sábado, 29 de novembro de 2014

A LEMBRANÇA, O RISO E A CANÇÃO


Repare que num vinte e nove de novembro, há dezoito anos exatos, a vó morreu. Justo ela que pra mim era imortal, assim dizia o meu sentimento egoísta, assim eu pensei quando ela estava pronta pra ir a Maceió se submeter a uma cirurgia pra tentar combater um câncer na garganta e eu não a abracei a fim de lhe dizer o quanto a amava. Pra mim ela iria até ali ao mercado e já voltaria... Morrer estava absolutamente fora de cogitação.

Mas, foi mesmo o que aconteceu. A morte não é lá de proferir muita explicação, se sabe que ela vem e pronto. Essa coisa de compreensão do seu acontecimento, quem quiser que passe a vida tentando.

A vó era uma mulher miudinha, cabelo preto até o fim, de olhinhos miúdos e tão emotivos. Ela ria fácil. Ela costurava e eu gostava de desmantelar a máquina de costura dela. Ela fumava cachimbo. Era tão bom sentar no chão do quintal pra quebrar as castanhas que ela torrava. A gente saía imundo e contente que só. Eu tinha cá a impressão de que ela preferia o Jean a mim e de vez em quando usava isso pra arengar com ela. Durante vinte e sete anos ela foi a pessoa com quem eu mais convivi na minha vida, dividindo o quarto, os medos do trovão na madrugada, as batidas suspeitas na porta, que na maioria das vezes era o vento forte. Eu tinha o estranho direito de querer que ela nunca morresse. Não, acho que eu não tinha.

Mas ontem, depois de tanta anunciação falsa de morte pelas bocas malditas da internet, eis que morreu, enfim, o Chaves. Ora, não me peçam para citar aqui o nome do ator, que eu até sei, mas soa impessoal. Ele era o Chaves, ou o Chapolim Colorado, o herói  mais atrapalhado que há. Que existirá além do infinito, porque não se sabe de outro par de personagens para se manterem tão vivos e atuais ainda que o tempo se avie por décadas. Eu falo sem tanta condição de argumentar, porque talvez tenha sido a pessoa que menos viu o Chaves no mundo. Sou estranha e sem infância, como diz minha amiga Michele.

Mas não precisava exatamente vê-lo para sabe-lo. Na escola em que trabalhei há alguns anos, eu e a Michele, inclusive, havia uma amiga nossa de nome Cicinha, que todos os dias chegava com uma história do Chaves pra contar. Cicinha, adulta, avó, se encantava de risos pela pureza do menino da vila que diariamente se lascava do jeito mais lúdico e engraçado do mundo televisivo. Aqui em casa, muitas vezes já vi Isabella, menina dos tempos de jogos virtuais, trocar qualquer programação pelas maluquices do Chaves e sua turma igual e deliciosamente maluca. Eu juro que não compreendia muito essa preferência dela e dos meus outros meninos, mas pensava: “que bom”.

Na madrugada, antes de ir deitar, visualizei muitas homenagens e choros pela morte do ator mexicano. Choros e sentimentos dos eternos meninos adultos, que provavelmente carreguem em si um tanto de inocência a se manter intocada por influência de quem não tinha outra missão na vida a não ser a de causar o riso puro. Isso me comoveu tanto. Isso, isso, isso...

Me despeço falando de vida, de música, de encontro. Que eu pra sair de casa não é assim por qualquer motivo, há de ser especial a precisão. E eu fui ver o show do Alfabeto Numérico, cujo projeto vi nascer e acompanhava ansiosa pelo seu crescimento. E está crescendo tão lindamente, que me orgulha e alegra, muito. Parabéns Itallo França, que transformou suas poesias em canções que eu adoro. Luciano Pontes ‘Rieu”, multi-instrumentista, cheio de bossa no palco. Itallo dividiu os vocais com o Janu, a quem eu não conhecia embora fosse também da cidade, a quem eu vou acompanhar agora com requintes de precisão de atenção. Cês são massa, meninos. Ver vocês foi lindo.


7 comentários:

  1. Faz 27 anos que minha mãe morreu e sinto saudades dela todos os dias!... bjs

    ResponderExcluir
  2. Milen,
    Você conta bem, eu gosto...
    Amei a imagem de sua avó fumando cachimbo enquanto costurava, lindo...
    Beijo

    ResponderExcluir
  3. Puxa minha amiga... Você sabe mesmo escrever!
    Parabens!

    ResponderExcluir
  4. Ah, eu conheço a poesia do Alfabeto Numérico, é ótima! Belas lembranças da sua avó. Também convivi bastante com minha avó, a via todo final de semana até a adolescência. Penso que quem conviveu com avó tem no coração uma doçura guardada que nenhuma outra pessoa é capaz de dar. Um abraço!

    ResponderExcluir
  5. Eu assisti e muito, ao programa, com meus filhos - principalmente o mais velho. Ria como eles diante da TV e lamentei com sincero pesar seu falecimento, a gente quer vivo pra sempre quem nos enfeitiça e encanta...
    Adorei passar por aqui, como sempre vc transborda os sentires de uma alma sensível... as avós deixam marcas, eu imagino como será quando meus netos se referirem a mim daqui a muitos anos... rs
    Beijos, queridona!

    ResponderExcluir
  6. visualizei a imagem de tua vó fumando cachimbo e vc ao lado,rsrs de tão bem narrado. vc tem uma narração simples como deve ser e precisa. aproveito pra deixar o meu novo endereço de blog: http://diaderenascer.blogspot.com.br bjs

    ResponderExcluir
  7. Tem pessoas e coisas que permanecem na nossa lembrança, apesar dos tempos passados...Boa divagação sobre a nostalgia!
    Bj, Milene!

    ResponderExcluir