segunda-feira, 21 de setembro de 2015

MEIANOITECEU



Já passava da meia noite quando escutou algumas batidas leves na porta. Antes que bem abrisse a visita entrou com jeito de não ter pressa para ir-se dali para mais longe. Solidão era o seu nome, mas tinha vezes de roubar identidade alheia e usava a alcunha de liberdade. Não fazia por mal, era apenas pra não causar uma sensação maior de vazio no peito do sujeito, então vestia essa roupa de transparência, que ia com o vento pra lá e pra cá. Agora, a meia noite acontecia silenciosa, enquanto a visita se acomodava num canto, entre goles de café e uns suspiros de memórias.


domingo, 20 de setembro de 2015

Calma, Betty, Calma

Fiquei revoltz com a Betty Faria dizendo ao mundo que tem repulsa das gordas, Pensei em lhe enviar uma carta aberta dizendo que ela, como pessoa pública, não poderia dar uma declaração dessas, que é um desserviço, que é mais um monte de outras coisas igualmente ruins,enfins. Mas nessa vida a pessoa tem o direito de gostar do que quiser e igualmente o inverso, não gostar também. A mim cabe apenas achar a sua opinião uma besteira imensa, uma burrice na mesma proporção, uma perda de tempo que reserve parte de sua energia para simplesmente sentir repulsa por quem não é esteticamente de um jeito que lhe agrade. Dona Tieta do Agreste, apenas se lasque... e fim.

E a coisa fica mais estranha quando você se destina a ler os comentários na respectiva postagem. Meu Padinho Ciço Romão Batista, me alumie. Que louco as pessoas se disfarçando de preocupadas com a saúde alheia e condenando a obesidade. Não, eu não estou desdizendo o óbvio e afirmando saúde na obesidade. Sim, é um perigo descomunal. Todo obeso tem mais chance de ter problemas cardíacos, AVC e etecéteras. Todo obeso sabe disso, acredite. O obeso sabe bem o risco que corre e as razões que o impedem de emagrecer são várias.

Então se você puder apenas respeitar e mastigar bastante o seu “não gostar” daquilo que não lhe atinge, por favor cometa esse bom senso. A não ser que se junte um bocado de gordo na sua porta lhe maldizendo por você ser feio, estranho, patético, idiota, aí você tem direito de replicar e jogar-lhe na cara também os seus defeitos pesados. Todo mundo tem o direito de ser o que quiser nessa vida, inclusive um intolerante imbecil.

Enquanto emagrecida, já escutei um bocado de elogios dizendo que agora estou bonita. Acho graça e agradeço, embora saiba bem utilizar o meu filtro de elogios. Me lembro das mesmas pessoas dizendo antes, quando eu andava de par com o meu peso excessivo, o quanto eu era linda e muitas outras mentirinhas bem intencionadas. Eu sabia bem o que era, sei bem o que sou agora. Não havia perfeição lá atrás, hoje também não há. Apenas uma pessoa se adaptando a uma vida diferente e experimentando das suas beneficies todo o santo dia assim que o Sol me acorda.

E bora lá que tem mais um monte de viver esperando, leve ou pesado, ele vem. Vou ali escutar mais um bocadinho de John Legend, que eu vi o show no rock do Rio e foi bom que só. Perdão ao mundo por eu ser piegas e ter tido vontade de dançar com aquele moço do olho puxadinho, covinhas lindas e aquela voz de lindeza imensa. A pessoa tem uns rompantes de cafonice romântica, amém.


Apenas parem de xingar a pobrezinha da segunda-feira que ela não tem culpa dessa vida que se avia. Um beijo!


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O Beijo dos Outros Ventos


Ensaio palavras quando já é quase meia noite desse dia dez de setembro, quase sexta-feira. Ensaio palavras que ainda não tenho exata ideia do que dirão ao tempo em que Renato Russo canta aos fones em meus ouvidos. “O pra sempre sempre acaba”, é o que me diz ele e eu tenho cá a desconfiança de que seja bem verdade. Nada nessa vida é eterno, só o amor o é porque ele pode até dar uma fraquejada, mas morrer mesmo, morre não senhor.

O pra sempre, sempre acaba. É verdade, Renato, é verdade, Legião. E não há muito o que eu ou você possamos fazer para evitar que aquilo que há instantes parecia vestido de infinitude simplesmente seja outra coisa qualquer que não aquilo a nos causar um contentamento desmedido. Quando se vê, o que era já não é mais. Tudo, ou muita coisa do que era, ganhou outras nuances, trilhou outros caminhos, perdeu-se de nós, do nosso afeto e saiu por aí a ser beijado por outros ventos. Como isso foi possível? Por que deixamos, eu e você, de sermos interessantes ou especiais? Eu não sei. Talvez porque essa coisa de sentimento não seja feita pra vida toda. Talvez porque tudo tem que se metamorfosear sim senhor. Talvez...

Conjecturar é o que resta quando desafinamos a melodia e essa tal transformação acontece sem jeito de reparo. As pessoas vão e vem da nossa vida e isso é imutável. As pessoas vão e vem da nossa vida e eu não sei direito como ajeitar o pensamento quando acontece essa ida. Eu também vou embora da vida das pessoas sem nem perceber direito, tem vezes. É um direito meu, é um direito delas partirem de mim. Mas, é estranho isso de abandono de afeto, eu acho. Essa coisa de num click definir-se ausências é pra eu não me acostumar nunca nessa vida, mas sigo dizendo do direito que se tem de não ficar. Partir é preciso, assim como navegar? Eu diria que partir é de uma vilania incrível, porque quem fica só lamenta, questiona, se culpa e de certa forma se acovarda quando cala o grito que talvez pudesse reaproximar os afetos, os amores, as amizades. 

Então o tempo, senhor de todas as coisas, trata de cuidar do desassossego. Seguimos eu e você esperando que tudo retorne aos velhos retratos de outrora até que, de tanto esperar, tudo vire saudade ou desimportância. Tudo, exceto o amor, exceto o amor!



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Das Gelatinas e as Dores do Mundo

Receio que este blog acabe se transformando numa espécie de diário pós-cirúrgico para atualizar a todos sobre quantos grãos de arroz e feijão eu pude comer hoje ou quantos quilos deixei pelo caminho sem quaisquer resquícios de remorso durante esses meses que já estão às portas do quinto. Vinte e nove quilos, sem a exatidão dos gramas pra mais ou pra menos, foi o quanto emagreci e isso é verdadeiramente incrível. E maravilhoso. E improvável há tempos atrás.

É claro que o efeito “mulher gelatina” me acometeu, mas cada um é a mulher que pode ser, ao menos por hora. E, repare, o prazer, a leveza de estar é tão prazerosa que eu me importo pouco com o aspecto balançante das carnes. Mas me importo, cá não atuarei de hipócrita. Mas, repare de novo, é isso um detalhe tão miúdo quando agora eu consigo caminhar de lá pra cá sem precisão de pedir socorro às cadeiras. São coisas pequenas das quais eu não mais me lembrava. São coisas pequenas que se agigantam aqui nessa minha alma rebuliçosa. São coisas boas, são sim senhor.

Enquanto isso, por aí, pelo mundo ou aqui tão perto, as coisas seguem acontecendo para o nosso espanto, encantamento ou profundo desencantamento, porque viver é invariavelmente misturar essas coisas toda um monte de outras mais, num revezamento louco e incessante. Segue-se vendo pela TV meninos mortos, meninos vivos e famintos, pessoas desesperadas esperando que dos céus se ajeite uma solução para o caos das suas vidas miseráveis.

Por aqui, pelas calçadas, becos e buracos, também se vê meninos mortos ou famintos desenfeitando o ir e vir das gentes de bem.  Escolheu-se, porém, um indignar-se diferente, porque os meninos de lá merecem o clamor. Os meninos de cá devem merecer um tanto de vergonha nas suas caras pequenas e que se ajeitem na vida, ainda que a vida não lhes dê nada, ainda que não lhes apontem um norte, ainda que não os acolham. Que se não se ajeitarem, a vida o fará, a polícia o fará, a justiça o fará.


Afora as dores de um mundo doente, é preciso caminhar os dias sejam eles de Sol ou chuva forte. Que eu nem acho a chuva assim uma vilã, porque fosse todo dia ensolarado e claro, haveria de estar a onde a poesia? Que a poesia pra mim está justamente no embrulhar de tantos sentimentos, sensações, situações distintas e complementares vivenciadas nesse absurdo de possibilidades que é o cotidiano. É preciso caminhar apesar do menino morto na praia, ou os invisíveis nas nossas calçadas. E que não nos falte, nunca, capacidade de indignação para quando as coisas forem realmente doloridas e façam sangrar o coração das gentes todas, ou o nosso próprio coração, que embora sozinho, será capaz de ajeitar um sentimento melhor para fazer menos doente esse mundo, vasto mundo sedento de amor.

Volto já.