quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

As Letras

Uma das matrículas que fiz hoje, a senhora estava toda contente porque o filho agora fará o segundo ano do Ensino Médio. O menino sorria de canto a canto da boca. Ela, jeito retraído, lenço na cabeça, daquele tipo de gente que deve ter um dia a dia exigente, sofrido, guerreiro mesmo. Apenas mais uma das tantas mães que querem mesmo é fazer o filho ser gente, ter vida melhor do que a que tiveram. Na hora de assinar a matrícula, falou sem graça e mostrando o polegar, que era com o dedo a sua assinatura.  “Nunca dei valor pros estudos e agora me arrependo porque estou velha e já é tarde”. Disse a ela, numa daquelas falas bonitas de auto ajuda, que nunca é tarde para nada nessa vida. Disse a ela que na TV toda hora mostra pessoas com mais de oitenta anos arranjando diploma em faculdade e isso é lindo, quando é da vontade da pessoa. “Eu ainda posso, né?”. Afirmei, categórica, que se ela quisesse poderia sim. Mas disse também pra ela não ficar com vergonha de não saber fazer o próprio nome. Falei isso envolvida num sentimento de ternura por aquela mulher, contrastando com um pouco de pena. Não saber assinar o próprio nome deve dar à pessoa uma espécie de sensação de aprisionamento. Como se não se fosse completamente dono de si. Falta algo, um pedaço, por menor que seja. Eu tenho um irmão que faz pessimamente o próprio nome e imagino que não passe pela sua cabeça a possibilidade de se sentar numa cadeira qualquer a fim de ensaiar a repetição das letras, a essa altura da sua vida. Seria bonito se ele quisesse. Mas eu sei que as pessoas sem alfabetização possuem uma leitura da vida que é bonita demais. É singular e várias. Viver é essa vastidão de possibilidades. Cada um que faça a sua poesia com as letras que lhe aprouver.

2 comentários:

  1. Que sensação de alegria dessa mãe trazendo o filho pra ser GENTE, como ela falou e como assim ela não se sente, pelo que deixou de fazer... Triste,mas é a realidade de tantos,que mesmo assim, tanto fazem! bjs praianos,chica

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  2. Peraí, que caiu um cisquinho no olho aqui...

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