quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O VENTO FRIO E A TERNURA DA MENINA



 IMAGENS DESSE CANTO


Esqueço das histórias lidas e contadas, cheias de fúria e sangue, um grito horroroso de desrespeito à vida, que acontece lá longe, do outro lado do mar. Que também acontece aqui perto, que eu vejo na TV ou leio nos jornais eletrônicos. Esqueço.

O dia já está cinza, frio e chuvoso o suficiente pra eu não querer torna-lo ainda mais estranho e feio. Esqueço das verdades feias a um palmo do meu nariz, na rua do lado, no bairro vizinho. Esqueço. Pelos instantes que me forem possíveis.

Da menina eu me lembro. Estava lá quando entrei na secretaria, nos seus oito anos, de olho azul espantado e meio sorridente, sem entender direito o que eu era, porque me apoiava naquilo embaixo dos braços. A mãe e os dois irmãos menores também estavam por lá, mas não se espantaram tanto. Quando me sentei, ela disse: “a perna”... Eu perguntei se gostaria de saber porque era daquele jeito a minha perna, ela fez que sim com a cabeça e os olhos azuis curiosos. Então falei que quando era criança, “bem desse tamanhinho”, não tomei aquela vacina, então minha perna ficou doente. Ela disse, pegando as muletas: “ande”. “Não, mulher, estou cansada”... eu menti pra que ela não quisesse me ver andando uns dois quilômetros e nem assim aplacar a sua curiosidade de menina altista. Essa informação foi me dada pela minha colega de secretaria, que fazia a matrícula do quarto irmão, o mais velho, que por lá não estava.

Seguimos trocando riso e conversa. “A perna” ainda foi dito algumas vezes e eu repetia a história da vacina. Matrícula finalizada e eu disse: “Você já vai? Vá não! Fique aqui pra gente conversar mais um bocado”. Me sorriu escancarado. Continuei: “mas você vai sair sem me dá um abraço?”... Correu pra se refugiar nas costas da mãe, rosto escondido pelas palmas da mão. Pensei tê-la assustado e perdido o afago. Que nada! Inesperadamente correu até mim e os seus bracinhos especiais me enlaçaram pelo pescoço, num carinho que não se explica, apenas se aceita. 

E depois abraçou a quem mais por lá estava, e também a “moça do cabelo”, que era uma colega responsável pela portaria, sentada numa cadeira do lado de fora. 

E se foi, levando embora tanta simpatia, os cabelos loiros cacheados e os olhos azuis da cor do céu... Do rastro do seu afeto eu tiro proveito até agora, que é pra esse dia todo trabalhado em nuances esquisitas recolha as suas armas e apenas deixe fluir um pouco de ternura.