quarta-feira, 11 de março de 2015

ENCANTO

Eram quatro crianças. A coordenadora me chegou com eles pra conferir se os nomes constavam de fato das listas corretas, já que quase duas semanas depois do início das aulas, chegavam na escola a primeira vez. Pelos nomes me lembrei de quando as duas mães, vizinhas lá daquele sítio tão longe, onde nem chega água ou luz elétrica, tinham ido fazer as suas matrículas. Uma delas, mãe de três crianças; a outra, mãe de uma das meninas. Saindo dali iam na feira comprar umas bicicletas usadas que era pra facilitar a vinda deles pra escola... moravam longe demais. Então ali, conferindo as listas, eu perguntei pro menino mais velho se eram eles que moravam bem longe da escola e ele confirmou o que eu já lembrava. Segui perguntando se haviam vindo de bicicleta e ele me sorriu um riso tão largo e inocente, falando quase ao mesmo tempo que a menina sarará dos lábios pintados num rosa um pouco vivo demais pra sua idade, que vieram mesmo foi de carona numa carroça de burro. Não perguntei mais nada antes que fossem pras suas salas, mas fiquei com aquele riso puro na minha lembrança, pensando que, se cada um tem o que merece, aqueles meninos hão de ter uma transformação tão grande na vida deles, que toda boniteza desse mundo será pequena. 

domingo, 8 de março de 2015

PALAVRAS E FLORES PARA O DIA OITO

Pensei em fazer um texto bacana sobre o dia da mulher, mas pensei que amanhã estarão de volta os irrefutáveis pensamentos que nem precisam de dia especial pra serem ditos:

- Vai pilotar um fogão!
- Se home bêbado é feio, mulher é muito pior.
- Mulher tem que ser puta na cama e dama na sociedade.
- Esse mal humor todo deve ser falta de macho.
- Essa é pra dar uns pegas. Essa é pra casar.
- Se foi estuprada é porque provocou.
- Se apanhou é porque mereceu.
- Se foi promovida, deu pro patrão.

E várias outras pérolas repetidas incansavelmente ao longo dos tempos, nessa nossa sociedade conivente e passiva, quando lhe é conveniente.

Portanto, por isso, por mais, eu troco o buquês das flores mortas e os bombons recheados por um punhado mais de boa intenção nessa história de se respeitar a mulher naquilo que ela se propuser a ser ou fazer. “Cada um em si carrega o dom de ser capaz”, não canta assim o Almir Satter? Pois bem, caminhemos, então, no sentido de se abolir esse pensamento troncho de se tentar moldar, rotular, impor à mulher o comportamento que um dia se desenhou pra ela.

Alta, magra, gorda ou baixinha. De saia curta ou vestidão. Mãe casada ou mãe solteira, separada ou namorada. Dona de casa ou dona do mundo. Feminina, feminista, fêmea, forte, frágil fera. Mulher, mulher!

É de liberdade o que eu estou falando. É da sua satisfação em ser o que bem lhe aprouver, seja lá piloto de fogão, bicicleta ou avião.

Então, não querendo ser mal agradecida, não me venham com um dia. Eu quero o tempo inteiro.





domingo, 1 de março de 2015

A HORA É CERTA


As primeiras letras do mês de março, que chegou sem chuva ao menos por enquanto, ao menos por aqui. Que de chuva se está precisando e muito. E de esperança também, num verde viçoso, bonito de se ver... que o que se espera um dia há de se ver? Eu espero.

Tenho feito isso, esperado, depois desesperado um pouco, mas nunca cumprindo a verdadeira missão da palavra. Desespero é coisa que eu não gosto de praticar. Melodramatizar, talvez um pouco, cada um tem o direito de ser aquilo que lhe convém em determinado instante ou situação.

Resignada, escuto e assimilo as palavras de clichê e afeto de quem me é puro amor sobre a tão falada e desejada hora certa, que acontece quando realmente for para acontecer, no tempo de Deus e todos os carinhosos eteceteras. Embora compreenda, me permito um choro íntimo e silencioso, que se cumpre breve, antes que eu outra vez esteja aqui, ou acolá, esperando o que for pra ser vigorar.

Enquanto isso o tempo que não espera, não para. Se vai sem mim e eu receio não saber por quanto tempo ainda terei forças para correr e acompanhar os seus passos, que não são ligeiros ou demorados, são apenas os passos do tempo. Assim como o choro, é um receio silencioso e breve, que eu canto, assobio, espanto. Eu permito que fique, mas nem tanto.