domingo, 25 de janeiro de 2015

Quando Cantou o Silêncio

Acabava de chegar da roça cibernética, lá onde mora minha tia, mãe da Cida, da Cleide e de mais uns primos massas. Dia perfeitinho, embora tenha trazido de lá uma dor de cabeça que, aliás, me acompanhou desde a madrugada.

Qual não foi a minha ingrata surpresa quando vi que do outro lado da rua as pessoas queridas da igreja fariam o seu culto na calçada e só pra coisa ficar mais bacana, havia um ônibus-espetáculo-palco onde tudo seria lindamente tocado. Eu vos digo, eles cantavam e tocavam bem acomodados dentro do meu cérebro latejante. Pensei em mandar um bilhetinho de falsa identidade, dizendo mais ou menos assim: MEUS FILHOS, ABAIXEM UM POUCO MAIS ESSE ESTRONDO, POIS A MILENE ESTÁ COM UMA DOR DE CABEÇA INSUPORTÁVEL. ASSINADO: EU, O PAI.  Não funcionaria, né? Essa coisa de falsa identidade definitivamente não é coisa de Deus.

Resignada, busquei abstrair o barulhão direcionando o pensamento para coisas outras e quando bem prestei novamente atenção na fala que vinha de lá, o moço dizia: “ela achou gostoso, ela achou gostoso e deu pro seu marido”. Num susto, pensei que as pregações de hoje em dia já não eram mais a mesma coisa. O que era aquilo dito em altíssimo som, meu pai? Recobrado o bom senso, percebi que se tratava da história de Eva que persuadiu Adão a provar do fruto proibido e toda aquela história já sabida. Pensei que eu agora estava bem encrencada com esse meu pensamento totalmente fora do contexto e quem sabe precisasse de uma confissão para a tentativa de purificação. Pensei outra vez errado, porque ali era um culto evangélico e nada tinha a ver com confessionários e rezas de cem ave-marias. Pensei que o melhor mesmo era não fazer ou pensar coisa alguma e apenas esperar que a latumia acabasse.

Afora o estrondo no meu cérebro em dor, estava bonito lá do outro lado da rua. As pessoas vestidas de azul interagindo palavras de fé e o céu fazendo um pouco de chuva. Os cantos, as palmas. Não demorou e a noite tomou pra si outra vez o silêncio que seria absoluto, não fossem os carros no ir e vir incessante. Mas eu não vivo para dar ouvidos a estupidez necessária do caminhar veloz dos carros.




domingo, 18 de janeiro de 2015

ENQUANTO AINDA EXISTIR TERNURA...



IMAGEM DAQUI

Meio dia de domingo e o meu primo já entrou duas mil, novecentas e treze vezes no meu quarto para falar de assuntos práticos. Eu quero dizer pra ele que domingo não é dia de se ter assunto prático, mas recuo. Deixo que ele fale das novas contratações do ASA; das sandices da nossa prefeita, minha algoz; os tantos quilowatts que eu consumi e a justificação, se é que há, para o aumento da energia; a insistência para eu trocar algumas lâmpadas da minha casa e assim economizar... e lá se vão minutos importantes que poderiam ser dedicados à tentativa poética, ou a escutar músicas boas, ou a absolutamente coisa alguma senão desfiar o meu pensar, pensar...

Eu deixo que ele fale e quando penso que já falou tudo, há sempre detalhe importante a ser acrescentado. Eu deixo que ele fale porque ele gosta de ser bem informado e reproduzir essa informação. Eu deixo que ele fale e dou várias voltas no mundo até voltar a prestar atenção na sua fala bem intencionada, mas desprovida de estampado para um domingo.

Os assuntos da semana passada foram densos e tensos ao extremo, com a exata leitura da palavra. Matou-se muito pelo mundo afora das mais variadas formas e motivos. E sem motivos também. O dito popular “para morrer basta estar vivo” nunca esteve escrito em tanto negrito.

Para mim não tem tanta diferença se morreram dois jovens num bairro vizinho ao meu, ou os desenhistas da graça intolerante, ou os milhares de nigerianos, ou o moço que brincou com a própria sorte num país de leis rígidas ao extremo... lá vem a palavra extremo outra vez. Morte é morte e era pra ser de praxe da convivência humana que ela só acontecesse por meios naturais. Matar é pra bicho que tem que sobreviver no seu habitat, não pra gente. Embora seja eu gente grande e inserida nesse realismo cruel ao qual vivemos, me permito o direito dessa utopia, me permito pelo menos por breves e lúdicos momentos.

Quando ocorrem esses casos de repercussão mundial a comoção é diretamente proporcional. As opiniões também. Sejam elas contra ou a favor, elas vem aos montes e muitas são de causar indigestão por meses a fio. Há uma necessidade de se dizer o pensamento torto, machuque a quem machucar, a fim de provar inteligência em temas que nem sempre são de total compreensão do opinante. Mas, me desculpem se pareço estar tentando tolher o direito do outro de dizer o que bem entende... ou não entende. Que fiquem com suas impressões arrogantes e cimentadas, apenas lamentando que com tanta inflexibilidade não há de se ter melhor desenho da humanidade para um bom bocado de tempo futuro.

A Neusa ontem me chamou no bate papo do Facebook e eu apenas vi séculos depois. E perguntei hoje: “Era sério o que tu queria? Fiquei preocupada”, que me respondeu: “Não, eu só lembrei de você”.  Eu achei foi massa, porque afeto é massa, é sempre tinta fresca a colorir esse imenso mural infinito no qual estamos inseridos e, com um pouco de boa vontade e muito amor, tenhamos, então, motivos para seguir acreditando que o bem há de não sucumbir jamais. Supliquemos pela eternidade da ternura, amém!




sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

OS NOVOS DIAS DO VELHO TEMPO

O ano novo começou. Chega. Mais considerações sobre isso eu já nem sei da minha precisão de fazer, embora confabule comigo mesma, mentirosamente, vários planos daquela velha piada de dessa vez fazer valer as trezentas e sessenta e cinco oportunidades. Bora ver, né? Bora ver...

Hoje eu arrumei gavetas. Não foi algo simbólico em virtude de já fazer algo novo nos primeiros dias e encher o peito de orgulho pra dizer: “sou capaz de providenciar as mudanças que necessito”. Seria um belo início de um texto augustocuriano, mas a minha filosofia está pouca demais para essa firula. Dessa vez a arrumação foi feita na literalidade da palavra, não que me houvesse disposição, mas porque a Maria comentou que elas estavam bagunçadas demais e perguntou se eu não gostaria de ajuda para esse fim. Topei a parada.

A Maria é a moça que vem uma vez por semana ajeitar minha casa, para que eu possa esquecer que nos outros seis dias ela é uma filial da bagaceira. Ela queria motivo pra se demorar mais aqui e só precisar ir pra casa no fim da tarde. O marido e ela discutiram e dormiram ontem de mal. Maria não gosta quando isso acontece, principalmente porque ele é turrão e nunca reconhece que errou. Maria sempre quem tem que se desculpar mesmo quando não tá errada, que é pros meninos deles, os seis, não ficarem triste. Maria é conversadeira que só e hoje eu me compadeci um pouco por causa do seu descontentamento. Brigou justo no dia do seu aniversário de amor, numa virada do ano da qual não se lembra com exatidão... dessa vez achou que ganharia o presente suplicado todo ano nessa data, mas ela acha que ele arranjou um pretexto pra brigar e escapulir outra vez desse romantismo. Eu disse pra Maria que infelizmente as pessoas não são como a gente gostaria que elas fossem e que não é bom levar problemas para a cama, bacana é resolvê-los sempre antes.

Dei conselhos bonitos sobre o que é para mim desconhecido. Eu só quis desentristecer um pouco a Maria...

E a mim, quem ajuda eu não sei. Amanheci semiviva no dia de hoje, com uma noite de sono tão bem dormida que nem sei definir com belezura. Isso depois de duas noites cantando errado a letra do Renato Russo: “é preciso BEBER como se não houvesse amanhã”. Mas havia o amanhã. E não havia Engov. A primeira lição aprendida no novo ano é que, porque o seu irmão faz caipifrutas incríveis, você não precisa ser a degustadora oficial e sempre alerta.

Eu bebi para desentristecer, leãozinho. E porque estava alegre também. E eufórica. E com a sentimentalidade elevada à máxima potência. E ansiosa. Uma conjuntura de sentimentos que desmantela o emocional da pessoa. Eu bebi porque sim. Mas nem foi o que se pode caracterizar de porre, só um alegrismo, compreende? Se não, não gaste sua reflexão com assunto tão besta.

Aí o Rafael foi me ver. Meus irmãos, sempre atentos, me perguntaram depois de onde eu conhecia aquele moço. Falei: “conheci ontem pessoalmente, nos falávamos só pela internet até então”. Se entreolharam achando a coisa mais estranha do mundo e eu falei pra se ligarem nas novas estradas da conexão entre pessoas, que acontece das formas mais variadas e quando é bacana, tende a causar naturalmente o abraço físico.

Eu e o Rafael estávamos nos devendo um abraço, mas sem cobrança. Morando na mesma cidade e mantendo uma amizade massa já há um tempo, eu disse pra ele passar na casa do meu irmão e ele foi. Eu e o Rafa conversamos pessoalmente com a mesma desinibição, casualidade, alegria e cumplicidade como se encontrássemos todos os dias. Não nascia ali uma amizade, ela apenas ganhou um retrato físico pra poder seguir com mais força ainda.

Quando ele chegou eu já havia chorado, borrado a pouca maquiagem, abraçado com tanto amor as pessoas, chorado a ausência eterna de uma e a ausência momentânea de outras. Eu disse tanto “eu te amo” nos meus abraços que por um instante pensei: “será que nesse momento o tal santo que anota o nome dos morríveis para aquele ano num caderninho, está anotando o meu? “. Talvez isso justificasse o chorismo exagerado. A Marina veio ralhar que eu estava chorando demais. Parei. Mas digo pro santo que ele não se atreva. Tem coisa demais que eu estou querendo dar conta e não ando com tempo para mortes descombinadas.

Texto grande, né? Obrigada por ter vindo até as últimas letras.

Bora ali que os dias novos do velho tempo nos esperam.

Beijos.