domingo, 20 de julho de 2014

POEMINHA DO MEIO DA TARDE DE DOMINGO ACINZENTADO (descombinando a métrica)



Amigo é coisa bacana
É feito quando se ama
Um amor até mais bonito
Caminha além do infinito

Amizade também é cuidado
Afeto compartilhado
Braços abertos pro abraço
Poema, palavra e laço

É repartir gargalhada
Perdão depois da mancada
A voz, vez em quando cala
O coração, sempre fala

Amigo é coisa bonita
Que a vida vem e oferece
Sem caixa ou laço de fita

Que quando se tem amigo
É como se a vida fosse
O mais amoroso abrigo







quinta-feira, 17 de julho de 2014

DE CONTA EM CONTA


Faz de conta que não liguei, hoje, a TV. Faz de conta que não abri as manchetes nos sites, sequer escutei nos rádios as vozes das más notícias. Faz de conta que aquilo contado, o dito e espalhado, é coisa da ficção. É mentira pra vender jornal, é a TV que quer aterrorizar, pra fixar as pessoas à sua frente, sorvendo feiuras e hostilidades. Nem uma criança foi morta em nome de uma guerra que ganhou como herança antes mesmo do seu primeiro choro. Guerra era pra ser coisa fora de moda, inspiração pra cinema, história pra ser contada na sala da aula, sem nenhum resquício de saudade. Faz de conta que tudo vai melhorar. Alguém se dará conta do abismo pra onde caminham os humanos com suas armas poderosíssimas e amanhã a TV dirá: “Enfim, a paz. Depois de experimentarem toda a espécie de selvageria e insanidade, os homens perceberam que tolerar é a saída”. O amor é, faz de conta, a imortal arma a desmantelar as mais intransponíveis barreiras de ódio. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

NAMORADEIROS


Não há confraternização mais bonita do que quando a noite e o silêncio se juntam numa coisa só. Eu, por mim, ficaria pelo tempo que durasse esse ajuntamento a observá-los, a fingir nem estar ali só pra ver o caminhar de par, até raiar a luz do dia.

Quiçá até uma musiquinha, num volume delicado que era pra não afrontar o silêncio, embalando as horas, conduzindo os pensamentos, inspirando os pés a balançarem suaves e sem pressa.

Se o sujeito é bom ouvinte, a noite tem um muito de história pra inventar,  um bocado de poesia pra inspirar.... Um tanto de coisa bonita pra dizer. É só lhe oferecer tempo e atenção. É só não lhe roubar o enamorado silêncio.

Mas, inventou-se essa coisa de ser gente grande e desencantado, de ser preciso ajeitar as horas pra tudo, ou o sujeito se ajeitar nas horas. De se precisar dormir e mais tarde acordar. E em seguida mastigar um café da manhã numa ligeireza desmedida, sem um pingo de tempo pra apreciar, sei lá, o silêncio que precede a urgência. E outro dia passará sem que se tire dele nada além de horários preenchidos por afazeres vazios.

É preciso desinventar o inventado. Então, que se emudeçam os vorazes barulhos do cotidiano. Que se entorpeçam cantos, esquinas e jardins com os sentires mais loucos e bons, a causarem alvoroço de alegria. Que tropece, o sujeito, no olhar do outro e sem que nem perceba lance um riso leve, à medida que caminha pela calçada, naquela manhã descombinada de pressa.

Por hora, psiu! Outra vez namoram e passeiam, o silêncio e a noite. 


sábado, 5 de julho de 2014

DA VENERÁVEL ESTUPIDEZ



É claro que a minha relevantíssima opinião não poderia deixar de ser proferida diante do fato de imenso cavalismo ocorrido no jogo Brasil x Colômbia, ontem. Mas confesso que o faço com certa preguiça, porque o que se lê, o que se ouve, é de causar náuseas e vergonhas profundas.

É compreensível a comoção. Neymar é o ídolo mor dos brasileiros patriotíssimos. Ainda que não tivesse jogando uma copa maravilhosa, foi o cara que fez mais gols e fez isso sozinho porque o Fred está lá de espectador privilegiado... Quem mais consegue ingressos pra ver os jogos do Brasil de dentro de campo?

Pois bem, isto dito, me atenho aos fatos. Neymar levou um coice tão grande, que eu nem consigo ver mais a imagem exaustivamente repetida, analisada, opinada. Imagino a dor... Mentira, sequer consigo imaginar. Além da dor íntima de quem tinha tudo pra ser o cara da copa e agora tem que ver do lado de fora, com menos privilégios do que o Fred, o cone. Mas o menino tem só 22 anos e algumas copas ainda pra chamar de suas. Talento não lhe falta.

Ontem eu até ofereci a ele uma carona para o Hospital Universitário de Maceió, aonde peregrino a fim da minha tão esperada cirurgia. O ruim era que ele teria que esperar, cheio de dor, até quarta-feira. E chegando lá, a multidão nos corredores. E talvez o médico nem fosse. Esperaríamos muitas horas, mas com sorte seríamos atendidos.

Ainda bem que não precisou. Neymar foi ligeiro pro hospital padrão fifa mais próximo, foi atendido e já está em casa, ou em qualquer lugar confortável, cercado pelos seus. A comoção, as boas vibrações, as mensagens bonitas de #forçaNeymar, e eteceteras, se propagaram rápido, assim como as manifestações de ira e preconceito, porque o ser humano consegue se superar no quesito estupidez, com uma eficiência pouco invejável.

" Sujeito tem cara de bandido, safado, infeliz, tenho até nojo de um ser como esse... Cadeira elétrica pra ele”... Li isso há pouco no Fórum da Justiça Virtual, também conhecido como Facebook e não consegui mastigar. Valha-me meu padinho Ciço Romão, que cretinice! A cor do colombiano proferidor de coice todo mundo já sabe, né?  E segundo a lógica burra dessa pessoa, já por isso ele tem a cara do bandido que ela visualizá nos seus pesadelos. Numa outra leitura uma louca, candidata a uma nobre cadeira do legislativo federal, propõe que não se deixe o colombiano sair vivo do Brasil e quem achar ruim a sua proposta, que o leve pra cuidar em casa.

Nem entrarei no mérito da sorte que ele teve, o Neymar, de não ter sido uma lesão mais séria. Nem tampouco na questão das mortes causadas pelo desabamento no viaduto passarem completamente ofuscadas diante da euforia da copa. Não serei tão estúpida ao ponto de dizer um “a culpa é da copa” porque uma construção mal feita, provavelmente barateada em função do destino certo de boa parte da grana, ter matado mais duas pessoas. O Brasil é o país da impunidade, por aqui esse tipo de acontecimento tem sido banal e ignorado e o povo parece se acostumar com isso, desde que em troca lhe seja dado alguns quinhões de alegria.

Embora eu siga achando um deboche essa copa esfregada na cara conformada do povo brasileiro, não é esse o assunto por aqui. É da intolerância que estou falando. O colombiano cujo nome não sei escrever, deve estar convivendo com o remorso e o temor. A ele cabe uma punição da fifa. E a nós? O que faremos com esse ódio arraigado na alma, em virtude de um tema que deveria causar só emoção sem vilania?

Eu não sei.

Força, paz e amor, Neymar
Um abraço.