domingo, 22 de fevereiro de 2015

ENTRE ASPAS E OUTROS CARNAVAIS



Imbuída de um conhecimento sobre as coisas mais faladas, enchi o peito de indignação a fim de conversar com o meu amigo africano sobre o troféu patrocinado pelo ditador lá da Guiné Equatorial ganho pela Beija Flor nesse último carnaval.

Antes disso, dias atrás, meu irmão Jean me mandou uma mensagem me sugerindo escrever sobre isso, sobre a ausência do romantismo nos desfiles, que se fosse por justiça poética quem haveria de ter sido a campeã era a Portela, linda em seus milhares de tons de azuis. E repare que ele, Jean, tem simpatia por certa escola em verde e rosa. Eu respondi que escreveria sim... só não sabia como. Lá mesmo na casa dele, vendo a lindeza portelense, meu cunhado Jackson e eu comentávamos sobre a quase institucionalização da contravenção como parceira maior das escolas todas e seus luxos. Neguinho da Beija Flor, o cantor vencedor, disse que o dinheiro sujo tornou o carnaval um espetáculo.

Assim sendo, que diferença faz o dinheiro banhado á sangue do ditador africano, em comparação com o dinheiro sujo de cá? Esse pensamento desbotou um pouco da inocência que eu insistia em manter em relação a essas coisas do circo, do que é bonito só pra me distrair de pensamentos mais crus.

Pois bem, voltando ao meu amigo africano e a minha indagação cheia de convicção de estar sendo uma brasileira solidária em indignação e conhecimento das causas alheias. Perguntei: “Você acha que a Beija Flor deveria devolver o troféu de campeã em solidariedade aos seus irmãos de continente, pela absurda doação recebida, quando por lá a população é judiada ao extremo?”. Mandei bem demais, fui antenada, engajada, inteligentíssima, essas coisas todas...

“Bom, eu discordo com os ditadores que usam as riquezas dos países onde são administradores por fins e gloria pessoais despojando mesmo o mínimo necessário aos seus povos. Só não acho que a Beija-flor deveria devolver o troféu antes do governo brasileiro devolver o dinheiro dos impostos que Obiang e filho pagam dos numerosos bens e empresas que possuem nesse país. O Copacabana Palace deveria também devolver o dinheiro todo que eles pagam quando ocupam andares com familiares e amigos que vem gastar o dinheiro da Guiné aqui. E os humanistas que de repente amam demais a África deveria também se preocupar com a juventude negra e pobre que morre nos subúrbio do Brasil mais do que se morre numa guerra civil porque isso também pode se chamar de ditadura. A Suíça também foi homenageada, não foi? De onde vem o dinheiro da Suíça?”. “De toda a corrupção existente no planeta, oxente”. Eu respondi, lhe roubando uns risos antes que continuasse “Os neo humanistas cheios de ética não acharam uma vergonha homenagear um país que se enriqueceu com uma riqueza suja!”.

Fiquei sem tantas palavras. Cada vez que conversamos pra mim é um aprendizado e eu posso compreender que uma pessoa arengueira feito ele não poderia ser bem quista em lugares aonde a livre opinião, o coletivo, o bem comum não é lá coisa muito considerada. Posso imaginá-lo nos seus discursos inflamados buscando um tanto de justiça no lugar dele, que não é de onde veio o dinheiro enlameado da Beija Flor, mas bem poderia ser.

Por isso, veio e brasilizou-se o homem. É tão brasileiro que tem o desplante de lindamente me chamar de caipira e eu acabo achando graça. E ainda me corrige, o gringo dos discursos inflamados, já isso eu acho demais. Não vivi tanto tempo para ter o meu português beirando à perfeição sendo contestado por um querido invasor das pátrias alheias. Mas, o que eu não gosto mesmo é de ter que desenhar pra ele as minhas ironias sempre tão sagazes. Ironias explicadas perdem totalmente a razão de ser, eu explico sempre, sem de nada adiantar.

Enquanto isso, a TV ligada me consome a sensatez com tanta gente imitando um canto, mas gritando enlouquecidos. Fiz valer uma música suave nos meus fones de ouvidos, escutei repetidamente a mesma e linda música e quando meus ouvidos atentaram outra vez para a TV, a gritaria continua, coletiva e feia. Meu pai, se vivo diria: “esses aí se cantarem o dia todo, cantarão muito”.


Apenas, parem. Estou de TPM, não sou obrigada.


domingo, 15 de fevereiro de 2015

Ao Bruxo O Carinho e a Carta.

Arapiraca, 15 de fevereiro de 2015.

Querido Rodolfo,


Já passa da meia noite do sábado de carnaval que nem é do dia treze, mas, ainda assim decidi trazer o meu abraço, as minhas palavras, o meu carinho que é seu, sempre e tanto, mesmo que não nos falemos mais com a frequência de antes.

Eu poderia me ater a dissertar sobre a saudade, a falta que sinto de conversar com você, tê-lo por “perto” na ligeireza de um click e desse jeito poder lançar mão dos meus melhores risos e choros, e inventar as poesias mais desencontradas, para você me ajudar a colocar os versos nas suas devidas métricas e rimas. Sim, a saudade é senhora a se fazer presente. Tenho cá a impressão de que uma boa parte da minha composição enquanto bicho humano é de saudade e repare que ela não atua como uma espécie de colesterol ruim. A minha saudade é boa que só, embora vez ou outra faça latejar o peito de um sentir mais alvoroçado.

A essa hora, depois desse meu conversê, você me daria um poema, eu bem sei.

Pois é nisso que consiste o que insisto e avivo: em vez de saudade, pra não lamentar a ausência, eu me lembro para agradecer e me fazer honrada, sempre. Eu fiz um amigo de verdade, com toda a carga de sentimentalidade e bem querer que uma amizade pode conter. Eu fiz um amigo que me ofereceu muito mais que um ombro, para me ajudar a solucionar problemas reais. E foi uma oferta tão emocionada e generosa, que mesmo na impossibilidade de aceita-la, eu jamais esqueci. Eu pensei que o universo deveria se sentir lisonjeado de ter um sujeito desses como parte de si. Eu pensei que se eu merecia aquela dedicação e afeto desmedido, eu não deveria ser assim uma exemplar tão ruim de gente.

Eu fiz um amigo de verdade, a quem só vi uma única vez, mas tão fortemente ao ponto de fazer a nós dois na despedida alegre, como se afirmando o que já sabíamos ser de fato, um laço bonito de carinho e zelo, um se importar natural e bom.

Eu não me importo se já se passaram dois dias do dia treze. Minha amizade não vem com rótulo de data especial e pra ser sincera eu pouco tenho dado importância para os dias disso ou daquilo. Eu gosto mesmo é quando os dias se fazem de Sol, palavra e boniteza. Qualquer dia é dia pra se poder dizer ao amigo do seu bem querer. Todo dia é dia de se agradecer por poder ter estado significativamente perto e sorvido sem parcimônia os ares da sua poesia, do seu saber, da sua grandeza e generosidade.

Que você é um homem de inúmeros predicativos, isso já é sabido. Mas eu não me canso de falar que a generosidade pra mim é a mais exagerada delas. Fui tantas vezes vítima e feliz. Aprendi tanto consigo, rapaz! Queria ter aprendido muito mais, mas fui uma aluna dispersa várias vezes.
Agora, nesse instante em que a noite é só silêncio, embora seja carnaval, eu espero que você esteja bem. E nesse dia-a-dia sem charme e poesia, que você esteja todo cuidados consigo mesmo. Isso não é lá uma sugestão, é uma ordem mesmo.

Até breve, bruxo, meu bem.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Quando Fevereiro Chegou


Almoçando, eu, agora, e cantarolando uns versinhos do Cícero, menino que diz umas coisas bonitas demais nas suas canções. Eu cantava, um verso ou outro, e me lembrava do Vô que me chamava a atenção nessas horas, dizendo que era pecado comer e cantar. Que a hora da comida era sagrada e não se podia desperdiçar atenção com outras coisas sem importância.

Eu parava... depois cantava de novo. O Vô ralhava e sorria. Que a minha voz não é coisa muito bonita de se escutar cantando não, mas a emoção da gente não repara nessas coisas e eu acho é bom, senão, ai de mim, entoava desajeitada nem um versinho.

Fevereiro chegou pra preencher a sua gaveta e me encontrou numa ansiedade nível máster para lhe arranjar bagagem, oxente! E levando fé naquele dito que diz daquilo que a gente quer e precisa só acontecer no tempo certo. O tempo certo é um sujeito demorado, já ganhei ciência disso e tenho tentado ganhar também um bocado de paciência, sabedoria e eteceteras relevantes.

Embora ansiosa, carrego também um pouco de medo. É que espero uma cirurgia transformadora de corpos extremados em fofurice. Espero há tempos, mas a hora se aproxima, embora tenha acontecido impedimentos e estranhezas do acaso. Acontece que com essa onda de desagrado do brasileiro mais sabido em relação aos que, como eu, votaram na Presidente, temo que quando chegar na hora cirúrgica o médico me descubra nesse crime hediondo e diga feito as pessoas nas redes sociais: “Votou na Dilma? Bem feito! Agora vai ficar aí de bucho aberto que é pra aprender”. E se proliferariam memes em todos os cantos internéticos com a minha figura ensanguentada e dizeres satisfeitos deboche e vingança. Eu tentaria ganhar o coração do médico alegando que no primeiro turno não havia votado nela, e que mil vezes se fizesse aquela configuração do final, mil vezes eu repetiria o meu voto. Perigava, depois de tal afirmação, eu que nem carro tenho, ser obrigada a comprar litros e litros de gasolina por dia e ainda firmar campanha para arrumar um homem pra Presidente.

Quando leio coisas obtusas como essa de fazer alusão ao condicionamento, humor, ou qualquer coisa que o valha, de um vivente qualquer a sua carência sexual, ao fato de não ter ninguém do seu lado para as cópulas e tais, eu quero vomitar. Desde muito menina esse tipo de afirmação me deixava injuriada e eu concluo, então, que devo ter um “quê” de feminista. Será? Eu só sei que praticar do constante burrismo eu não quero. Dá pra se pensar o mundo de um jeito bem mais poesia e menos, bem menos rancoroso e vil. O meu umbigo nem é tão bonito assim pra eu perder minutos da minha vã sabedoria prestando atenção nele. O mundo é mais, bem mais que eu. E pra ele ser bom, é de lei que seja bom pra mim e pra tanta gente, pro todo, pro imenso chão e céu.

Vou seguir sonhando.