segunda-feira, 30 de junho de 2014

Né?


Eu nem fui trabalhar nessa manhã de segunda-feira e boa parte da responsabilidade eu dedico aos gatos que acham que a calha do meu telhado é octógono de UFC ou motel. Fosse motel o desastre pra minha estrutura seria menor, porque a gata mia, depois parece que aceita o love e desembesto de gritaria logo cessa.

Mas, não. Os gatos insuportáveis – sim, que me perdoem os meus amigos amantes dos bichanos,  mas esses cretinos de bigode que me assombram à meia noite, são insuportáveis – escolhem justo o meu telhado para arranjar confusão entre si, povo desunido! Então tem a maldita calha e eles vem, sem miar, e se jogam nela sem dó nem piedade do meu eu emocional emocionado. Vem o primeiro, o segundo, o terceiro... O resultado do salto nos meu ouvidos e na minha pressão arterial é um desastre imenso, porque mesmo eu sabendo que são os insuportáveis, sempre há a possibilidade de ser um meliante humano... Por que os cretinos primeiro me acordam no susto, duas horas depois é que começa o miado chamando briga.

Aí, o processo de retomada do sono não é coisa muito fácil. E eu insisto com o meu eu irritado que preciso dormir. E eu maldigo todos os gatos do planeta, representados por aqueles fulanos que me odeiam e escolhem a madrugada pra me dizerem isso.

Pela manhã, além do mal humor que me cai tão bem, quando eu não compreendo porque as pessoas amanhecem o dia querendo tanto papo, a enxaqueca e a pressão que acelerou feito na música do Djavan.

Depois eu penso no meu André, o meu siamês querido, e desodeio os bichanos... Ao menos até a próxima madrugada que eles vierem brincar de Jogos Miados com a minha pessoa.  


terça-feira, 24 de junho de 2014

SOBRE A AMOROSA PRECISÃO DE OLHAR

                                                                            


“Acredite no seu olhar...ele é único”. Me disse assim o poeta hoje, mais cedo, praticando da sua aparente habitual gentileza.

Parei um tanto pra pensar nessa coisa de acreditar no meu olhar e no que pode brotar através dele. Por que olhar é além do que eu miro e visualizo. O olhar vem de dentro e é transformador. Aquilo que meu olho vê será bonito, especial ou corpo esquisito sujeito à invisibilidade, dependendo de como eu faça nascer, primeiro, o olhar de dentro de mim.

Eu cuido, todos os dias, pra não deixar me escapar o riso do olhar. E nem o amor morando nele. Por que quando preciso afrontar as dores, minhas e do mundo, aquelas vis e cotidianas que não dá pra ignorar, pelo menos eu posso percebê-las sem que me tome o total embrutecimento.

O meu olhar tem fome, um abraço doce e uma inquietude voraz. O meu olhar é terno. O meu olhar suplica. O meu olhar vagueia. O meu olhar canta cantiga de amor. O meu olhar é meu e gosta de andar por aí a declamar poesia pro mundo.



(Gosto quando olho com você o mundo
gosto mais do mundo 
quando posso olhar pra ele com você ♫ ♪)


domingo, 15 de junho de 2014

DA NATUREZA DO DIA


“A chuva me cinza”... Não é minha essa frase linda, que eu retirei da poesia de um moço talentoso aqui do meu estado e trouxe pra abrir essa postagem, porque o domingo está assim meio coisado, sem dizer direito pra que veio.

Por lá não coloquei sequer a ponta do nariz, lá pro domingo do lado de fora. Tem um frio estranho comigo, uma tosse que se tomou de amores e reluta pra ir embora. Mas, mais tarde vou tossir alto pro domingão, que talvez recolha o cinza, que talvez se mostre num azul bonito, ainda que efêmero.

O esperado era falar de bola, e estádios que serão futuros quintais de pombos, e poesia às avessas pra presidente. O esperado, porém, tende a ser chato e repetitivo, pior que disco arranhado na vitrola, porque lá era só dar um toquezinho na agulha e seguia uma música linda pra fazer dançar a alma. Está tendo copa e gols incríveis como os do holandês lindo Van Persie. Continuará tendo problema e injustiça social nesse país, com ou sem copa... é assim que o povo pensa e aceita.

O inesperado é que é bom de acontecer, mesmo quando é miudinho, vestido numa camisa verde-esperança e trazendo há poucos minutos uma florzinha vermelha na mão, dizendo que é “da Pepê”... que por acaso sou eu. O Daniel me chama assim, mas agora varia com o Tia Memem dos outros meninos. Então eu brinco que sou a Pepê, ele é o meu neném e somos a dupla mais incrível e amorosa do mundo.

Por agora, se calam as letras. O domingo ainda é cinza e me espera do lado de fora, pra quem sabe, me azular o dia, me avermelhar o peito como a florzinha delicada do meu Daniel que é dos outros. No mínimo, pro acinzentado do dia, se não dá pra se colher um bocado de coisa diferente, há por aí uns abraços descuidados, pronto pra serem postos em realização.

É pra lá que eu vou. É gol?
Ah, os versos do moço, que peguei sem perguntar. 
Teje presa?


verde rasga o chão
e afaga o bucho do boi -
a chuva me cinza.


(Igor Machado)


quarta-feira, 11 de junho de 2014

PARA A AMIGA, A CARTA



Arapiraca, 10 de junho de 2014.

Minha amiga Dilma.

Sendo tratada pela senhora, por tu, por você (a gosto da destinatária) de forma tão amistosa, me sinto no direito de retribuir da mesma forma. Tudo bem assim?

Nesse momento em que lhe escrevo, no meu peito se abriga um tanto de constrangimento por ter sido todo esse tempo contra a realização da copa do mundo, aquela em que a taça é sempre nossa porque com o brasileiro não há quem possa. A senhora, tu, você, foi brava comigo quando disse que eu estava errada nessa oposição e me listou os benefícios da copa para o povo brasileiro.

Constrangi-me de fato, amiga. Ao contrário de me opor, devo me orgulhar da quantidade de aeroportos supermodernos espalhados pelas capitais Brasil afora. Grandes, funcionais, e tais... fico só pensando que naqueles momentos de enchentes, aquelas de todos os anos, as pessoas ao invés de se abrigarem nas escolas, corram para a modernice dos aeroportos tão bem feitos para receber os nossos visitantes de todo canto do mundo.

A senhora, tu, você, disse que é besteira essa coisa de que o dinheiro investido na construção dos estádios e demais obras a fim de otimizarem a mobilidade urbana (?) deveria ter sido investido em coisas mais urgentes, como a educação, saúde, segurança... E me disse números maravilhosos do quanto de dinheiro já é investido nesses setores e que tudo está em processo de desenvolvimento desde... 1500? Do que reclamamos, então?

Minha amiga tão querida, por um instante eu tive vontade de lhe suplicar perdão por ser uma filha da pátria tão desalmada e ingrata, mas então,  num ligeiro pensar, me remeti àqueles corredores do Hospital Universitário lá de Maceió, onde tenho ido toda semana, onde tanta gente vai todo dia. E me lembrei do senhor que mal podia andar, amparado pelas duas moças que deviam ser suas filhas, que ficou lá por horas a fio... e foi embora sem atendimento. Eu não me importo de estar lá toda semana tentando há mais de 8 anos uma cirurgia, porque só tem no estado um único cirurgião apto para o programa, porque é muita gente na fila, porque a cirurgia é cara e enquanto viva, entre uma copa e outra Olimpíada, eu espero.

E eu também me lembrei da escola onde eu trabalho e a minha amiga Cicinha dando conta da limpeza do prédio inteiro, sozinha no seu horário, porque os órgãos responsáveis não podem mandar mais ninguém, por contenção de despesa. E por lá há merenda, mas não tem merendeira. Então se as pessoas não deixarem as suas funções pra darem conta da merenda, as crianças passam a manhã sem lanche nenhum.

Mas o que isso tem de significância diante de um evento de tamanha magnitude, né? Vamos ajudar o país a brincar de gente rica e moderna, vamos calar o choro faminto e miserável, vamos sufocar os tiros porque o país jamais terá dias tão seguros.

Vamos, então, sorrir e afagar os nossos visitantes que nada tem a ver com isso. Vamos torcer pelos nossos atletas, retrato do povo brasileiro, pobres rapazes que vão lutar pela pátria em troca de alguns milhares de dólares. Me encanta tal desprendimento. Vamos ver os estádios lotados pelo povo brasileiro... Ops! Não? O povo brasileiro não foi assim tão convidado pra festa? A copa será vista pela TV, como em todas as outras? A ele caberá apenas, como anfitrião generoso, pagar boa parte da conta?

Ah, sim. Explicando desse jeito, eu entendo.
Mas, nem um ingresso pra ver o Messi, minha amiga?

Um abraço.