quarta-feira, 5 de junho de 2019

TANTA SAUDADE SENTIDA


Pensei em tentar um soneto para ele, onde estivesse, ficasse alegre. Rodolfo sempre ficava alegre e orgulhoso quando eu lhe mostrava poesia. Mas, repare, hoje soaria superficial e eu ando fazendo careta às superficialidades, embora nem toda hora consiga me livrar delas.

Rodolfo merecia o melhor soneto do mundo poesia inteiro. Ele, na verdade, era o mundo poesia inteiro. Não me lembro de pessoa que mais poesia tivesse na veia, na alma, na voz...

Faz hoje três anos que ele partiu. Engraçado como a gente fica procurando palavra menos dolorosa para dizer da morte. Ela, por sua vez, pouco se importa com a dimensão da dor que causa em quem fica.

O meu jeito de dizer saudade é esse, em conversa comprida tal qual tivemos tantas vezes, com assuntos tantos. Rodolfo era tão generoso nesse mundo! Um dia, eu às voltas com os ataques da minha vesícula (vulgarmente chamada de Vê), ele me disse:

- Miminha, faça logo essa cirurgia pra não ter um problema maior. Eu empresto o dinheiro e depois você me paga quando puder.

Eu obviamente declinei da oferta, mas fui comoção àquela noite; chorei descompassada porque um amigo lá de longe, que sequer havia me dito, me abraçava daquele jeito inocente.

Tempos depois nos encontramos em Maceió (Ama-se e ó) e foi incrível. Na areia da praia Simone, que também havia vindo do Rio de Janeiro para esse encontro, Giovanna e eu esperávamos ele, Dora e Denise – esta vindo de Curitiba.

Não me sai da memória a imagem daquele homem imenso, num caminhar lento, de bermudas, chinelos e meias, apoiado numa bengala, chegando cada vez mais perto. Ele era o que eu conhecia pelos blogs, meu e dele; ali estava o Rodolfo das chamadas de MSN, toda hora levantando pra pegar cerveja; o que me ensinou sobre métrica, embora eu nunca tenha aprendido o suficiente.

Quando nos despedimos, naquele fim de semana, choramos um choro que não era triste, embora já adiantando saudades. Todos esses anos eu tenho recorrente lembrança boa da imagem dele chegando e eu penso que foi por mim, embora tenha sido por todos nós que estávamos ali.

Foi muito rico o tempo em que convivemos. Eu provavelmente não seria hoje acusada de escritora ou poeta se ele não tivesse me incentivado tanto, inclusive em relação à publicação do livro, em coloio amoroso com Simone e Denise. A morte o levou antes do livro nascer e eu consigo imaginar o tanto de orgulho que ele sentiria de mim.

É assim quando se tem afeição, se torce um pelo outro; se abraça e faz um ajuntamento de ideia e carinho; se diz amorosamente que zodíaco é diferente de zoodíaco, embora no horóscopo tenha muito animal. Quando um afeto encontra outro, ama-se e, oh!

Não há lugar melhor pra dizer hoje da lembrança dele que é toda hora viva, do que aqui no blog. Empoeirado, portas um tanto emperradas, mas ainda é meu e dos retratos da minha memória. 



Um comentário:

  1. Milene, como é bom viver amizades assim e quando amigos de blogs, de tão longe, oferecem ajuda isso fica mais lindo e significativo que tudo! Lindo demais. E como passou o tempo!!! Já três anos! Credo! Que bom tantas doces lembranças ele deixou e momentos legais viveram! Adorei te ler e ele, de onde está deve ter ficado feliz, tirado o chapéu pra ti! beijos, chica

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