sexta-feira, 15 de maio de 2015

SINTOMAS


Ando com sintoma vários: alegria, ansiedade, uma pitada de dor, muito mais de confiança de que tudo está acontecendo do jeito certo. Havia em mim muito receio de como seria essa etapa nova e extremamente diferente da minha vida depois de ter meu estômago remendado naquela mesa de cirurgia. Cicatriz vertical e enorme. Maior ainda são os poréns, pormenores, a conscientização de que agora são outros quinhentos. Ser responsável sempre foi algo a me causar estranheza, mas a hora pra isso chegou, sem condição nenhuma de passar a responsabilidade a outrem.

Mas, que raios de pessoa se submete a uma situação tão contundente, beirando à mutilação de si apenas porque não consegue a belezura do emagrecimento? Respondo sem titubear: Eu! E não sou lá do tipo a gostar de esmiuçar explicações. E deixo pra lá os julgamentos de quem acha a arte do emagrecimento a coisa mais fácil do mundo, sendo os que não conseguem um bocado de preguiçoso comilão. Como diria o presidente da vassoura: “fi-lo porque qui-lo” e pronto. Quer dizer, quase pronto. A questão é complexa e duradoura. A vida toda nessa ciranda maluca tentando conviver em paz com o próprio corpo, mandando às favas os padrões de beleza é mais simples quando não estão em jogo também os padrões de saúde e não se carrega uma muleta embaixo de cada braço. Obesidade e paralisia ao mesmo tempo foi toda a vida pesado demais – escapuliu o trocadilho – para mim, então inventei-me de uma coragem não imaginada e comecei a traçar, pelas mãos dos médicos, um novo caminho pra minha vida.

Mais de um mês se passou desde a cirurgia e o caminho não tem sido o mais simples, mas há clara possibilidade de percorrê-lo. Além do mais, não há opção outra. Seguirei a vigiar-me nas minhas poucas colheradas de comida e as medidas líquidas, que por serem poucas mesmo assim satisfazem. Pretendo, preciso, continuar descobrindo esse quê de equilíbrio contido em mim pra que eu não me boicote, pra não ser burra, pra não estragar tudo no futuro... pra não morrer de desgosto por ser minha própria algoz.

Não é certeza de conseguir, mas é incontrolável o desejo de tentar, tentar, até o fim...