quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

POÉTICA RETRÔ



Andei por aí, vindo como quem nada queria e vi um bocado de coisas. Vi cores e cheiros inesquecíveis. No céu, toda tarde, aqueles passarinhos brancos e muitos em revoada pra um lugar qualquer, deles, sós. No chão, os pés dos meninos e seus pensamentos nas nuvens. Seus gritos estrondosos e sorrisos, muitos sorrisos. Enquanto andava, sem querer eu quase me afogava num rio de tristeza e choro, mas haviam a postos feito verdadeiros soldados do amor, os abraços e tanto afeto. Eu vi desmantelos nas palavras disfarçadas de livres e sábias, um muito de ódio e intolerância sem disfarce algum. Vi tanta desimportância e exagero, tanto mais do que os passarinhos brancos que me avoavam toda tarde. E o mar, foi só um cheiro de longe, um aceno, um riso que lhe dou toda vez que vejo. O quê de mim que há no mar, será de ser imortal? Do que foi visto já não há como revisitar e a dois sóis já será outro caminho. Meus chinelos na estrada e coração sambando no peito a avistar novos retratos, entre ligeirezas e remansos, deixe-me ir, preciso andar...

domingo, 21 de dezembro de 2014

DA COTIDIANA CONFRATERNIZAÇÃO

Imagem: NESSE CANTO

Há séculos de minutos tentando desenhar um texto bonito de Natal, mas a coisa não flui. Sacanear o velho barbudo, a quem chamam de Papai Noel, cuja função principal é induzir os papais reais a se lascarem em dívidas de presentes, não vou mais.

Decerto eu não esqueço que na minha infância ele só ia na casa da menina rica, filha da mulher para quem minha mãe lavava roupas e eu lamentava não ter uma janela pra deixar, também, as minhas meias. Mas quando descobri que o velhote era um engodo, fez-me rir de contentamento e desdém. Deixemos pra lá o sujeito inexistente da oração natalina.

Eu por mim gosto de confraternizar, sem ser preciso data específica pra essa situação. Essa semana, sem muita combinação, fomos almoçar eu e alguns amigos da escola, que não são os amigos da escola ditos pelo Tony Ramos na TV, o leitor me compreende? São colegas de trabalho...  E meus amigos. É muito bom quando nos juntamos pra formação imediata do riso e descontração. A confraternização oficial, do fim do ano, amigos doces e abraços, essa também está marcada para daqui uns dias e será, certamente, outro encontro bacana. E desses outros, os casuais, haverão aos montes, eu sei.

Ontem, lá na calçada na casa da mãe, enquanto o vento frio assustava qualquer vivente, combinávamos coisinhas sobre nossa noite de Natal. Arthur correndo atrás do Miguel, que é um pequeno raio, quando se vê já não se vê mais. Isabella e Marina se preparando para uma noite do pijama, comemorando o aniversário da amiguinha Maria Luísa. Lorenna chorando e de vez em quando ameaçando um riso econômico, a cabritinha metida, e a conversa dos adultos fluindo na tentativa de um consenso. Mas nem há muito o que combinar, o nosso forte é o encontro.

Em meio à conversa, a Clara vem dizer que a vó está chamando pra comer, que o cuscuz está pronto. O cuscuz de quase todos os sábados, instintivo, descombinado, bom que só. É assim que confraternizamos todas as semanas sem carecer de requinte ou muita polidez. Estamos nós na calçada desde o fim da tarde, quando a noite vai crescendo e esfriando. Os meninos correndo e nós gritando cuidados com os carros, que ao contrário de outros tempos, hoje passam numa velocidade da gota! Os meninos já citados, além do Davi e Luiz que ontem não estavam, e mais um bocado de meninos da rua, correm por um bocado de brincadeira que, amém, ainda existem. Clara, Vitória, Giovanna e Thulio se dividem entre participar um pouco da conversa e interagir na sua miúda nave espacial também conhecida como celular. Vez ou outra a Jaci também vem pro nosso abraço, porque é da nossa vontade cuidar tanto dela, mas tanto que não dá pra mensurar. E também passam eventualmente o Jenynho e o Jefferson, que sempre sabe onde estamos e que sempre podem vir. Até os meninos do Girau, Dudu e Gabi, que se chegarem, estarão bem chegados. O Felipe também, mas a Sofia, que é dele, costuma vir mais do que ele, de carona na bicicleta do vô Bia. A Ellen, tão longe, tão perto. E o Renato. Ah, o Renato...

Então nos juntamos à mesa, uns de pé porque a gente é muita e o móvel pequeno. Se isso não é confraternizar eu não sei nomear mais nada nessa vida. Por isso que o ajuntamento para o Natal é massa, é necessário, mas se por desventura não pudesse ser, não seria um desacontecimento, porque confraternização no sentido mais genuíno da palavra, é o que institivamente fazemos pelo mero prazer de estarmos juntos.

Confraternizemos, pois, a cada fragmento de tempo que nos for possível, amém.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

PARTIDA


Fez-se noite e vou embora
Sem destino, sem demora
Sequer carrego bagagem
Sigo só nessa viagem

Tendo o céu por companhia
E a constelação de guia
Dou um passo, invento rima
Tola fada bailarina

Ensaio verso bendito
E à luz do luar bonito
Expurgo meus dissabores

E aos que choram vis amores
Incuráveis, sonhadores:
- O fim da estrada é o infinito!




domingo, 7 de dezembro de 2014

SEM MAIS...


Para esse fim de sábado eu bem queria arranjar boa letra para esparramar por aqui, feito a batatinha quando nasceu.

Aliás, a coitada da batatinha sofreu da mesma síndrome da “letra substituta” da qual sofreram a Menina Veneno do Ritchie e a canção do Claudio Zolli, cujo título eu caducamente esqueci, pois não é? Desde miúda aprendi que a batatinha quando nasce se esparrama pelo chão, mas o pobre tubérculo jamais se esparramou, ele simplesmente deitou ramas pelo chão, como fazem os da sua espécie. Assim como o abajur da Menina Veneno é cor de carmim e não cor de carne; e na vitrola do Cláudio Zolli tocava B.B. King sem parar... De biquíni sem parar não havia seu ninguém.

Isto dito, eu afirmo que a cantoria da letra errada era mais divertida em todos os exemplos dados e eu seguirei infringindo-as.... eu acho.

Sinceramente não sei sobre o que escrever para compor esta postagem... Quem sabe, talvez, sobre a inauguração da mensagem natalina da Globo, que estreou esta semana. Muito empolgante. Bacana de ver como a televisão brasileira pode ser incrível e se superar na criatividade a cada ano. Agora mesmo estou com o coração em chamas emotivas, vendo os artistas todos se abraçando e sorrindo tão espontaneamente que me comove. Cena jamais repetida, senão nos últimos trezentos anos.

Coisa que me faz falta nesse começo de festejos natalinos é ouvir em todos os minutos dos dias de dezembro, a Simone, aquela, lembrando que então é Natal. Já pensou se ela não existisse pra nos cantar insistentemente a data? Obrigada, Senhor, pela existência da Simone, por torna-la cantora vestida de Iemanjá de calças e fazê-la morar nas nossas mentes, todos os anos, por um mês inteiro perguntando o que fizemos. Somos fortes.

Hoje me encontro numa condição de trauma um pouco saliente, pessoas. O moço do carro preto, sorridente que só, perguntou onde estava o David. Eu não sei quem é o David. Eu sequer sei direito quem sou eu própria, quiçá o David. Fingiu desconforto por eu não reconhece-lo, insistiu: “você é a mãe do David, não é?”. Respondi que não, mas despertei para a realidade quando ele citou o nome do pai do Deividi e eu de imediato lembrei do primeiro nome não chamado do filho da vizinha lá da frente. Apontei-lhe a verdadeira mãe e fui obrigada a escutar, porque apesar da iminente velhice, surda ainda não sou: “mas parece demais, viu?”. Emiti um sussurrante “obrigada”, já querendo ir até a pista morrer, para depois voltar. Definitivamente eu não queria naquele instante ser a mãe de ninguém, muito menos a referida mãe. Rimos muito. Mas Isabella me garantiu que eu sou linda, então tô confiando.

Entendeu? Deixa pra lá. Vou ali descobrir quem eu sou, se sou de fato eu, ou ela... sei lá.

Um beijo meu. Super meu.