segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Das Gelatinas e as Dores do Mundo

Receio que este blog acabe se transformando numa espécie de diário pós-cirúrgico para atualizar a todos sobre quantos grãos de arroz e feijão eu pude comer hoje ou quantos quilos deixei pelo caminho sem quaisquer resquícios de remorso durante esses meses que já estão às portas do quinto. Vinte e nove quilos, sem a exatidão dos gramas pra mais ou pra menos, foi o quanto emagreci e isso é verdadeiramente incrível. E maravilhoso. E improvável há tempos atrás.

É claro que o efeito “mulher gelatina” me acometeu, mas cada um é a mulher que pode ser, ao menos por hora. E, repare, o prazer, a leveza de estar é tão prazerosa que eu me importo pouco com o aspecto balançante das carnes. Mas me importo, cá não atuarei de hipócrita. Mas, repare de novo, é isso um detalhe tão miúdo quando agora eu consigo caminhar de lá pra cá sem precisão de pedir socorro às cadeiras. São coisas pequenas das quais eu não mais me lembrava. São coisas pequenas que se agigantam aqui nessa minha alma rebuliçosa. São coisas boas, são sim senhor.

Enquanto isso, por aí, pelo mundo ou aqui tão perto, as coisas seguem acontecendo para o nosso espanto, encantamento ou profundo desencantamento, porque viver é invariavelmente misturar essas coisas toda um monte de outras mais, num revezamento louco e incessante. Segue-se vendo pela TV meninos mortos, meninos vivos e famintos, pessoas desesperadas esperando que dos céus se ajeite uma solução para o caos das suas vidas miseráveis.

Por aqui, pelas calçadas, becos e buracos, também se vê meninos mortos ou famintos desenfeitando o ir e vir das gentes de bem.  Escolheu-se, porém, um indignar-se diferente, porque os meninos de lá merecem o clamor. Os meninos de cá devem merecer um tanto de vergonha nas suas caras pequenas e que se ajeitem na vida, ainda que a vida não lhes dê nada, ainda que não lhes apontem um norte, ainda que não os acolham. Que se não se ajeitarem, a vida o fará, a polícia o fará, a justiça o fará.


Afora as dores de um mundo doente, é preciso caminhar os dias sejam eles de Sol ou chuva forte. Que eu nem acho a chuva assim uma vilã, porque fosse todo dia ensolarado e claro, haveria de estar a onde a poesia? Que a poesia pra mim está justamente no embrulhar de tantos sentimentos, sensações, situações distintas e complementares vivenciadas nesse absurdo de possibilidades que é o cotidiano. É preciso caminhar apesar do menino morto na praia, ou os invisíveis nas nossas calçadas. E que não nos falte, nunca, capacidade de indignação para quando as coisas forem realmente doloridas e façam sangrar o coração das gentes todas, ou o nosso próprio coração, que embora sozinho, será capaz de ajeitar um sentimento melhor para fazer menos doente esse mundo, vasto mundo sedento de amor.

Volto já.




5 comentários:

  1. Oi, Milene, como vai? Que saudade de ti!!!Passou-me uma leveza (no sentido emocional, sobretudo) que me deixou feliz! Ainda que as dores do mundo estejam aí todos os dias esperando por bálsamos de amor, tão raro entre os seres humanos.
    Penso como você... claro que nos condoemos de ver cenas de morte sobretudo de crianças, mas atrás do sensacionalismo, quantos outros não sofrem? É fogo....
    Amor para nossas vidas, sempre!!!
    Abraços!

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  2. Que coisa boa te ver e aliás, quase nem te enxerguei, pois com 29 a menos, quase nem apareces,rs... Coisa boa isso!

    E assim-assim, com essa notícia tão boa, nem entro no mérito doas coisas ruins que estamo0s vendo aqui ou lá! Tristeza! bjs, chica

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  3. Puxa, que maravilha, você conseguiu e o resto é deixar a vida te levar e ser feliz!
    Foi um regresso inesperado este do Inquietude, valeu !

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  4. Deixe-me parabenizá-la pela tremenda força de vontade e coragem que demonstra.
    Chapelada!!
    De aba larga.
    Abraços

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  5. Você é uma vitoriosa!!!

    Um abração carioca.

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