domingo, 18 de janeiro de 2015

ENQUANTO AINDA EXISTIR TERNURA...



IMAGEM DAQUI

Meio dia de domingo e o meu primo já entrou duas mil, novecentas e treze vezes no meu quarto para falar de assuntos práticos. Eu quero dizer pra ele que domingo não é dia de se ter assunto prático, mas recuo. Deixo que ele fale das novas contratações do ASA; das sandices da nossa prefeita, minha algoz; os tantos quilowatts que eu consumi e a justificação, se é que há, para o aumento da energia; a insistência para eu trocar algumas lâmpadas da minha casa e assim economizar... e lá se vão minutos importantes que poderiam ser dedicados à tentativa poética, ou a escutar músicas boas, ou a absolutamente coisa alguma senão desfiar o meu pensar, pensar...

Eu deixo que ele fale e quando penso que já falou tudo, há sempre detalhe importante a ser acrescentado. Eu deixo que ele fale porque ele gosta de ser bem informado e reproduzir essa informação. Eu deixo que ele fale e dou várias voltas no mundo até voltar a prestar atenção na sua fala bem intencionada, mas desprovida de estampado para um domingo.

Os assuntos da semana passada foram densos e tensos ao extremo, com a exata leitura da palavra. Matou-se muito pelo mundo afora das mais variadas formas e motivos. E sem motivos também. O dito popular “para morrer basta estar vivo” nunca esteve escrito em tanto negrito.

Para mim não tem tanta diferença se morreram dois jovens num bairro vizinho ao meu, ou os desenhistas da graça intolerante, ou os milhares de nigerianos, ou o moço que brincou com a própria sorte num país de leis rígidas ao extremo... lá vem a palavra extremo outra vez. Morte é morte e era pra ser de praxe da convivência humana que ela só acontecesse por meios naturais. Matar é pra bicho que tem que sobreviver no seu habitat, não pra gente. Embora seja eu gente grande e inserida nesse realismo cruel ao qual vivemos, me permito o direito dessa utopia, me permito pelo menos por breves e lúdicos momentos.

Quando ocorrem esses casos de repercussão mundial a comoção é diretamente proporcional. As opiniões também. Sejam elas contra ou a favor, elas vem aos montes e muitas são de causar indigestão por meses a fio. Há uma necessidade de se dizer o pensamento torto, machuque a quem machucar, a fim de provar inteligência em temas que nem sempre são de total compreensão do opinante. Mas, me desculpem se pareço estar tentando tolher o direito do outro de dizer o que bem entende... ou não entende. Que fiquem com suas impressões arrogantes e cimentadas, apenas lamentando que com tanta inflexibilidade não há de se ter melhor desenho da humanidade para um bom bocado de tempo futuro.

A Neusa ontem me chamou no bate papo do Facebook e eu apenas vi séculos depois. E perguntei hoje: “Era sério o que tu queria? Fiquei preocupada”, que me respondeu: “Não, eu só lembrei de você”.  Eu achei foi massa, porque afeto é massa, é sempre tinta fresca a colorir esse imenso mural infinito no qual estamos inseridos e, com um pouco de boa vontade e muito amor, tenhamos, então, motivos para seguir acreditando que o bem há de não sucumbir jamais. Supliquemos pela eternidade da ternura, amém!




11 comentários:

  1. Milene, quando em meio a tantas porcarias que vemos nos noticiários e mundo, alguém nos chama pra saber de nósou lembrar em nós,é um lindo momento! bjs praianos,chica

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  2. Ternura sim! Ternura sempre!
    beijogrande

    (achei que estava chateada comigo por causa do texto oposto lá no Varanda)

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  3. Ah, Milene

    Como é bom sentirmos nossos sentires 100% representados. Tem gente que pensa e sente como nós. Da importância e valor ao pensar - em nada e em tudo na verdade - o ficar só à mercê da poesia, da filosofia, do entedimento das coisas, das notas musicais e descobertas que andam por aí fluando na atmosfera dos que não fazem nada, não falam nada, não acham nada e não trocam lâmpadas.

    Tem gente como a gente que acha que toda questão não dá pra escolher cara ou coroa, porque tem mais lados que um polígono e, é bom girar polígonos, mais que jogar moedas para o alto. E, então a ternura vem, senão nos polígonos, vem nas notas musicais.

    Beijos

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  4. Que intenso teu texto. Muito bom de se ler!
    Parabéns!Tuas escritas são lindas!
    Beijoooos!

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  5. "Morte é morte e era pra ser de praxe da convivência humana que ela só acontecesse por meios naturais. Matar é pra bicho que tem que sobreviver no seu habitat, não pra gente."

    De um modo simples, muito bonito, resume o que eu penso .
    Gostei tanto que vou ficar.

    Boa semana!

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  6. "Afeto é massa, é sempre tinta fresca a colorir esse imenso mural infinito". Nunca venho aqui sem esticar os cantos da boca. Como é bom o afeto que passeira nas suas frases. Ei, o meu blog nasceu. E desaprendi um bocado de coisa, inclusive como se faz pra seguir você aqui. Vai lá no face, compartilhei por lá.

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  7. Nossa, amém mesmo, Milene. Ótimo seu texto, incluindo, claro, os seus desabafos sobre seu cotidiano que são sempre bons. E estamos gastando mais luz do que nunca e vem esse governo e aumenta ainda mais os impostos e a conta. Beleza... bjs

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  8. Oiiii Mi_nina! Andei tão tristinha cumcê...nem um feliz 2015, mesmo que da boca pra fora (sqn) recebi...nem aqui, nem ali, nem acolá rsrs. Mês de janeiro tenso...logo na primeira semana perdi um tio amaaaado, o único irmão de minha mãe que me trazia ela pra perto, fisicamente falando, de mim. A gente entristece daquele jeito dorido que só. Mas, é vida que segue né? Falando em seguir, percebo que o Divã não está atualizado aqui na sua lista. Será pq? É bem verdade que só hoje postei algo...coração triste, sem inspiração, nada de escrita. Beijuuss Mi_nina sempre amaaada

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  9. Sim sim, a comoção mundial cansa um pouco e traz pontos de vista estranhos. Quanto ao bate papo do face, acho que precisamos nos ver mais né? Faz tempo que não papeamos.
    Beijo beijo.

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  10. É, me escandaliza que o mundo fique todo Charlie porque um jornal marreco de faltar ao respeito à religião dos outros e que cruelmente sofreu o massacre que sofreu seja tema do planeta e de tanta manifestação cínica, racista em pleno, chauvinista, como se o dito 1º mundo fosse povoado de super homens do Zaratrusta...
    Mundo podre, quando todos dias em todo lado milhares de seres morrem vitimas das mais inomináveis barbaridades e esse 1º mundo não está nem ai !!!
    amei sua crónica , viva o amor e a ternura !
    Eu sou Tony e os Charlies que se danem!
    beijo Milene

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  11. Olá, Milene!
    Gestos de barbárie são sempre tocantes por serem incompatíveis com uma sociedade dita moderna e tecnológica...
    É tão acalentador quando alguém nos procura pelo simples prazer de nos fazer sentir importantes, queridos... gestos de ternura valem muito mais justamente por serem bálsamos em dias de tanta crueza. Abraço na Neusa.
    Um abraço!

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