sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

OS NOVOS DIAS DO VELHO TEMPO

O ano novo começou. Chega. Mais considerações sobre isso eu já nem sei da minha precisão de fazer, embora confabule comigo mesma, mentirosamente, vários planos daquela velha piada de dessa vez fazer valer as trezentas e sessenta e cinco oportunidades. Bora ver, né? Bora ver...

Hoje eu arrumei gavetas. Não foi algo simbólico em virtude de já fazer algo novo nos primeiros dias e encher o peito de orgulho pra dizer: “sou capaz de providenciar as mudanças que necessito”. Seria um belo início de um texto augustocuriano, mas a minha filosofia está pouca demais para essa firula. Dessa vez a arrumação foi feita na literalidade da palavra, não que me houvesse disposição, mas porque a Maria comentou que elas estavam bagunçadas demais e perguntou se eu não gostaria de ajuda para esse fim. Topei a parada.

A Maria é a moça que vem uma vez por semana ajeitar minha casa, para que eu possa esquecer que nos outros seis dias ela é uma filial da bagaceira. Ela queria motivo pra se demorar mais aqui e só precisar ir pra casa no fim da tarde. O marido e ela discutiram e dormiram ontem de mal. Maria não gosta quando isso acontece, principalmente porque ele é turrão e nunca reconhece que errou. Maria sempre quem tem que se desculpar mesmo quando não tá errada, que é pros meninos deles, os seis, não ficarem triste. Maria é conversadeira que só e hoje eu me compadeci um pouco por causa do seu descontentamento. Brigou justo no dia do seu aniversário de amor, numa virada do ano da qual não se lembra com exatidão... dessa vez achou que ganharia o presente suplicado todo ano nessa data, mas ela acha que ele arranjou um pretexto pra brigar e escapulir outra vez desse romantismo. Eu disse pra Maria que infelizmente as pessoas não são como a gente gostaria que elas fossem e que não é bom levar problemas para a cama, bacana é resolvê-los sempre antes.

Dei conselhos bonitos sobre o que é para mim desconhecido. Eu só quis desentristecer um pouco a Maria...

E a mim, quem ajuda eu não sei. Amanheci semiviva no dia de hoje, com uma noite de sono tão bem dormida que nem sei definir com belezura. Isso depois de duas noites cantando errado a letra do Renato Russo: “é preciso BEBER como se não houvesse amanhã”. Mas havia o amanhã. E não havia Engov. A primeira lição aprendida no novo ano é que, porque o seu irmão faz caipifrutas incríveis, você não precisa ser a degustadora oficial e sempre alerta.

Eu bebi para desentristecer, leãozinho. E porque estava alegre também. E eufórica. E com a sentimentalidade elevada à máxima potência. E ansiosa. Uma conjuntura de sentimentos que desmantela o emocional da pessoa. Eu bebi porque sim. Mas nem foi o que se pode caracterizar de porre, só um alegrismo, compreende? Se não, não gaste sua reflexão com assunto tão besta.

Aí o Rafael foi me ver. Meus irmãos, sempre atentos, me perguntaram depois de onde eu conhecia aquele moço. Falei: “conheci ontem pessoalmente, nos falávamos só pela internet até então”. Se entreolharam achando a coisa mais estranha do mundo e eu falei pra se ligarem nas novas estradas da conexão entre pessoas, que acontece das formas mais variadas e quando é bacana, tende a causar naturalmente o abraço físico.

Eu e o Rafael estávamos nos devendo um abraço, mas sem cobrança. Morando na mesma cidade e mantendo uma amizade massa já há um tempo, eu disse pra ele passar na casa do meu irmão e ele foi. Eu e o Rafa conversamos pessoalmente com a mesma desinibição, casualidade, alegria e cumplicidade como se encontrássemos todos os dias. Não nascia ali uma amizade, ela apenas ganhou um retrato físico pra poder seguir com mais força ainda.

Quando ele chegou eu já havia chorado, borrado a pouca maquiagem, abraçado com tanto amor as pessoas, chorado a ausência eterna de uma e a ausência momentânea de outras. Eu disse tanto “eu te amo” nos meus abraços que por um instante pensei: “será que nesse momento o tal santo que anota o nome dos morríveis para aquele ano num caderninho, está anotando o meu? “. Talvez isso justificasse o chorismo exagerado. A Marina veio ralhar que eu estava chorando demais. Parei. Mas digo pro santo que ele não se atreva. Tem coisa demais que eu estou querendo dar conta e não ando com tempo para mortes descombinadas.

Texto grande, né? Obrigada por ter vindo até as últimas letras.

Bora ali que os dias novos do velho tempo nos esperam.

Beijos.


10 comentários:

  1. Gostei e cheguei ao fim sem notar...
    Quando é que eu vou encontrar você e bebermos essas caipifrutas?
    Talvez este ano...
    Beijo Milene

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  2. Mi!!!
    Que saudade que eu estava de te ler. E resolvi vir hoje, só para me emocionar já no início do ano.
    Coisa boa poder abraçar quem a gente ama, né?
    Um 2015 recheado de saúde, amor e muitas alegrias pra ti e os teus!!!

    Bjus

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  3. Não dá pra ficar pela metade de seus escritos, vou lendo, lendo e quando vejo já acabou.
    Realmente, estar junto de quem amamos é tudo de bom e quando ouvimos um EU TE AMO de quem mais amamos então, é tudo.
    Uma pena a ausência do que não podemos mudar e do que se pode mudar.
    O seu obrigada por tudo me comoveu, mas não há de que e estou sempre aqui. Bjs
    Marlene Souza

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  4. Boa tarde querido (a)!
    Meu Blog está sendo transferido para outro local, já faz algum tempo...
    Gostaria que se já é meu seguidor no meu blog CoNSTRuiR mais antigo, que venha me seguir, se assim desejar, nesse novo endereço, porque futuramente sairei deste que estou... Muitos que sigo, já foram transferidos para lá...Mas as pessoas que me seguem ainda não se transferiram.
    Você poderá me seguir no novo endereço?
    Meu abraço!
    Dayse Sene
    Blog CoNSTRuiR
    Novo endereço: http://construir.daysesene.com/

    Obrigada!

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  5. Oi Mi! Sempre bom poder ler seus textos...divinamente tão bem escritos... Li com uma atenção, matando saudades...Adorei a arrumação das gavetas, o caso da Maria e a chegada do novo amigo...Bons momentos...Belo texto...assim tão descontraído que até parecia que eu estava ai com você...meu abraço. Uma saudade... e penso voltar mais vezes, para me deliciar com seus escritos. Beijos e feliz novo ano...:)

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  6. Texto grande nada! Quando começamos a te ler vamos embora como num filme agradável. Eu tb conhecerei uma amiga de internet essa semana. É muito divertido isso! Emoção pura!

    Vim desejar um excelente ano novo pra vc, muita alegria, paz, saúde e energias renovadas!

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  7. Tou com vontade de fazer um outro blog. Pra botar mais força nessa intenção decidi visitar o seu. É incrível como sua escrita é escorregadia. A gente fica deslizando nas frases que só você sabe construir. Ler você engrossou a vontade, Milene. Que bom. Bom ano pra vc. "Tem coisa demais que eu estou querendo dar conta e não ando com tempo para mortes descombinadas", gostei muito disso.

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  8. Seu texto não tem nada de grande e tem muito de vivo. Tão cotidiano e tão intenso. Gosto disso. Fui me envolvendo, me envolvendo... já estava quase dando conselhos pra Maria também rsrsrsrsrs
    Obrigada pela visita Milene, e seu texto, belo. bjs

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  9. Grande ou não, é sempre bom te ler, Milene. E eu sempre chego até o final. Bjssss

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  10. Ahh meu Deus acabei de te conhecer e já te amo muito.Você escreve tão perfeitamente as vezes passo o dia todo só lendo os seus Posts e posso dizer o quanto estou apaixonada por cada palavra Obrigada por deixar os meus dias mais felizes.
    Um xero

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