quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Hoje Tem Dia Trinta

Trinta de outubro é um dia especial para esta cidade, fincada no centro do estado de Alagoas desde mil oitocentos e oitenta e alguma coisa, mas transformado em município há noventa anos. Conta-se que Manoel André ganhou por essas bandas um terreno do sogro e quando veio tomar posse, se abancou embaixo de uma árvore de sombra vasta, que carregava o nome de arapiraca... assim deu-se a escolha do nome da cidade.

Nesses noventa anos de independência política (não levem a palavra independência, nesse contexto, assim tão ao pé da letra) o dia trinta tem sido obviamente feriado, mas um feriado diferente, mantendo uma espécie de relação especial com a memória afetiva dos seus moradores.

Quando era fim de setembro, que se destalava fumo, as mães pensavam no dinheiro apurado pra comprar roupa nova pros meninos irem pro “Dia Trinta”. Era assim a referência, mais que uma data, um título. Eu me lembro, quando muito menina me assentava na calçada lá pelas três da tarde, que era quando o povo começava a passar com suas roupas de feriado, cabelos bem penteados e no bolso uns trocados pra comprar aqueles sorvetes com gosto de quase uva. Meus irmãos não perdiam um, eles e os amigos todos embecados e bonitos.

Já um pouco mais além no tempo, eu estudava numa escola que tinha uma das melhores bandas marciais da cidade. Também alguns dos meus irmãos tocavam lá e os ensaios eram incríveis. Eu amava aquela zuada organizada toda. No dia do desfile a torcida era grande, quase como em dia de jogo, e chegávamos perto de ganhar a primeira colocação como escola de desfile mais bonito... Mas era difícil concorrer com o luxo das escolas particulares.

O “Dia Trinta” se mantém resistente ao passar dos anos e dos afazeres modernos. Todo ano uma multidão se distribui à beira das calçadas no centro a fim de ver passar as escolas e suas bandas e danças. Mesmo sem sem o lúdico e romântico de outrora, tenho pra mim que o “Dia Trinta” não passará nunca pra outro dia o seu bastão de especial, ainda que seja na memória de quem o acompanha há muito tempo. Afinal, como diz Adélia Prado, o que a memória ama, fica eterno.

E eu tenho um abraço especial de dia trinta, que é pro meu cunhado Jackson, aniversariante do dia de hoje. Ele tem uma única irmã, a Patrícia, que faz aniversário em sete de setembro. Dona Lourdes, a mãe dele, caprichou nessa coisa de escolher data especial para o nascimento dos filhos. Tratou logo de exigir feriado.

Pro Jackson, o meu abraço, carinho, compreensão (porque a gente vive debatendo e rindo), torcida eterna pro seu sucesso e gratidão por sempre estar a postos quando eu preciso. Quem a gente é se não tiver por perto quem tenha a pretensão de “ao seu dispor”? O fRamengo até ganhou ontem, em homenagem a ele, e pelo que me parece nenhum daqueles dez juízes que eles tem estava em campo.

Eu hoje não vou pro Dia Trinta, nem pra calçada espiar as pessoas passando. Por lá tem uma multidão e eu tenho caminhado pelo lado da quietude. E pela calçada não passa mais ninguém vestido de feriado. Carros, motos e ônibus cumprem a prática missão de carregar todos.

O que foi feito do charme, ao passar dos tempos?


Um beijo.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

SOBRE A FLOR QUE CALOU O ÓDIO


E os dias tem sido gritados num tom absurdamente alto, a ponto de machucar ouvidos e almas. Acabou-se o período eleitoral. Continuam estranhas as relações; evidenciam-se preconceitos e intolerâncias. É assim que tem que ser? Eu não sei. Eu me entristeço.

A discussão ainda está acalorada, é normal. A disputa foi acirrada com há muito não se via e isso é incrível! Eis o que se chama democracia na sua essência. Mas, então, depois de tudo terminado veio novamente a enxurrada daquilo que já não é original, o ódio, numa quantidade absurda.

Fala-se que o Brasil está dividido e a culpa é da Presidente e o seu partido. Por favor, eu imploro que não subestimem a minha inteligência. Desde que me entendo de gente e folheio revistas, e vejo novelas e filmes, e ouço falar por quem já caminhou Brasil a fora, que o preconceito gentilmente dedicado ao nordestino é coisa que sempre existiu, oxente! Agora, em tempos de internet, a situação só se evidenciou naquilo que toda a vida foi.

Li coisas espantosas hoje, do tipo “Aécio não ganhou em Minas porque lá não tem mineiro, tem capixabas, nordestinos”... as pessoas de lá sabem que não são mineiros? A outra moça, tão educada e boa, desejou o ebola vindo dicunforça pra dizimar todo o povo daqui, mas antes rogou outras pragas nada bonitas a quem é de alguns lugares como Nordeste, Bahia... Até pra xingar a pessoa deve ter alguma noção e sabedoria. Eu proponho que ela tenha umas aulas de Geografia e saiba que a Bahia é um pedaço querido do Nordeste. Um coro poderoso e pouco informado insiste na história de que fomos nós os “culpados” pela reeleição da Dilma e estamos destinados ao fogo eterno duzinferno. “O preconceito é dos dois lados”, também li essa asneira. Como assim? O que acontece agora, de diferente, é uma reação diante de tanto absurdo lido e escutado. Antes, era como se nos dissessem: “Esperem aí que vamos ali nos desenvolver e depois voltamos para lhes ajudar. Esperem ali à sombra porque esse Sol que rachou o seu chão pode também lhes rachar a cara”.

Ontem, pouco depois da uma da tarde, meu irmão Jean, que votou no candidato do PSDB, me levou para votar. Ele com um adesivo no peito, eu de blusa vermelha. Tivemos divergências de opinião um tanto acaloradas nesse período eleitoral, mas não ontem. Tentamos ambos convencer o outro a mudar de ideia mas não obtivemos sucesso. Eu não briguei com meu irmão nem com ninguém que pensasse diferente de mim.

Decidi meu voto depois do primeiro turno, quando as enxurradas de ofensas começaram pelas redes sociais e eu me dei conta de que aquelas pessoas pensavam muito diferente de mim e eu não votaria como elas. Entendo lhufas de economia, mercado, dólar, ou seja lá o que o valha. Eu entendo um pouco de gente e do jeito que se configurou o segundo turno, escolhi quem tem uma postura de dar mais valor às gentes. Foi sonhando com um país de distâncias cada vez mais curtas que eu votei e o fiz de caso muito bem pensado.

Uma pena causar desapontamento em alguns amigos, que embora contidos, demonstram pensar como a maioria dos que nos acusam de culpa, máxima culpa por ter sido maioria dos votos... e pelo que dizem os números, a história nem é bem assim. Mas, vou eu aqui ensinar tabuada a quem quer que seja? Gosto não.

Se essa história de separação continuar, meu sonho é que a capital federal do Brasil renegado seja Arapiraca. Tem um terreno massa aqui em frente à minha casa e daria pra abrigar a casa oficial. Eu bem queria ostentar moradia desse nível. E se isso acontecer, o que vai ser do outro Brasil sem o braço forte da nossa gente pra levantar suas cidades? Eu não sei, e tu?


Um beijo sem distinção de sotaque.
Boa noite.


domingo, 26 de outubro de 2014

Reescrevendo o Lugar...


A uma hora da madrugada e mais vinte e dois minutos, escrevo essas mal digitadas linhas para dizer, ou só escrever, que o meu pensamento deu umas viradas de lugar e sucumbi à vontade de reabrir meu canto, velho e querido canto. Por que? Oras, e eu lá sei? Sei não senhor. Saber de tudo, aliás, nunca foi lá o meu forte.

Acho que aqui eu escrevo desimportâncias com mais vontade, a coisa flui com maior desenvoltura, compreende? Se não compreender, deixe pra lá, seu moço, que a vida é bem pra gente não compreender de tudo, não senhor.

Enquanto escrevo saudades, na TV dois moços lutam num ringue que não é ringue. Se batem que só! Ganham dinheiro que só! Quero que o brasileiro ganhe, obviamente, mas meu olhar só vê a porradaria em soslaios, porque eu gosto mesmo é de ser amorista. Enquanto escrevo e de soslaio reparo nos caras se matando, Chico canta coisas de amor nos meus fones bem postados aos meus ouvidos. Andaram caluniando Chico por esses dias, tudo em nome do direito democrático, que só vale, aliás, se você pensa igual a mim. Por que se você pensa diferente, serás um monte de coisa ruim.

Rimei sem querer. Desse assunto, aliás, quero me privar agora, porque ele anda raivoso demais. Amanhã, que já é hoje, tudo será definido, enfim. Enquanto isso eu tiro o ódio pra dançar, ao som de Chico, uma valsa lenta... e depois todo o ódio se converterá em amor.

Não se converterá, eu sei, mas devanear é de graça, ainda.

O moço brasileiro, o Zé, saiu do ringue que não é ringue com a fuça cheia de sangue, mas vitorioso. Meu amigo Uelton bem que disse que ele nunca perdia. Coisa estranha esse esporte de bater.

Chico segue cantando e eu quase chorando, fingindo paixão. Coisa louca é esse homem, como ousam maculá-lo? Desse jeito o céu não lhes aceita, pessoas.

Bora dormir?
Bem vindos outra vez e sempre que puderem, não me levem a sério.

Beijos!


(...) se na bagunça 
do teu coração
meu sangue errou de veia 
e se perdeu ♫♪