segunda-feira, 28 de março de 2016

Uns Quilos e Outras Considerações


Essa coisa do tempo medido e contado na sua exatidão me dá um pouco nos nervos. Posso bem, se eu quiser, contar as coisas de um jeito aproximado e mesmo assim elas terão o valor de um aniversário.
Pois bem. Já faz pra quase um ano que a minha voz continua a mesma, mas o meu cabelo, quanta diferença! Essa fala roubada do comercial antigo da TV não se trata de uma pintura capilar ou qualquer coisa que o valha. Meu cabelo, que era até bonito e sem pintura nenhuma, hoje é estranho, alheio, frágil... Eu não me importo. Ou me importo pouco. Sei lá. A verdade é que reparo nele quase nada que é pra não perder muito tempo com inquietação desnecessária.

Já faz pra quase um ano que o meu cabelo nem imaginava que ganharia transformação obrigatória porque o meu organismo também sofreu mudanças impostas a ele, sem que sequer lhe fosse consultada a opinião. É preciso adaptar-se, eu vivo repetindo para esse meu corpo, mente, e tais, desde que estive naquela mesa de cirurgia oferecendo o meu estômago em sacrifício. Mudança extrema. Mudança para a vida toda. Emagrecimento constante e radical. Peles aos montes, desnecessárias, mas fundamentais no sentido de apontarem a todo instante que o caminho feito foi bonito sim senhor!

Eram cento e vinte e um quilos naquela manhã de quinta feira, em que sem nenhum pingo de ansiedade eu estive acordada por poucos minutos no centro cirúrgico. A partir de então, nunca mais estes cento e vinte e um quilos foram reais. São só lembranças do que eu fui a vida quase inteira e eu não os repugno. Eles foram o que eu fui externamente. Eles foram as minhas dificuldades, o sedentarismo absurdo, comodismo, falta de força de vontade... qualquer coisa que você quiser que tenha sido, mas eles foram o que eu fui.

Hoje, nessa segunda feira que eu não fui trabalhar porque meu maxilar dói uma dor misteriosa, porque tenho cólica, porque amanheci de lábio inchado pelo beijo do mosquito, me fiz pensamentos desse quase um ano de quilos indo embora sem que eu possa ou queira controlá-los. Segundo me disseram os da equipe do doutor Guilherme, homem de jaleco branco mais gente boa do universo, são dois anos nesse processo de desengordar. Depois... depois é fazer valer o sacrifício e não se permitir emburrecer, o que nesse caso implica fundamentalmente nos cuidados para não comer todos os quilos outra vez.

Quarenta e três quilos ficaram pela estrada como sementes enfeitando o chão. Sou, nessa hora, feliz por motivos tantos que eu nem preciso listá-los, você, caro leitor, bem pode supor.

Mas eu não sei e nem quero ser porta bandeira da causa do emagrecimento. É de lei da vida cada um saber de si o seu melhor e se para mim os verbos viver e emagrecer haveriam de fazer parceria, para outras pessoas não necessariamente. Que se oferecer a esse ato extremo de viver a vida comendo num pratinho de sobremesa é de ser feito apenas se a pessoa não encontra para si outra alternativa de seguir. Não vou nunca sair por aí aconselhando estômagos reduzidos porque pra mim está dando certo. Como diria o Jânio da vassoura: “fi-lo porque qui-lo”, mas o fiz muito bem pensado.

Não consigo fazer um texto motivador sobre o quanto minha baixa estima deu uma sacudida nesse tempo de quase um ano. Baixa estima, aliás, é um rótulo simplista demais para resumir o quão uma pessoa pode estar se sentindo frustrada porque ninguém sabe exatamente os seus motivos. Eu não estive vivendo a vida me sentindo inferior por ser gorda. Eu não estou me sentindo superior por estar emagrecendo. É muito mais intenso que isso. Estive triste porque certo dia chovia e eu queria Sol. Estive alegre porque certo dia chovia e eu gostava de espiar as gotas deslizando pela vidraça da minha janela. Viver é tanto! Não simplifiquemos os sentimentos dos outros só porque fingir compreendê-los nos torna supostamente sábios e boas gentes.


Abraços.


5 comentários:

  1. Milene, você fez o que sua alma te pediu e está feliz. Isso é que interessa o resto é só demagogia. Meus parabéns por sua obstinação e por você ter conseguido. Mulher resoluta pra caramba ! Beijo

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  2. Milene, que bom que conseguiste deixar tantos quilos no caminho e nem os queres nunca mais de volta! Força de vontade e coragem tiveste! Bom te ler,beijos,chica

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  3. Milene, que saudade grande de ler você!!!
    O texto mostra o quanto a escolha pela redução foi bem pensada, porque o que é bem pensado, é duradouro.
    Imagino que com essa nova fase tantas outras novas fases começaram e que tudo continue correndo bem e cada vez melhor, no corpo, na alma, na vida.
    Abraços!

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  4. É preciso uma força de vontade tremenda para perder esse peso.
    Os meus mais sinceros parabéns!
    Boa semana

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  5. Milene Lima

    Tenho uma janela por onde vara cores de momentos
    E uma eterna mania de sonhar.

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