro e as deixamos. E pelo retrovisor eu seguia os seus passos lentos até quando pude.

Quando seguimos, eu e o taxista, como deveria ter sido a viagem desde o início, ele me contava do pai que abandonou as duas e sequer com uma pensão do infeliz podiam contar. “Que filho da puta!”, eu não me contive, para espanto do taxista falador e imediatamente me lembrei da bronca que levaria do meu pai, caso me pudesse escutar.

Findando o dia, já em casa, eu bem mais me lembrava daquelas duas tentando caminhar os dias da maneira mais digna e amorosa possível, e bem menos me recordava que eu precisava ter ralhado com o taxista pela seu pouco zelo profissional. Eu ainda o chamarei quando precisar, quem sabe outro retrato da vida como ela também pode ser, inusitadamente surja sob a minha interesseira observação.



9 comentários:

  1. Oi Milene,
    esse nosso mundão dos sentires é tão baralhado, sem lógica ou justiça é um mundão incrível !
    Capaz de nos fazer sentir uns privilegiados e logo a seguir te fazer cair na maior fossa existencial...
    Só nos resta deixar a vida nos levar como canta o Zeca
    Amei
    . beijo,

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  2. [ pois é calendário que vale pula dias,
    salta meses, e costura em trama rica rubis e fios de amor]

    emocionada Lele.

    gratidão.

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  3. Milene, sério, é incrível sua capacidade de me emocionar. Acredito que temos uma visão sobre a vida muito parecida, essa capacidade de parar e observar as histórias que nos cercam... incrível o que aprendemos nessas miúdas simplicidades da vida. Penso que mulheres como essa, amorosa acima de qualquer adversidade, merece por direito ser muito, muito amada e feliz. Continue espreitando só para nos emocionar depois! Um abraço!

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  4. No mundo de hoje, que é individualista e egoísta. E a vida como ela é... acontece a todo momento. Excelente texto! Te sigo...

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  5. Adorei o texto, Milene. Ou seja, esse imprevisto acabou sendo uma coisa boa no seu dia. E veja só, rendeu essa ótima postagem. bjs e boa semana.

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  6. Uma experiência inusitada para nós ver o táxi já ocupado quando entramos, mas ao final, a causa foi boa. O taxista tem bom coração,mas o pai da menina é mesmo aquilo que o chamaste! bjs, lindo dia, tudo de bom,chica

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  7. É sim, maravilhoso "espreitar a fim de enxergar fragmentos do amor em mera palavra ou gesto e o bom é que ele gosta de se fazer presente". Acaba cansaço, começa reflexão e gratidão pela via que temos né mesmo Mi?!
    Aqui, pode aumentar um cadim as letras? Ajuda a véia aqui!rsrs
    Beijuuss

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  8. Estou muito feliz por te descobrir, parabéns por ser uma garota tão talentosa! ♡

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  9. É como sempre você consegue tirar excelentes histórias do cotidiano.
    Saudades das suas insônias kkkkkk
    Beijocas, Mi! Ainda quero fazer resenha de um livro teu.

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